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Homem transforma lixo marinho, cordas de pesca, sacos de ostras e boias velhas em um barco de verdade e cruza o perigoso Estreito de Bass em uma embarcação construída à mão na Tasmânia

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Escrito por Ana Alice Publicado em 20/05/2026 às 23:27
Assista o vídeoHomem cruza o Estreito de Bass em barco feito de lixo marinho, com boias, cordas e sacos de ostras reaproveitados. (Imagem: Ilustrativa)
Homem cruza o Estreito de Bass em barco feito de lixo marinho, com boias, cordas e sacos de ostras reaproveitados. (Imagem: Ilustrativa)
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Uma embarcação feita com resíduos marinhos atravessou uma das passagens mais conhecidas da Austrália e levou ao debate sobre reaproveitamento, lixo plástico e soluções criadas fora dos modelos tradicionais de construção naval.

O australiano Samuel McLennan transformou resíduos retirados de praias, fazendas marinhas e áreas costeiras da Tasmânia em uma embarcação funcional e cruzou o Estreito de Bass, passagem marítima entre a ilha da Tasmânia e o continente australiano.

Batizado de Heart, o barco foi montado à mão com cordas de pesca, sacos de ostras, plásticos agrícolas, boias antigas e estruturas usadas na aquicultura, em um projeto que reúne reaproveitamento de materiais, navegação experimental e debate sobre poluição marinha.

A chegada a French Island, no estado de Victoria, mobilizou moradores antes mesmo de a embarcação atracar no píer de Tankerton.

A informação de que um “barco feito de lixo” se aproximava circulou por grupos locais de mensagens e levou curiosos até a margem para observar a estrutura, construída com materiais descartados e usada em trechos de navegação costeira.

O projeto ganhou repercussão porque McLennan não construiu apenas uma instalação visual ou uma peça de protesto.

Ele montou uma embarcação capaz de navegar, com apoio de motor de popa e vela, usando materiais que normalmente seriam tratados como descarte.

Segundo relatos sobre o projeto, a estrutura foi desenvolvida ao longo de cerca de dois anos, período em que o australiano reuniu resíduos encontrados em regiões costeiras e testou formas de encaixar, amarrar e reforçar peças sem partir de um modelo naval convencional.

Barco feito de lixo marinho reaproveita boias, cordas e sacos de ostras

A base da Heart foi composta por grandes flutuadores escuros de polietileno e boias reaproveitadas de fazendas de peixes e ostras.

Também entraram na construção cordas comerciais, redes, sacos usados na criação de ostras, lonas, plásticos e outros resíduos recolhidos na costa da Tasmânia.

Em uma das descrições do projeto, a embarcação de 27 pés aparece apoiada em 22 boias pretas, além de dezenas de boias brancas de poliuretano.

A vela seguiu a mesma lógica de reaproveitamento.

Parte dela foi feita com materiais descartados, incluindo lona de caminhão e tecidos encontrados em áreas costeiras e urbanas, costurados com linha de pesca.

O resultado se diferencia de um veleiro tradicional pela composição irregular dos materiais, mas foi projetado para cumprir uma função prática: flutuar, resistir ao deslocamento no mar e servir como ponto de partida para conversas sobre o destino do lixo que chega aos oceanos.

Para McLennan, a embarcação funciona como uma “estrutura para conversas”.

A frase sintetiza a proposta declarada por ele: transformar resíduos visíveis em um objeto de uso real.

Em vez de tratar a poluição marinha apenas como estatística, o australiano reuniu parte desses materiais e os converteu em meio de transporte.

Imagem: Reprodução/Project Interrupt
Imagem: Reprodução/Project Interrupt

Ideia surgiu após projeto rejeitado e ganhou forma na Tasmânia

A origem da embarcação passou por uma sequência de frustrações profissionais e pessoais relatadas por McLennan.

Ele havia tentado desenvolver uma proposta para transformar uma balsa desativada em um espaço flutuante de inovação, com atividades ligadas a liderança, empreendedorismo e convivência.

O plano não avançou.

Depois disso, uma sugestão do pai mudou o rumo do projeto: por que não construir a própria “ilha de inovação” com resíduos de fazendas marinhas?

A ideia inicial não era, necessariamente, erguer um barco.

O projeto começou como uma tentativa de explorar o que poderia ser feito com materiais descartados.

Com o tempo, a estrutura ganhou forma náutica.

McLennan relatou que precisou testar combinações, observar quais peças se encaixavam e entender como tornar o conjunto mais resistente.

Sem uma planta pronta, o processo avançou por tentativa, erro e adaptação.

Em entrevista citada pelo jornal The Guardian, ele resumiu a virada pessoal com uma frase curta: “nada é o berço da criação”.

A construção da Heart passou a representar, nas palavras e ações do próprio McLennan, uma reinvenção individual associada a uma reflexão sobre desperdício e descarte de materiais.

