Surtos recorrentes de ranavirose foram registrados durante três temporadas consecutivas em uma reserva da Mata Atlântica. Pesquisadores encontraram centenas de girinos mortos, cargas virais extremamente altas e uma redução de 82,6% na reprodução da perereca-macaco.
Uma pequena lagoa cercada por Mata Atlântica preservada em Santa Catarina se tornou cenário de um fenômeno que chamou a atenção de pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Entre 2024 e 2026, centenas de girinos começaram a aparecer mortos na água, muitos com hemorragias, inchaço e lesões visíveis, enquanto outros perdiam a capacidade de mergulhar e morriam pouco tempo depois.
A investigação revelou que a causa estava associada a surtos recorrentes de ranavirose, doença provocada por vírus capazes de atingir anfíbios, peixes e répteis. O impacto foi especialmente forte sobre a Phyllomedusa distincta, conhecida como perereca-macaco ou perereca-de-folha, espécie endêmica do Brasil e associada à Mata Atlântica.
Centenas de girinos mortos em três anos consecutivos

O caso foi registrado na Reserva Particular do Patrimônio Natural Santuário Rã-Bugio, em Guaramirim, Santa Catarina, uma área de aproximadamente 4,75 hectares dedicada à proteção da Mata Atlântica. O local é monitorado há décadas por pesquisadores e conservacionistas, o que permitiu comparar a situação recente com períodos anteriores.
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Segundo o estudo publicado na revista científica Biodiversity and Conservation, 324 girinos mortos foram recolhidos entre 2024 e 2026. Desse total, 315 pertenciam à espécie Phyllomedusa distincta e nove eram da espécie Boana bischoffi, conhecida popularmente como perereca-de-pijama.
Os testes laboratoriais mostraram que 287 dos 324 animais, equivalentes a 88,6%, estavam infectados por ranavírus. Entre os exemplares de Phyllomedusa distincta, 279 apresentaram resultado positivo, indicando uma presença extremamente elevada do agente durante os episódios de mortalidade.
O primeiro grande surto começou em janeiro de 2024 e se estendeu até abril. Novos episódios foram observados entre novembro de 2024 e janeiro de 2025 e novamente entre novembro de 2025 e março de 2026, formando uma sequência de surtos que até então não havia sido registrada de forma tão detalhada na região.
Animais apresentavam hemorragias e podiam morrer em poucos minutos

Durante os períodos mais críticos, os pesquisadores observaram que algumas populações de girinos sofreram mortalidade próxima do total. Depois que os primeiros animais mortos apareciam, o número de cadáveres aumentava rapidamente na lagoa.
Os girinos infectados apresentavam sinais como coloração avermelhada intensa, hemorragias, edema, abdômen inchado, lesões na pele e até sangramento nos olhos. Alguns animais observados ainda vivos já não conseguiam mergulhar normalmente, permaneciam próximos à superfície e morriam em cerca de 30 minutos ou menos.
Análises realizadas no fígado de animais infectados encontraram extensas áreas de necrose e destruição da estrutura dos tecidos, reforçando que o vírus não estava apenas presente nos organismos, mas provocava uma doença ativa e severa.
Os pesquisadores também identificaram cargas virais extraordinariamente altas. Em alguns exemplares de Phyllomedusa distincta, foram detectadas até 9,81 bilhões de cópias virais por microlitro nas amostras analisadas.
Reprodução da perereca-macaco despencou 83%

O impacto não ficou restrito à morte dos girinos. O monitoramento de longo prazo permitiu identificar uma queda de aproximadamente 82,6%, arredondada para 83%, na produção de massas de ovos da perereca-macaco durante o período afetado pelos surtos.
Antes das epidemias, a taxa estimada de deposição de ovos era aproximadamente 5,74 vezes maior. Para chegar ao resultado, os pesquisadores compararam registros históricos anteriores aos surtos com os dados recentes coletados após o início das mortes em massa.
O Santuário Rã-Bugio acompanha a reprodução da espécie desde 1999. As fêmeas depositam seus ovos em folhas localizadas sobre a água e dobram a vegetação ao redor da massa de ovos. Depois da eclosão, os girinos caem diretamente na lagoa, onde completam parte do desenvolvimento.
A queda registrada não significa que 83% dos animais adultos desapareceram. O número se refere especificamente à redução do desempenho reprodutivo, mas os pesquisadores alertam que a diminuição na geração de novos indivíduos pode provocar um declínio populacional grave se o fenômeno continuar ocorrendo.
Baixa umidade pode favorecer os surtos
Os pesquisadores encontraram uma forte associação entre os episódios de mortalidade e períodos de menor umidade. Com média de cerca de 65% nas duas semanas anteriores, a probabilidade estimada de mortes chegou a 97,7%, enquanto com umidade próxima de 90% caiu para cerca de 7%.
A hipótese é que o tempo mais seco provoque estresse nos anfíbios e reduza o volume de água da lagoa, concentrando os girinos e facilitando a transmissão do vírus. Mesmo assim, o estudo não encontrou evidências de que mudanças climáticas de longo prazo expliquem sozinhas a queda reprodutiva.
Origem do vírus ainda é desconhecida
As análises genéticas indicaram que o agente pertence ao grupo Ranavirus rana1, próximo ao Frog Virus 3, mas ainda não foi possível determinar sua origem. Ele pode já estar presente na região há anos ou ter sido introduzido mais recentemente.
Outra lagoa situada a apenas 450 metros do ponto afetado não apresentou mortalidade semelhante, sugerindo que os surtos podem ocorrer de forma bastante localizada.
O caso se destaca por reunir evidências moleculares, histológicas e populacionais de que surtos recorrentes de ranavirose podem provocar mortalidade em massa e reduzir a reprodução de anfíbios silvestres. O monitoramento seguirá para verificar a distribuição do vírus e possíveis impactos em outras populações da Mata Atlântica.

