Intervenção de cerca de R$ 12 milhões no Estreito do Melão, em Cananéia, prevê recuperar 1,2 quilômetro de margem com areia da própria região e geotubos para reduzir o risco de abertura entre a laguna e o oceano.
O Governo de São Paulo iniciou uma obra no Estreito do Melão, trecho vulnerável do Parque Estadual da Ilha do Cardoso, em Cananéia, onde o avanço da erosão reduziu a faixa arenosa que separa as águas lagunares do mar.
A intervenção tem investimento de cerca de R$ 12 milhões e prevê recuperar 1,2 quilômetro de margem, distribuído em aproximadamente 600 metros de cada lado do estreito. O serviço é executado pela Fundação Florestal, com projeto e acompanhamento técnico da SP Águas.
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O Ministério Público de São Paulo também acompanha os trabalhos, que procuram reforçar a margem sem bloquear de forma rígida a dinâmica natural da região. A solução escolhida utiliza sedimentos disponíveis no próprio local e grandes tubos geotêxteis instalados na área mais vulnerável.
A preocupação central é impedir que o avanço da erosão provoque o rompimento da estreita faixa de areia. Se isso ocorrer, as águas que hoje percorrem o sistema natural do estreito poderão encontrar uma nova ligação direta com o oceano, alterando a configuração da área.
Rompimento pode atingir navegação e pesca
Em entrevista a A Tribuna, o diretor da SP Águas, Nelson de Campos Lima, explicou que o processo erosivo faz parte da dinâmica natural do local e está ligado principalmente ao movimento das águas e às ressacas extremas.
O problema, segundo Lima, é que a deterioração das margens se acelerou ao longo deste ano e elevou o risco de ruptura da restinga. A mudança poderia aproximar diretamente dois ambientes que hoje permanecem separados pela faixa arenosa.
“Se a gente deixar isso ocorrer naturalmente, poderia haver um rompimento daquela margem, e a gente teria uma mudança, porque eu vou ter uma área lagunar se misturando com uma área de mar, e isso seria um problema”, afirmou.
As possíveis consequências vão além da alteração física do trecho. A avaliação apresentada pelo diretor é que uma ruptura pode afetar as condições de navegação e de pesca, atividades ligadas ao deslocamento e à rotina das comunidades que utilizam os canais da Ilha do Cardoso.
Lima explicou que algumas dessas comunidades poderiam ficar praticamente isoladas caso a nova configuração do canal dificultasse ou impedisse a navegação da forma como ela ocorre atualmente. O risco de mudança na circulação das águas é uma das razões para a intervenção no Estreito do Melão.
A erosão na região já vinha sendo acompanhada por órgãos públicos antes do início da obra. A Defensoria Pública de São Paulo registrou uma vistoria técnica no local com representantes de órgãos ambientais e de comunidades caiçaras.
A visita incluiu o Estreito do Melão e a comunidade do Marujá, também localizada na Ilha do Cardoso. O acompanhamento envolveu representantes da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, Fundação Florestal e SP Águas, além de moradores da região.
Geotubos reforçam a faixa de areia
A estratégia adotada não prevê uma barreira rígida de concreto. A areia existente na própria área é utilizada no preenchimento de tubos geotêxteis de grande porte, formando uma estrutura destinada a reforçar a margem e aumentar sua resistência à ação da água.
Os geotubos são posicionados no trecho considerado mais vulnerável, enquanto os sedimentos ajudam a recompor a faixa arenosa. A proposta é proteger o sistema mantendo, tanto quanto possível, as características e os materiais presentes naturalmente naquele ambiente costeiro.
“É uma situação natural. Por isso que a gente está usando material da região, tentando garantir com muito cuidado como vamos fazer essa proteção com geotubos, usando a área da região para impactar o mínimo possível e recuperar o sistema como ele já existe há muito tempo”, explicou Lima.
A estrutura deverá enfrentar variações de maré, movimentação da água e episódios de ressaca, justamente os fatores que condicionam a execução. Como parte dos serviços depende do nível mais baixo da maré, as equipes não conseguem trabalhar continuamente em qualquer condição.
“Se vier uma ressaca, a gente tem que parar. Para a gente poder fazer a base da estrutura, com esses tubos geotêxteis, eu tenho que esperar a maré estar mais baixa. Então, a gente trabalha conforme as condições que temos”, afirmou o diretor.
A localização remota do Estreito do Melão acrescenta outra dificuldade à operação, porque equipamentos e materiais precisam ser transportados até a área de intervenção. As condições naturais do trecho também determinam quando determinadas etapas podem ser executadas com segurança.
Por causa dessas limitações, o prazo estimado para conclusão é de nove meses. Durante esse período, a execução continuará condicionada às marés e às ressacas, enquanto a SP Águas mantém o acompanhamento técnico da intervenção no trecho ameaçado pela erosão.

