A geração Z chegou à vida adulta em um Brasil de crises sucessivas, salários que não acompanham o custo de vida, pressão por desempenho constante, vício em tela, solidão crescente, ansiedade em alta e depressão em níveis alarmantes, mesmo com desemprego baixo e formação superior mais acessível para os jovens.
A geração Z, formada pelos jovens que nasceram entre 1997 e 2010, entrou no mercado de trabalho sob o impacto da recessão de 2008, dos protestos de 2013 e da pandemia de covid-19, em um ambiente de inflação persistente e disputa acirrada por vagas, o que ajuda a explicar o clima de mal-estar generalizado.
Embora muitas vezes retratada em memes que ironizam seu comportamento, a geração Z soma hoje 48,8 milhões de pessoas no Brasil, o equivalente a 23,2% da população, tentando construir uma vida em meio a instabilidades políticas, econômicas e sociais quase contínuas. Entre o custo de vida crescente e salários que não acompanham, os jovens se veem pressionados a trabalhar mais, ganhar menos e ainda corresponder a padrões inalcançáveis de sucesso, beleza e desempenho emocional.
Crises em série, bolso apertado e vida mais cara
Para a pesquisadora da FGV Social, Janaína Feijó, “essa geração tem sim uma dificuldade adicional na hora de adquirir bens e serviços, que são uma medida da qualidade de vida do indivíduo”.
-
Um cargueiro de 183 metros enfrentou ondas de dez metros, se partiu ao meio no Lago Huron e afundou em apenas oito minutos, mas um tripulante sobreviveu por 38 horas no frio extremo para contar como aconteceu o naufrágio do SS Daniel J. Morrell em 1966
-
A maior pegadinha da história das Copas? O filme que negou o Mundial de 1958, questionou o título do Brasil e mostrou como falsas provas podem parecer totalmente confiáveis na televisão
-
Lojas online falsas da Coreia do Sul viram saída para viciados em compras que querem sentir a emoção de escolher produtos, fechar pedidos e acompanhar entregas sem gastar dinheiro nem receber nada em casa
-
Uma orelha dentro de uma história de contrabando, impérios e batalhas gigantescas: por que a Guerra da Orelha de Jenkins recebeu esse nome e virou um dos conflitos mais curiosos do século 18
Nas últimas décadas, os reajustes salariais simplesmente não acompanharam a alta do custo de vida, o que deixa a geração Z em desvantagem na hora de acessar moradia, lazer e consumo básico.
Enquanto isso, esse grupo cresce comparando sua própria realidade com a juventude das gerações X (1965 a 1980) e Y (1981 a 1996).
Lá atrás, esses jovens também enfrentaram hiperinflação, confisco de poupança, transição da ditadura militar para a democracia, guerras e conflitos.
Mas a geração Z tende a idealizar esse passado, como se a vida tivesse sido automaticamente mais fácil para os pais, ignorando parte das dificuldades enfrentadas antes.
Ao mesmo tempo, há avanços que os jovens de hoje de fato aproveitam. O nível de desemprego é o menor da série histórica, em 5,6%, segundo o IBGE, e a qualificação se tornou mais acessível: cerca de um terço dos alunos que concluem o ensino médio seguem para a graduação, com aumento da presença de mulheres e pessoas negras nas universidades e nas carreiras.
O problema é que essa porta de entrada mais ampla trouxe também muito mais concorrência.
Concorrência brutal, pressão por desempenho e mercado de trabalho hostil
Feijó ressalta que, com tanta gente chegando à universidade e buscando vagas melhores, a competição por oportunidades aumentou de forma intensa, e isso recai diretamente sobre a geração Z.
Os jovens, segundo ela, precisam apresentar desde cedo um pacote completo de “habilidades socioemocionais” exigidas pelos empregadores, ao mesmo tempo em que demonstram experiência prática que, justamente por serem jovens, ainda não conseguiram acumular.
Na prática, isso cria um círculo vicioso: sem experiência não conseguem entrar de forma efetiva no mercado, e sem entrar no mercado não conseguem adquirir a experiência que o próprio mercado cobra.
No dia a dia, essa equação se traduz em estágios mal remunerados, contratos temporários, trabalho informal, longos períodos de procura por emprego e sensação constante de inadequação profissional.
A pesquisa anual da Deloitte mostra as principais preocupações da geração Z no Brasil e ajuda a medir o tamanho dessa pressão: 34% apontam o custo de vida como maior problema, 25% citam o desemprego, 24% a mudança climática, 22% a saúde mental e 18% segurança e criminalidade.