Travessia pelo Estreito de Bass colocou embarcação à prova

O Estreito de Bass separa a Tasmânia do sudeste da Austrália continental e é conhecido por exigir atenção de navegadores por causa das variações de vento, mar e corrente.

No caso da Heart, o desafio envolvia uma embarcação feita com materiais reaproveitados, sem o desenho padronizado de um barco fabricado em estaleiro.

Antes de ganhar autonomia em trajetos mais longos, o projeto enfrentou resistência de autoridades marítimas, que limitaram inicialmente sua operação a águas costeiras.

Mesmo com essas restrições, McLennan avançou por etapas.

Em abril de 2024, depois de 18 meses de construção em terra e mais seis meses de trabalho na água, ele partiu de Hobart, capital da Tasmânia.

A jornada seguiu por trechos costeiros, com paradas, testes e períodos de espera por condições de navegação consideradas adequadas.

Em 2025, a embarcação já havia cruzado o Estreito de Bass e chegado a áreas de Victoria, como Wilsons Promontory, Phillip Island e French Island.

A navegação não tinha como foco a velocidade.

Em entrevista à revista YACHT, McLennan descreveu a Heart como um barco lento, capaz de avançar em média entre 2,5 e 3 nós.

O deslocamento dependia do vento quando possível e do motor de popa em outras situações.

Essa característica fazia parte do caráter experimental da viagem, realizada em etapas e com monitoramento constante das condições do mar.

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French Island reúne moradores acostumados ao reaproveitamento

A parada em French Island reforçou a relação entre o projeto e o reaproveitamento de materiais.

A ilha tinha 139 habitantes no Censo australiano de 2021 e mantém uma rotina marcada por isolamento geográfico, vida comunitária e autossuficiência.

A comunidade local administra um aterro aberto para uso de moradores e associados, monitorado por regras ambientais, segundo a French Island Community Association.

Nesse contexto, o barco de McLennan encontrou um público habituado a reutilizar objetos.

Moradores relataram que materiais descartados no depósito local podem virar móveis, estruturas de casas e soluções práticas para a vida em uma ilha sem a mesma infraestrutura de áreas urbanas.

O guia local Sean Ryan resumiu sua avaliação sobre a iniciativa ao dizer: “Aqui está alguém fazendo algo real.”

French Island também é conhecida pela presença de coalas e por uma vida comunitária distante do ritmo das grandes cidades.

Para McLennan, esse ambiente mostrou como limitações de infraestrutura, escassez de recursos e distância dos centros urbanos podem estimular soluções baseadas no reaproveitamento.

A Heart, nesse cenário, passou a dialogar com práticas que já fazem parte do cotidiano de moradores da ilha.

Dados sobre lixo plástico ajudam a explicar impacto ambiental

A história chama atenção por transformar um problema ambiental amplo em um objeto concreto.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente estima que, a cada ano, entre 19 milhões e 23 milhões de toneladas de resíduos plásticos vazem para ecossistemas aquáticos, incluindo rios, lagos e mares.

Segundo o organismo, esses materiais afetam habitats, processos naturais e atividades humanas ligadas à pesca, à alimentação e à renda.

No caso da Heart, o lixo não aparece apenas como número.

Ele está nos flutuadores, nas cordas, na vela e nas amarrações.

Cada peça reaproveitada mostra a permanência de materiais sintéticos no ambiente marinho e a dificuldade de lidar com resíduos produzidos por atividades industriais, recreativas e costeiras.

A embarcação não foi apresentada por McLennan como solução para a poluição dos oceanos.

Sua função, segundo o próprio projeto, é demonstrar que alguns resíduos podem ganhar novo uso quando passam por coleta, seleção e adaptação.

Do ponto de vista ambiental, a experiência evidencia uma contradição comum nos materiais plásticos: a resistência à água, ao sol e ao desgaste ajuda a explicar tanto sua permanência no ambiente quanto sua utilidade em uma estrutura flutuante.

Construção experimental mostra limites e usos de materiais descartados

A Heart também apresenta uma forma de construção baseada em adaptação de materiais.

Em vez de peças padronizadas, McLennan usou itens de origem diversa, tamanhos variados e diferentes níveis de desgaste.

Isso exigiu observação constante durante a montagem.

O australiano afirmou que não havia um modelo pronto e que precisou experimentar combinações até formar uma estrutura capaz de flutuar no mar.

Esse tipo de improvisação mantém riscos próprios da navegação e exige avaliação permanente das condições de uso.

A segurança depende da leitura do mar, da resistência da estrutura, da capacidade de resposta do condutor e dos limites da embarcação.

Por isso, a jornada foi feita em etapas, com paradas e adaptações ao longo do caminho.

A travessia do Estreito de Bass se tornou o principal marco público do projeto por mostrar uma aplicação prática dos materiais reaproveitados.

Em vez de permanecer como peça de exposição ou campanha visual, a embarcação foi usada para deslocamento real entre áreas costeiras da Austrália.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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