1. Início
  2. / Ciência e Tecnologia
  3. / Havaí testa asfalto com plástico reciclado e redes de pesca, e o resultado inicial surpreende até quem duvida que esse lixo ainda possa virar algo útil
Tempo de leitura 6 min de leitura Comentários 0 comentários

Havaí testa asfalto com plástico reciclado e redes de pesca, e o resultado inicial surpreende até quem duvida que esse lixo ainda possa virar algo útil

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 24/03/2026 às 12:33
Havaí testa asfalto com plástico reciclado e redes de pesca em projeto que mede desempenho do pavimento e liberação de microplásticos.
Havaí testa asfalto com plástico reciclado e redes de pesca em projeto que mede desempenho do pavimento e liberação de microplásticos.
  • Reação
1 pessoa reagiu a isso.
Reagir ao artigo

O Havaí começou a testar asfalto com plástico reciclado de lixo doméstico e redes de pesca retiradas do mar, em um experimento que avalia desempenho, possível liberação de microplásticos e o uso local de resíduos que hoje pressionam aterros e desafiam a reciclagem nas ilhas

Pesquisadores e autoridades do Havaí estão testando um novo uso para resíduos plásticos e redes de pesca abandonadas: transformá-los em asfalto para pavimentação de ruas. A proposta busca enfrentar, ao mesmo tempo, os entraves da reciclagem no arquipélago e o acúmulo de detritos marinhos e lixo plástico residencial.

A iniciativa reúne o Centro de Pesquisa de Detritos Marinhos da Universidade do Pacífico do Havaí e o Departamento de Transportes do Havaí, que passou a investigar se o aproveitamento desse material em pavimentos pode ser uma alternativa ambiental e economicamente mais viável. A equipe avalia tanto o desempenho da mistura quanto a possível liberação de microplásticos e outras substâncias associadas.

Jeremy Axworthy, pesquisador do centro, apresentará os resultados do trabalho na reunião de primavera da Sociedade Americana de Química, realizada de 22 a 26 de março de 2026. O encontro reúne quase 11 mil apresentações sobre diferentes temas científicos, e o estudo do grupo examina se o uso de plásticos reciclados nas estradas do estado pode ser feito de forma responsável.

Segundo Axworthy, a proposta parte de um problema concreto enfrentado pelo arquipélago: os custos e as dificuldades logísticas ligados ao transporte, à incineração e ao descarte final de resíduos plásticos. Ao reaproveitar o material já existente nas ilhas, o projeto procura reduzir os impactos ambientais e econômicos causados por essas alternativas, além da pressão sobre aterros sanitários já sobrecarregados.

Asfalto, Havaí e a busca por uma solução local

Desde 2020, as estradas do Havaí são pavimentadas majoritariamente com asfalto modificado por polímeros, conhecido como PMA. Esse tipo de pavimento é adotado para ampliar a resistência e a durabilidade da superfície, com características consideradas importantes para as condições tropicais do estado.

Em comparação com o asfalto convencional, o PMA é mais elástico e apresenta maior resistência a rachaduras, deformações nas trilhas de roda e danos causados pela água. O material é produzido a partir da fusão de grânulos de estireno-butadieno-estireno, o SBS, em um ligante asfáltico de base petrolífera, que depois é misturado a agregados aquecidos, como pedras e areia.

A partir desse modelo já usado nas rodovias locais, surgiu a pergunta que orientou a nova pesquisa: se plásticos descartados poderiam ser incorporados ao pavimento como uma forma de destinação ecologicamente mais adequada.

A partir disso, o Departamento de Transportes do Havaí procurou a química ambiental Jennifer Lynch, diretora e líder da equipe do Centro de Pesquisa de Detritos Marinhos, para investigar como esses pavimentos se comportariam e se poderiam liberar microplásticos no ambiente.

Redes de pesca e lixo plástico entram no projeto

O órgão estadual fez dois pedidos centrais à equipe liderada por Lynch. O primeiro foi fornecer redes de pesca abandonadas, retiradas do ambiente marinho do Havaí, para a criação de pavimentos asfálticos com plástico reciclado.

De acordo com Lynch, equipamentos de pesca de plástico abandonados por estrangeiros estão entre os principais responsáveis pelo problema dos detritos marinhos no Havaí. Ela afirma que, até agora, o Projeto Bounty do centro, que paga recompensa financeira a pescadores comerciais licenciados pela remoção desse material, já retirou 84 toneladas de grandes equipamentos de pesca abandonados do Oceano Pacífico.

