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Cientistas comprimiram ferro com diamantes e dispararam lasers para simular o centro da Terra — e descobriram que o núcleo do planeta esconde hidrogênio suficiente para encher de 9 a 45 oceanos inteiros

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 25/04/2026 às 11:00
Atualizado em 24/04/2026 às 17:53
Representação artística do núcleo da Terra mostrando camadas de manto e núcleo de ferro incandescente
Representação artística do interior da Terra — estudo publicado na Nature Communications em fevereiro de 2026 revelou que o núcleo pode conter hidrogênio equivalente a até 45 oceanos
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Uma equipe liderada pela Universidade de Pequim comprimiu ferro entre diamantes, disparou lasers e usou sondas atômicas para descobrir que o núcleo da Terra pode ser o maior reservatório de hidrogênio do planeta — com volume equivalente a até 45 vezes toda a água dos oceanos

Segundo estudo publicado em 10 de fevereiro de 2026 na revista Nature Communications, o núcleo da Terra pode conter hidrogênio equivalente a 9 a 45 oceanos inteiros.

A descoberta muda o que sabíamos sobre a origem da água no planeta.

Se confirmada, significa que a Terra adquiriu a maior parte de sua água durante sua formação, há 4,5 bilhões de anos — e não depois, por impactos de cometas, como muitos cientistas acreditavam.

Diamantes, lasers e a simulação do centro da Terra

Para chegar a essa conclusão, a equipe liderada pelo professor Dongyang Huang, da Escola de Ciências da Terra e do Espaço da Universidade de Pequim, precisou recriar as condições extremas do núcleo terrestre em laboratório.

Conforme reportou a CNN Brasil, os pesquisadores usaram uma célula de bigorna de diamante — um dispositivo que comprime amostras entre duas pontas de diamante a pressões inimagináveis.

Dentro da célula, colocaram ferro.

Depois dispararam lasers para aquecer o metal a temperaturas comparáveis às do centro da Terra.

E então usaram uma técnica chamada sonda atômica por tomografia para mapear, átomo por átomo, como o hidrogênio interage com o ferro sob essas condições extremas.

Célula de bigorna de diamante usada para simular pressões extremas do núcleo terrestre em laboratório
Representação de célula de bigorna de diamante — os pesquisadores comprimiram ferro entre diamantes e usaram lasers para atingir as temperaturas do centro da Terra

De 9 a 45 oceanos escondidos a 6.371 km de profundidade

O resultado surpreendeu a comunidade científica.

De acordo com a Tempo.com, os experimentos mostraram que quantidades iguais de hidrogênio e silício migram do magma para o ferro quando submetidos às condições do núcleo.

Com base nesses dados, os pesquisadores estimaram que o hidrogênio representa entre 0,07% e 0,36% da massa total do núcleo.

Pode parecer pouco.

Mas o núcleo da Terra pesa cerca de 1,9 × 10²⁴ kg. Mesmo uma fração de 0,07% equivale a 9 oceanos inteiros de hidrogênio. E 0,36% equivale a 45 oceanos.

Portanto, para colocar em perspectiva: todos os oceanos visíveis da Terra — que cobrem 70% da superfície do planeta — contêm menos hidrogênio do que o que pode estar preso no centro do planeta.

Oceano profundo com raios de luz penetrando a superfície
Representação artística. Todos os oceanos da Terra juntos contêm menos hidrogênio do que o que pode estar preso no núcleo do planeta, segundo o estudo

A água da Terra não veio de cometas?

Essa descoberta tem implicações profundas para um dos debates mais antigos da geologia.

Durante décadas, cientistas se dividiram entre dois modelos para explicar de onde veio a água da Terra.

Um grupo defendia que a água foi incorporada durante a formação do planeta, há 4,5 bilhões de anos.

Outro argumentava que a água chegou depois, trazida por cometas e asteroides que bombardearam a Terra jovem.

Dongyang Huang, o líder do estudo, afirmou que “o núcleo da Terra armazenaria a maior parte da água durante o primeiro milhão de anos da história do planeta”.

