Erosão acelerada no Estreito do Melão pode romper faixa de areia, redesenhar o Canal do Ararapira e isolar parte da Ilha do Cardoso nos próximos anos, segundo monitoramento científico contínuo na região do Lagamar.
A erosão acelerada no Estreito do Melão, em Cananéia, no litoral sul de São Paulo, deve romper nos próximos anos o cordão de areia que separa o oceano do estuário, com potencial para isolar um trecho de cerca de seis quilômetros da Ilha do Cardoso.
O afunilamento da restinga já reduziu a faixa de terra a aproximadamente 20 metros no ponto mais frágil, enquanto a dinâmica das correntes abriu um canal de cerca de 170 metros de largura e três metros de profundidade, alterando a circulação local.
Erosão no Canal do Ararapira e risco ambiental no Lagamar
O Estreito do Melão fica no Canal do Ararapira, estuário que marca a divisa natural entre São Paulo e Paraná e separa a Ilha do Cardoso da Ilha do Superagui, em uma área reconhecida pela alta sensibilidade ambiental e pela presença de manguezais.
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Nesse tipo de ambiente, as águas de rios e do mar se misturam sob influência constante das marés, e pequenas mudanças no traçado das margens podem reorganizar correntes, redistribuir sedimentos e produzir efeitos em cadeia na navegação e na composição dos habitats costeiros.
Por que a faixa de areia está encolhendo no Estreito do Melão
O desgaste ocorre porque a corrente atua de modo desigual nas duas margens, como em um rio sinuoso, e solapa a base arenosa da restinga, provocando recuo progressivo e deslocando sedimentos ao longo do tempo, com perda contínua de material no trecho.
A área mais vulnerável, segundo monitoramento de pesquisadores que acompanham a região há décadas, é justamente onde a barreira natural se estreitou de forma mais acentuada nos últimos anos, tornando-se o ponto mais provável para uma nova abertura ao oceano.

O geólogo Rodolfo José Angulo, professor da Universidade Federal do Paraná e coordenador do Laboratório de Estudos Costeiros, acompanha a área desde 2000 e avalia que, “pelas características do local, é inevitável” a formação de uma nova conexão com o mar.
Como pode surgir a nova ilha no litoral de SP
A mudança prevista não envolve o surgimento de terra em mar aberto, e sim o isolamento de um trecho já existente ao sul do Estreito do Melão, que pode ficar cercado por água caso o rompimento do cordão arenoso se confirme nos próximos anos.
A estimativa científica aponta uma janela provável entre 2032 e 2034, quando a pressão erosiva e a reorganização do fluxo podem abrir uma nova barra, redesenhando o limite entre oceano e canal na região.
Esse processo já tem sinais concretos no terreno, porque o canal formado no estreito passou a interromper deslocamentos por via terrestre em determinados pontos e reforçou a dependência de rotas por água, com impacto direto no cotidiano de moradores próximos.
Impactos na navegação, manguezais e pesca artesanal
A abertura de uma nova barra tende a reorganizar a circulação das águas no Canal do Ararapira, já que o oceano passaria a se conectar diretamente ao estuário no Estreito do Melão, deixando o trecho sul da Ilha do Cardoso em condição de isolamento.
Com a redistribuição do fluxo, a barra hoje mais ativa pode perder força de forma gradual, e o assoreamento pode avançar em alguns segmentos, o que mudaria profundidades, trajetos tradicionais de navegação e a leitura local sobre onde o canal é seguro.
Além disso, a alteração no balanço entre água doce e salgada afeta a dinâmica dos manguezais, que dependem desse equilíbrio para manter o ciclo de nutrientes e a reprodução de espécies, podendo haver impactos sobre a biodiversidade e sobre a pesca artesanal.
Ainda assim, especialistas que acompanham a área costumam lembrar que sistemas costeiros tendem a buscar um novo arranjo de equilíbrio, embora esse “ajuste” possa impor perdas a comunidades humanas e a ambientes sensíveis durante o período de transição.
Rompimento de 2018 e aceleração da erosão
Em 2018, um rompimento na região da Enseada da Baleia abriu uma nova conexão com o oceano após uma ressaca forte, e a mudança no desenho da costa alterou o comportamento das correntes, com reflexos na distribuição de energia ao longo do canal.

A partir dessa reorganização, pontos mais ao norte passaram a sentir com mais intensidade a força do desgaste, segundo a avaliação de quem monitora o estuário, o que ajuda a explicar por que o Estreito do Melão ganhou protagonismo nas discussões recentes.
Enrocamento e debate sobre intervenção humana
Entre as alternativas debatidas, aparece o enrocamento, técnica que usa grandes blocos de rocha para reduzir o impacto das ondas e tentar conter o avanço do mar em setores específicos, mas sua aplicação em áreas estuarinas costuma gerar controvérsia.
Angulo afirma que estruturas rígidas podem alterar a dinâmica do canal e acelerar a erosão em áreas vizinhas, transferindo o problema para outros trechos, por isso defende que qualquer intervenção seja restrita a situações de risco direto às moradias.
Justiça cobra plano e governo monitora área
O Ministério Público acionou o estado e cobra providências diante do avanço erosivo, e a Justiça determinou prazo de 45 dias para a apresentação de medidas, em decisão registrada em fevereiro de 2026 e vinculada à exigência de um plano de contingência.
Em resposta, o governo paulista informou que acompanha a erosão com drones, sensoriamento remoto e inspeções periódicas, além de relatar que um projeto técnico preliminar está em análise e que discute com moradores um plano de adaptação para o longo prazo.
A Secretaria de Meio Ambiente também afirmou que a mudança da linha de costa é um fenômeno natural, que pode ser intensificado por eventos extremos e pela elevação do nível do mar, enquanto comunidades caiçaras próximas avaliam como a rotina pode ser afetada.
Quatro famílias vivem a cerca de um quilômetro do ponto mais sensível, segundo informações oficiais, e a Vila Mendonça é citada como a comunidade mais próxima do estreito, em um cenário que combina risco físico, reorganização territorial e incertezas sobre circulação.
Se o rompimento ocorrer dentro da janela prevista e o trecho ao sul ficar isolado por água, como ficam a navegação diária, o acesso a serviços e a permanência das comunidades tradicionais em um território que pode mudar de forma permanente?

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