O segundo pedido do Departamento de Transportes foi medir a eventual liberação de microplásticos em pavimentos feitos com resíduos plásticos, em comparação com a liberação observada em pavimentos convencionais modificados com SBS. Lynch destacou que o laboratório do centro dispõe de instrumentação química de última geração para quantificar e caracterizar microplásticos em amostras ambientais, capacidade que ela descreve como especialmente relevante diante da proposta de transformar detritos marinhos em produtos de infraestrutura de longo prazo para uso local.

Depois que uma empresa sediada nos Estados Unidos converteu os resíduos em produtos compatíveis com a incorporação ao asfalto, o Departamento de Transportes levou as misturas experimentais para as ruas do estado. Em seguida, uma empresa local de pavimentação aplicou trechos de uma via residencial na ilha de Oahu com três tipos de pavimento: um com SBS padrão, outro com polietileno reaproveitado de contêineres de reciclagem de Honolulu e um terceiro com polietileno obtido de redes de pesca.

O que os testes mostraram sobre microplásticos

Após cerca de 11 meses de uso regular da estrada pelo tráfego, a equipe passou a coletar amostras de poeira em cada trecho pavimentado. O objetivo era verificar a presença de microplásticos que pudessem alcançar o solo ao redor da via.

Os pesquisadores processaram esse material com um método capaz de separar diferentes tipos de polímeros de outros componentes presentes na poeira da estrada, incluindo microplásticos, fragmentos maiores de plástico e borracha de pneus. Em seguida, recorreram à cromatografia gasosa de pirólise acoplada à espectrometria de massas, a técnica Py-GC-MS, para identificar e quantificar a origem dos polímeros encontrados.

Com isso, foi possível distinguir estireno e butadieno associados ao PMA padrão, polietileno oriundo de resíduos plásticos e de redes de pesca, além de borracha de isopreno e butadieno proveniente dos pneus.

Os testes iniciais indicaram que os pavimentos com polietileno reciclado não liberaram mais polímeros do que o pavimento de controle feito com SBS.

Segundo a equipe, essa constatação apareceu tanto nos ensaios de desempenho mecânico feitos com amostras de pavimento quanto em simulações de águas pluviais coletadas nos trechos experimentais da estrada. Embora partículas em tamanho de microplástico tenham sido detectadas, muito poucas delas foram identificadas especificamente como polietileno, independentemente do tipo de pavimento analisado.

Os pesquisadores apontam que isso provavelmente ocorre porque os polímeros ficam fundidos no ligante asfáltico. Dessa forma, as partículas que se desprendem não seriam compostas apenas por plástico, mas por uma combinação de rocha, ligante e cadeias poliméricas fundidas.

Desgaste dos pneus dominou os sinais observados

Além de comparar os diferentes tipos de pavimento, a equipe do centro também passou a avaliar quanto dos polímeros presentes na poeira da estrada vinha do próprio asfalto e quanto era gerado pelo desgaste dos pneus. Nos dados iniciais obtidos por Py-GC-MS, o sinal do material liberado pelos pneus apareceu de forma muito mais intensa do que qualquer indício de polietileno associado ao pavimento.

Lynch afirmou que o desgaste dos pneus encobriu o sinal do polietileno em várias ordens de magnitude, com picos muito superiores aos demais. Segundo ela, foi necessário examinar o cromatograma cuidadosamente para localizar vestígios de polietileno entre os resultados.

Embora a equipe destaque que ainda são necessárias mais pesquisas para avaliar a durabilidade do pavimento, os resultados iniciais reforçam a possibilidade de uso desse material como destino para resíduos plásticos no estado. A expectativa dos pesquisadores é que, no futuro, a reutilização de plásticos em pavimentação ajude a reduzir o volume de lixo lançado em aterros e no mar no Havaí.

Lynch afirma que parte da sociedade vê a reciclagem de plástico com ceticismo, como algo difícil ou ineficaz. Para ela, porém, o estudo mostra que a reciclagem pode funcionar quando a sustentabilidade é tratada como prioridade.

Estudo disponível em ACS.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

Compartilhar em aplicativos
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x