Além disso, segundo o pesquisador, “isso sugere que a Terra adquiriu a maior parte de sua água durante sua formação, e não posteriormente por meio de impactos de cometas”.

Dessa forma, a lógica é simples: se o hidrogênio estivesse concentrado nas camadas superficiais, faria sentido que tivesse vindo de fora. Mas ele está no núcleo — o que indica que já estava ali desde o início.

O que isso muda além da geologia

De acordo com o R7, a presença de hidrogênio no núcleo pode afetar o campo magnético da Terra.

O campo magnético é gerado pelo movimento do ferro líquido no núcleo externo.

Se esse ferro contém hidrogênio em proporções significativas, as propriedades de condução de calor mudam.

Isso influencia a circulação do metal líquido — e, por consequência, a força e a estabilidade do campo magnético que protege a Terra da radiação solar.

Em outras palavras, a quantidade de hidrogênio no núcleo pode ajudar a explicar por que a Terra tem um campo magnético forte o suficiente para sustentar vida, enquanto Marte — que perdeu o seu — se tornou um deserto gelado.

Representação artística de átomos de hidrogênio presos na estrutura cristalina do ferro no núcleo terrestre
Representação artística. Átomos de hidrogênio migram do magma para o ferro do núcleo durante a formação do planeta, segundo os pesquisadores da Universidade de Pequim

O que ainda precisa ser confirmado

Apesar do impacto da descoberta, os próprios pesquisadores reconhecem limitações.

A quantidade de hidrogênio que escapa das amostras de ferro durante a descompressão não foi incluída nos cálculos.

Além disso, o pesquisador Hirose, de um estudo anterior, contesta os números. Ele estimou que o núcleo contém entre 0,2% e 0,6% de hidrogênio — valores superiores aos do novo estudo.

Estimativas anteriores variavam enormemente: de 0,1 oceano (10 partes por milhão) até mais de 120 oceanos (10.000 ppm), dependendo do método usado.

A técnica de sonda atômica por tomografia é mais direta que métodos anteriores, mas ainda precisa de validação independente por outros laboratórios.

  • Publicação: Nature Communications, 10 de fevereiro de 2026
  • Pesquisador principal: Dongyang Huang, Universidade de Pequim
  • Hidrogênio estimado: 0,07% a 0,36% da massa do núcleo (9 a 45 oceanos)
  • Método: célula de bigorna de diamante + laser + sonda atômica por tomografia
  • Implicação: água da Terra veio durante a formação, não de cometas

A perfuração de Kola, que atingiu 12.262 metros, já havia encontrado água e hidrogênio borbulhando da rocha onde ninguém esperava. Agora, a ciência sugere que o verdadeiro oceano está muito mais fundo — a 6.371 km, no coração do planeta.

Além disso, a descoberta tem implicações diretas para a busca por vida fora da Terra.

Nesse sentido, se planetas rochosos como a Terra podem reter quantidades enormes de hidrogênio no núcleo durante sua formação, isso significa que a água pode ser muito mais comum em exoplanetas do que os modelos anteriores previam.

Da mesma forma, a presença de hidrogênio no núcleo influencia diretamente o campo magnético terrestre — e campos magnéticos fortes são considerados essenciais para que um planeta mantenha atmosfera e, consequentemente, condições para vida.

Portanto, entender quanto hidrogênio existe no núcleo da Terra não é apenas uma curiosidade geológica. É uma peça fundamental para responder à pergunta mais antiga da humanidade: estamos sozinhos no universo?

Nesse sentido, a técnica de sonda atômica por tomografia — usada pela primeira vez para medir hidrogênio em ferro sob condições extremas — pode se tornar o padrão ouro para estudos de composição planetária. Consequentemente, outros grupos de pesquisa ao redor do mundo já planejam replicar os experimentos da equipe de Pequim.

Será que algum dia teremos tecnologia para acessar esse reservatório? Provavelmente não. Mas saber que ele existe muda fundamentalmente o que entendemos sobre a Terra e sobre como planetas rochosos retêm água — incluindo aqueles que buscamos por vida fora do Sistema Solar.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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