Uma embarcação feita com resíduos marinhos atravessou uma das passagens mais conhecidas da Austrália e levou ao debate sobre reaproveitamento, lixo plástico e soluções criadas fora dos modelos tradicionais de construção naval.
O australiano Samuel McLennan transformou resíduos retirados de praias, fazendas marinhas e áreas costeiras da Tasmânia em uma embarcação funcional e cruzou o Estreito de Bass, passagem marítima entre a ilha da Tasmânia e o continente australiano.
Batizado de Heart, o barco foi montado à mão com cordas de pesca, sacos de ostras, plásticos agrícolas, boias antigas e estruturas usadas na aquicultura, em um projeto que reúne reaproveitamento de materiais, navegação experimental e debate sobre poluição marinha.
A chegada a French Island, no estado de Victoria, mobilizou moradores antes mesmo de a embarcação atracar no píer de Tankerton.
-
Planeta rosa com nuvens de sal surpreende astrônomos: James Webb desvenda atmosfera cheia de água, metano e amônia, mas deixa no ar a maior dúvida sobre o GJ 504b — afinal, é planeta gigante ou anã marrom?
-
Você pode estar facilitando a entrada da aranha-marrom sem perceber; conheça os esconderijos favoritos e os truques gratuitos que reduzem o risco de picadas
-
O natto parece estranho, forma fios pegajosos e assusta pelo aroma intenso, mas virou queridinho de quem ama novidades gastronômicas, ganhou fama de superalimento nas redes sociais e levou o Japão a exportar 5.248 toneladas somente em 2025
-
Prefeito de Santa Catarina se disfarça de morador de rua por quase 24 horas para avaliar na prática os serviços públicos da própria prefeitura
A informação de que um “barco feito de lixo” se aproximava circulou por grupos locais de mensagens e levou curiosos até a margem para observar a estrutura, construída com materiais descartados e usada em trechos de navegação costeira.
O projeto ganhou repercussão porque McLennan não construiu apenas uma instalação visual ou uma peça de protesto.
Ele montou uma embarcação capaz de navegar, com apoio de motor de popa e vela, usando materiais que normalmente seriam tratados como descarte.
Segundo relatos sobre o projeto, a estrutura foi desenvolvida ao longo de cerca de dois anos, período em que o australiano reuniu resíduos encontrados em regiões costeiras e testou formas de encaixar, amarrar e reforçar peças sem partir de um modelo naval convencional.
Barco feito de lixo marinho reaproveita boias, cordas e sacos de ostras
A base da Heart foi composta por grandes flutuadores escuros de polietileno e boias reaproveitadas de fazendas de peixes e ostras.
Também entraram na construção cordas comerciais, redes, sacos usados na criação de ostras, lonas, plásticos e outros resíduos recolhidos na costa da Tasmânia.
Em uma das descrições do projeto, a embarcação de 27 pés aparece apoiada em 22 boias pretas, além de dezenas de boias brancas de poliuretano.
A vela seguiu a mesma lógica de reaproveitamento.
Parte dela foi feita com materiais descartados, incluindo lona de caminhão e tecidos encontrados em áreas costeiras e urbanas, costurados com linha de pesca.
O resultado se diferencia de um veleiro tradicional pela composição irregular dos materiais, mas foi projetado para cumprir uma função prática: flutuar, resistir ao deslocamento no mar e servir como ponto de partida para conversas sobre o destino do lixo que chega aos oceanos.
Para McLennan, a embarcação funciona como uma “estrutura para conversas”.
A frase sintetiza a proposta declarada por ele: transformar resíduos visíveis em um objeto de uso real.
Em vez de tratar a poluição marinha apenas como estatística, o australiano reuniu parte desses materiais e os converteu em meio de transporte.

Ideia surgiu após projeto rejeitado e ganhou forma na Tasmânia
A origem da embarcação passou por uma sequência de frustrações profissionais e pessoais relatadas por McLennan.
Ele havia tentado desenvolver uma proposta para transformar uma balsa desativada em um espaço flutuante de inovação, com atividades ligadas a liderança, empreendedorismo e convivência.
O plano não avançou.
Depois disso, uma sugestão do pai mudou o rumo do projeto: por que não construir a própria “ilha de inovação” com resíduos de fazendas marinhas?
A ideia inicial não era, necessariamente, erguer um barco.
O projeto começou como uma tentativa de explorar o que poderia ser feito com materiais descartados.
Com o tempo, a estrutura ganhou forma náutica.
McLennan relatou que precisou testar combinações, observar quais peças se encaixavam e entender como tornar o conjunto mais resistente.
Sem uma planta pronta, o processo avançou por tentativa, erro e adaptação.
Em entrevista citada pelo jornal The Guardian, ele resumiu a virada pessoal com uma frase curta: “nada é o berço da criação”.
A construção da Heart passou a representar, nas palavras e ações do próprio McLennan, uma reinvenção individual associada a uma reflexão sobre desperdício e descarte de materiais.
