O cosmonauta soviético Sergei Krikalev decolou em 19 de maio de 1991 para uma missão de cinco meses na estação espacial Mir, mas a dissolução da União Soviética o deixou preso no espaço por quase um ano. Segundo o CNN Brasil, resgatado com ajuda alemã, o cosmonauta acumulou mais de 803 dias em órbita ao longo da carreira e integrou a primeira tripulação da Estação Espacial Internacional.
Faz exatamente 35 anos que o cosmonauta soviético Sergei Krikalev decolou do cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão, a bordo da Soyuz TM-12, rumo à estação espacial Mir. Era 19 de maio de 1991, e a missão prevista para durar cinco meses acabaria se transformando em 311 dias no espaço, tempo suficiente para dar cerca de cinco mil voltas na Terra e assistir, de 400 quilômetros de altitude, ao desaparecimento do país que o havia enviado. O engenheiro de voo soviético partiu acompanhado do compatriota Anatoly Artsebarsky e da britânica Helen Sharman, a primeira cidadã do Reino Unido a ir ao espaço.
O que transformou uma missão de rotina em um dos episódios mais extraordinários da corrida espacial foi o colapso político que se desenrolava em terra. Enquanto Krikalev realizava reparos e experimentos na Mir, a União Soviética enfrentava seu processo de dissolução definitiva, com a independência de 15 repúblicas e a renúncia de Mikhail Gorbatchov. O financiamento do programa espacial soviético entrou em colapso, e o cosmonauta ficou sem previsão de retorno, tornando-se o que a imprensa mundial chamaria de “o último cidadão soviético”.
O golpe, a dissolução e um cosmonauta sem país

A missão de Krikalev começou como qualquer outra operação na Mir. Helen Sharman permaneceu apenas uma semana na estação e retornou com a tripulação anterior, deixando o cosmonauta soviético e Artsebarsky a bordo. Em julho, Krikalev aceitou estender sua estadia por ajustes operacionais: dois voos planejados foram reduzidos a um, e ele precisava aguardar a próxima tripulação.
-
Família de Araxá transforma o sonho do avô e o legado do pai em 250 queijos por dia, conquista ouro no Mundial da França e faz o Queijo Minas Artesanal sair da fazenda para emocionar o Brasil como símbolo vivo de tradição, coragem e sucessão rural
-
Mulher deixa Belo Horizonte após perder o pai, volta para a fazenda da família no Serro e transforma um queijo artesanal em símbolo de coragem, sucessão feminina e tradição mineira reconhecida entre os melhores do mundo
-
O mesmo tipo de motor a jato que fazia as bombas V-1 da Segunda Guerra voarem agora aparece embaixo de uma moto feita na garagem, com empuxo de até cerca de 45 quilos, que o dono afirma passar dos 110 quilômetros por hora
-
Um tanque brasileiro quase virou estrela no Oriente Médio, superou provas duríssimas contra blindados lendários e desapareceu do mercado quando a Engesa mais precisava vencer
Então veio agosto. Entre os dias 19 e 21, um grupo da ala mais dura do Partido Comunista tentou um golpe contra Gorbatchov. O golpe fracassou, mas feriu mortalmente a União Soviética. Krikalev soube dos acontecimentos pelo rádio e, de órbita, confessou que não compreendia o que estava acontecendo. Em outubro, três novos cosmonautas chegaram à Mir, mas nenhum tinha treinamento para substituí-lo na função de engenheiro de bordo. O cosmonauta soviético permaneceu. Em 25 de dezembro de 1991, Gorbatchov renunciou, e a URSS deixou oficialmente de existir.
Preso no espaço por falta de dinheiro e de substituto
A situação de Krikalev na Mir era tecnicamente volúvel. Havia uma cápsula Soyuz acoplada à estação que poderia ser usada para escapar, mas abandoná-la significaria deixar a Mir sem ninguém a bordo para operá-la e fazer reparos. Sem um operador, a estação que simbolizou por 15 anos o poderio soviético na exploração espacial estaria condenada.
O cosmonauta soviético reconheceu o peso da decisão de ficar. A Rússia recém-formada enfrentava dificuldades econômicas severas, e o custo de uma missão de resgate era proibitivo. Havia também uma promessa política: o governo soviético garantira ao Cazaquistão que o próximo cosmonauta enviado à Mir seria cazaque, mas nenhum profissional daquele país tinha treinamento adequado. Krikalev ficou, então, em órbita por tempo indefinido, mantendo a estação operacional sozinho enquanto a política terrestre decidia seu destino.
