O agronegócio brasileiro enfrenta um novo e severo desafio vindo do cenário internacional. A escalada dos conflitos no Oriente Médio, iniciada no primeiro trimestre de 2026, gerou um efeito dominó que atingiu em cheio o mercado de insumos.
O preço da ureia, principal fertilizante nitrogenado utilizado nas lavouras, registrou uma alta expressiva, acompanhando a valorização do petróleo e as incertezas logísticas em rotas estratégicas.
Segundo análises recentes de consultorias especializadas e do Itaú BBA, o mercado global de fertilizantes opera sob forte pressão.
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A combinação de oferta restrita em grandes polos produtores e o aumento vertiginoso nos custos de energia (especialmente o gás natural) criou um ambiente de alta volatilidade que preocupa produtores de soja, milho e cana-de-açúcar no Brasil.

Por que a ureia lidera as altas no mercado de insumos?
A ureia é um dos fertilizantes mais sensíveis às crises geopolíticas que envolvem combustíveis fósseis. Isso ocorre porque o gás natural é a principal matéria-prima para a produção de amônia, que por sua vez é a base da ureia.
Contudo, com o preço do petróleo flertando com os US$ 100 e o gás natural em alta devido ao risco de interrupção de fornecimento no Golfo Pérsico, o custo de produção disparou.
No Brasil, os reflexos foram imediatos:
- Preço por Tonelada: A ureia atingiu o patamar de aproximadamente US$ 760 por tonelada (CFR) em meados de abril.
- Fator Risco: A aversão ao risco no cenário internacional faz com que fornecedores segurem estoques, diminuindo a oferta disponível para importação.
- Logística: O encarecimento dos seguros marítimos e a necessidade de rotas mais longas para evitar áreas de conflito elevam o preço final que chega ao produtor brasileiro.
Fertilizantes fosfatados também sentem o impacto
Não foi apenas a ureia que subiu. Os fertilizantes fosfatados também registram forte pressão de alta. O principal motivo é a valorização do enxofre, um insumo essencial para o processamento desses nutrientes a todos os agricultores no geral.
De acordo com dados do mercado doméstico, os fosfatados como o MAP (Fosfato Monoamônico) avançaram cerca de 7% recentemente, atingindo o valor de US$ 890 por tonelada (CFR).
Embora a demanda agrícola no Brasil ainda seja gradual nesta época do ano, o medo de que os preços subam ainda mais tem antecipado algumas negociações por parte de grandes grupos agrícolas que buscam garantir o plantio da próxima safra.

O papel do Oriente Médio na produção global
O Golfo Pérsico é um dos maiores hubs de exportação de fertilizantes do mundo. Países daquela região são responsáveis por uma fatia considerável da ureia e de outros derivados nitrogenados consumidos globalmente.
- Restrições de Oferta: Com o agravamento das tensões navais, as fábricas da região enfrentam dificuldades logísticas para escoar a produção.
- Custo de Energia Local: Mesmo os produtores do Oriente Médio sofrem com a realocação estratégica de recursos energéticos para fins militares ou de segurança nacional, reduzindo a eficiência industrial.
- Incerteza nas Rotas: O transporte por navios petroleiros e cargueiros de insumos tornou-se uma operação de alto risco, elevando o valor do frete internacional de forma generalizada.
Potássicos: O cenário de relativa estabilidade
Em contraste com os nitrogenados e fosfatados, o mercado de fertilizantes potássicos apresenta uma estabilidade maior, embora não esteja imune à crise.
A oferta global de potássio segue mais equilibrada, com grandes produtores como Rússia e Belarus mantendo seus fluxos comerciais, apesar das sanções e tensões em outras frentes.
No entanto, o agronegócio monitora de perto os custos logísticos!
Mesmo que o produto esteja disponível, o custo para trazê-lo até o interior do Brasil é impactado pela alta do diesel e das tarifas portuárias globais, o que pode refletir em altas residuais nos próximos meses.
Consequências para o produtor brasileiro e a inflação de alimentos
O aumento nos custos de produção é um “fantasma” que ronda o campo. Quando o fertilizante encarece, o produtor tem duas opções: reduzir a tecnologia (e consequentemente a produtividade) ou manter o investimento e repassar o custo para o preço final do grão.
- Custos de Produção: Estima-se que os fertilizantes representem até 35% dos custos totais de uma safra de grãos.
- Segurança Alimentar: A alta sustentada da ureia pode pressionar os preços do milho e do trigo, bases para a ração animal e para a indústria de panificação, gerando inflação nos supermercados.

A estratégia de importação do Brasil frente à crise
O Brasil é altamente dependente de importações para suprir sua necessidade de fertilizantes (cerca de 85% do que é consumido vem de fora) portanto, o cenário de guerra no Oriente Médio expõe essa vulnerabilidade estrutural para a nossa terra.
Especialistas defendem que o país precisa acelerar projetos internos de produção nacional, como os previstos no Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), para reduzir a exposição aos humores da geopolítica internacional.
Enquanto isso não ocorre, a solução tem sido a diversificação de fornecedores, buscando parcerias no Norte da África e na América do Norte para mitigar o risco do Oriente Médio.
Perspectivas para o segundo semestre de 2026
Para os próximos meses, a expectativa é de um mercado ainda ajustado. Se o conflito em Ormuz e em outras regiões do Oriente Médio persistir, os preços não devem ceder tão cedo.
Sendo assim, a tendência é que os preços se sustentem em patamares elevados, com volatilidade ditada por cada novo desdobramento militar na região.
Logo, o que o produtor deve fazer? Consultores sugerem cautela. O monitoramento diário das cotações e a estratégia de “compras escalonadas” podem ajudar a evitar os picos de preços.
Além disso, a otimização do uso de insumos através da agricultura de precisão torna-se ainda mais essencial para garantir a rentabilidade em tempos de insumos caros.