Travessia pelo Estreito de Bass colocou embarcação à prova
O Estreito de Bass separa a Tasmânia do sudeste da Austrália continental e é conhecido por exigir atenção de navegadores por causa das variações de vento, mar e corrente.
No caso da Heart, o desafio envolvia uma embarcação feita com materiais reaproveitados, sem o desenho padronizado de um barco fabricado em estaleiro.
Antes de ganhar autonomia em trajetos mais longos, o projeto enfrentou resistência de autoridades marítimas, que limitaram inicialmente sua operação a águas costeiras.
Mesmo com essas restrições, McLennan avançou por etapas.
Em abril de 2024, depois de 18 meses de construção em terra e mais seis meses de trabalho na água, ele partiu de Hobart, capital da Tasmânia.
A jornada seguiu por trechos costeiros, com paradas, testes e períodos de espera por condições de navegação consideradas adequadas.
Em 2025, a embarcação já havia cruzado o Estreito de Bass e chegado a áreas de Victoria, como Wilsons Promontory, Phillip Island e French Island.
A navegação não tinha como foco a velocidade.
Em entrevista à revista YACHT, McLennan descreveu a Heart como um barco lento, capaz de avançar em média entre 2,5 e 3 nós.
O deslocamento dependia do vento quando possível e do motor de popa em outras situações.
Essa característica fazia parte do caráter experimental da viagem, realizada em etapas e com monitoramento constante das condições do mar.
French Island reúne moradores acostumados ao reaproveitamento
A parada em French Island reforçou a relação entre o projeto e o reaproveitamento de materiais.
A ilha tinha 139 habitantes no Censo australiano de 2021 e mantém uma rotina marcada por isolamento geográfico, vida comunitária e autossuficiência.
A comunidade local administra um aterro aberto para uso de moradores e associados, monitorado por regras ambientais, segundo a French Island Community Association.
Nesse contexto, o barco de McLennan encontrou um público habituado a reutilizar objetos.
Moradores relataram que materiais descartados no depósito local podem virar móveis, estruturas de casas e soluções práticas para a vida em uma ilha sem a mesma infraestrutura de áreas urbanas.
O guia local Sean Ryan resumiu sua avaliação sobre a iniciativa ao dizer: “Aqui está alguém fazendo algo real.”
French Island também é conhecida pela presença de coalas e por uma vida comunitária distante do ritmo das grandes cidades.
Para McLennan, esse ambiente mostrou como limitações de infraestrutura, escassez de recursos e distância dos centros urbanos podem estimular soluções baseadas no reaproveitamento.
A Heart, nesse cenário, passou a dialogar com práticas que já fazem parte do cotidiano de moradores da ilha.
Dados sobre lixo plástico ajudam a explicar impacto ambiental
A história chama atenção por transformar um problema ambiental amplo em um objeto concreto.
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente estima que, a cada ano, entre 19 milhões e 23 milhões de toneladas de resíduos plásticos vazem para ecossistemas aquáticos, incluindo rios, lagos e mares.
Segundo o organismo, esses materiais afetam habitats, processos naturais e atividades humanas ligadas à pesca, à alimentação e à renda.
No caso da Heart, o lixo não aparece apenas como número.
Ele está nos flutuadores, nas cordas, na vela e nas amarrações.
Cada peça reaproveitada mostra a permanência de materiais sintéticos no ambiente marinho e a dificuldade de lidar com resíduos produzidos por atividades industriais, recreativas e costeiras.
A embarcação não foi apresentada por McLennan como solução para a poluição dos oceanos.
Sua função, segundo o próprio projeto, é demonstrar que alguns resíduos podem ganhar novo uso quando passam por coleta, seleção e adaptação.
Do ponto de vista ambiental, a experiência evidencia uma contradição comum nos materiais plásticos: a resistência à água, ao sol e ao desgaste ajuda a explicar tanto sua permanência no ambiente quanto sua utilidade em uma estrutura flutuante.
Construção experimental mostra limites e usos de materiais descartados
A Heart também apresenta uma forma de construção baseada em adaptação de materiais.
Em vez de peças padronizadas, McLennan usou itens de origem diversa, tamanhos variados e diferentes níveis de desgaste.
Isso exigiu observação constante durante a montagem.
O australiano afirmou que não havia um modelo pronto e que precisou experimentar combinações até formar uma estrutura capaz de flutuar no mar.
Esse tipo de improvisação mantém riscos próprios da navegação e exige avaliação permanente das condições de uso.
A segurança depende da leitura do mar, da resistência da estrutura, da capacidade de resposta do condutor e dos limites da embarcação.
Por isso, a jornada foi feita em etapas, com paradas e adaptações ao longo do caminho.
A travessia do Estreito de Bass se tornou o principal marco público do projeto por mostrar uma aplicação prática dos materiais reaproveitados.
Em vez de permanecer como peça de exposição ou campanha visual, a embarcação foi usada para deslocamento real entre áreas costeiras da Austrália.