O resgate com dinheiro alemão e o retorno a um mundo diferente
A saga do cosmonauta soviético só chegou ao fim em 25 de março de 1992. A Alemanha pagou 24 milhões de dólares à Rússia para enviar o piloto alemão Klaus-Dietrich Flade em uma missão conjunta. Krikalev retornou ao lado de Alexander Volkov após 311 dias no espaço, precisando da ajuda de quatro homens para conseguir sair da cápsula e ficar de pé. A gravidade, depois de tanto tempo, era um inimigo quase tão formidável quanto o isolamento.
Ao pousar, Krikalev descobriu que o mundo que conhecia havia desaparecido. A União Soviética que o enviou ao espaço não existia mais. Sua cidade natal, Leningrado, agora se chamava São Petersburgo. O uniforme soviético que vestia representava um país extinto. Ele havia partido como cidadão soviético e voltou como russo — uma transição geopolítica vivida em tempo real, a 400 quilômetros da superfície terrestre.
Os riscos físicos e psicológicos de 311 dias em órbita
Na época, ainda não havia clareza completa sobre os efeitos de estadias tão prolongadas no espaço. Hoje se sabe que períodos assim causam perda de massa muscular e óssea, exposição elevada à radiação, queda da imunidade e impactos psicológicos profundos. Krikalev enfrentou tudo isso sem certeza de quando voltaria.
Sua esposa, Elena Terekhina, se comunicava com ele por rádio e descreveu a situação em entrevista ao documentário da BBC “O último cidadão soviético”. Ambos evitavam abordar assuntos difíceis para não piorar a carga emocional, conscientes de que a incerteza já pesava o bastante. O próprio cosmonauta reconheceu ter tido dúvidas sobre sua capacidade de resistir: disse ter se perguntado se teria força suficiente para se readaptar a uma estadia tão longa. Um detalhe curioso marcou a jornada do cosmonauta soviético: por conta da dilatação do tempo causada pela alta velocidade em órbita, Krikalev voltou cerca de 0,02 segundos mais jovem do que alguém nascido no mesmo instante que ele.
Da Mir à Estação Espacial Internacional
Apesar da experiência extrema, Krikalev não se afastou do espaço. Em 2000, ele integrou a primeira tripulação da Estação Espacial Internacional, ao lado do americano Bill Shepherd e do russo Yuri Gidzenko. Foi um momento simbólico: o mesmo cosmonauta soviético que ficou preso na Mir durante o colapso da URSS agora ajudava a inaugurar uma estação construída pela cooperação entre antigas potências rivais.
Ao longo de seis missões, Krikalev acumulou 803 dias, 9 horas e 39 minutos no espaço — recorde que manteve por dez anos, até ser superado pelo compatriota Gennady Padalka em 2015. Ele recebeu os títulos de Herói da Rússia e Herói da União Soviética, duas condecorações de países distintos que refletem a excepcionalidade de sua trajetória. Atualmente, Krikalev ocupa o cargo de diretor de missões tripuladas da Roscosmos, a agência espacial russa.
O que a história de Krikalev diz sobre resiliência e geopolítica
A história do cosmonauta soviético que ficou esquecido no espaço transcende a curiosidade histórica. Ela revela como decisões políticas em terra afetam diretamente quem está em órbita — e como a cooperação internacional pode surgir nos momentos mais inesperados. O resgate de Krikalev, financiado pela Alemanha, foi um dos primeiros gestos concretos de colaboração espacial pós-Guerra Fria e pavimentou o caminho para a ISS.
Krikalev nunca se descreveu como vítima. Em entrevistas, creditou o sucesso de sua missão aos colegas e às equipes de controle em terra. Sobre o apelido de “cosmonauta esquecido”, ele manteve uma postura pragmática: reconheceu que poupar recursos era prioridade em um país em crise e que permanecer a bordo era a decisão certa. Trinta e cinco anos depois, sua história continua sendo o lembrete mais eloquente de que o espaço não é imune ao que acontece na Terra.
Você conhecia a história do cosmonauta soviético que ficou esquecido no espaço enquanto seu país desaparecia? O que mais impressiona nesse episódio: a resiliência de Krikalev ou o abandono político que o deixou em órbita? Conta nos comentários.

Seja o primeiro a reagir!