Ou seja, os medos vão do bolso ao planeta, passando pela sensação de ameaça constante à integridade física e emocional.
Autenticidade, fluidez e consumo em modo defesa
No plano do comportamento, a consultoria McKinsey destaca que a geração Z associa o ato de comprar à expressão de autenticidade e de valores pessoais, muito mais do que as gerações anteriores.
Não se trata apenas de adquirir um produto, mas de sinalizar quem se é, o que se acredita e com que causas se quer ser identificado.
Esse grupo também valoriza fortemente a fluidez, inclusive de gênero e de crença, desafiando rótulos rígidos e padrões tradicionais.
Compromissos de longo prazo, como comprar um imóvel ou formar uma família, são frequentemente adiados, tanto por preferência quanto por necessidade econômica.
Em vez de construir patrimônio como prioridade absoluta, muitos preferem juntar experiências, viajar, explorar carreiras diferentes e preservar alguma liberdade diante de um cenário incerto.
Como observa o sócio da Deloitte, Marcos Olliver, “a geração Z busca por mais experiências, não necessariamente por manter ativos e eventualmente patrimônio, tal qual uma geração de 30, 40 anos atrás, que almejava casa própria e emprego com estabilidade”.
Em um mundo em que a estabilidade parece cada vez mais frágil, investir em vivências e flexibilidade parece mais racional do que se amarrar a dívidas de décadas.
Corpo cansado, mente sobrecarregada: o estilo de vida que adoece
Os indicadores de saúde ajudam a traduzir em números o sentimento de exaustão. Nos últimos 10 anos, o consumo de ultraprocessados aumentou 5,5% entre os brasileiros, segundo a Universidade de São Paulo (USP).
Ao mesmo tempo, 84% dos jovens são sedentários, de acordo com o IBGE, e 66% dos brasileiros têm dificuldade para dormir, conforme pesquisa publicada na revista científica Sleep Epidemiology.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta ainda que até 21% dos jovens de 13 a 29 anos se sentem solitários com frequência. Menos convivência em espaços reais, rotina de tela, alimentação pior, sono prejudicado e pouca atividade física formam um terreno fértil para que a saúde mental desande.
É exatamente nessa combinação que a geração Z vive sua rotina diária.
A psicóloga e professora da USP, Ana Barros, lembra que “perdeu-se o convívio em espaços reais e as práticas coletivas; tínhamos vizinhanças mais ativas que ofereciam, de diferentes formas, uma rede de apoio mais sólida e com contornos mais delimitados”.
Sem essa rede, os jovens encaram frustrações, medos e conflitos mais isolados, o que agrava quadros de ansiedade e depressão.
Redes sociais, vício em tela e a busca por validação imediata
Nativa digital por definição, a geração Z cresceu acompanhando o ritmo das redes sociais, da internet móvel e dos aplicativos que prometem interação constante.
Em tese, nunca foi tão fácil falar com os outros; na prática, nunca pareceu tão difícil criar vínculos profundos e duradouros.
Para Ana Barros, “a tecnologia mudou completamente as relações sociais, a forma como experimentamos e construímos nossa subjetividade e o contato com o outro”.
Ela explica que hoje a subjetivação acontece sob a lógica da visibilidade e do espelhamento imediatos, em que tudo precisa ser visto, curtido e aprovado rapidamente.
Isso gera uma necessidade intensa de validação externa, com pressão permanente para corresponder a padrões e expectativas irreais, alimentadas por algoritmos que entregam, o tempo todo, comparações com vidas aparentemente perfeitas.
Quando o jovem não alcança esse padrão, surgem sentimentos de angústia, vergonha e inadequação, que se somam às dificuldades materiais do dia a dia.
Depressão em níveis alarmantes entre jovens brasileiros
Os dados de saúde mental mostram que o problema não é apenas de percepção: é uma crise real. Cerca de 40% das mulheres e 29% dos homens da geração Z no Brasil afirmaram sofrer de depressão em 2024, segundo a pesquisa World Mental Health Day, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Esse quadro é grave mesmo quando comparado às outras faixas etárias. Entre integrantes da geração X, a proporção é de 32% de mulheres e 25% de homens, enquanto na geração Y os números chegam a 38% e 31%, respectivamente.
Ou seja, todas as gerações apresentam índices elevados de sofrimento emocional, mas a geração Z concentra os indicadores mais dramáticos, justamente no momento de transição para a vida adulta.
A combinação de futuro incerto, cobrança por alta performance, instabilidade econômica, redes sociais tóxicas e pouco apoio comunitário cria um ambiente em que o diagnóstico de depressão quase parece a regra, não a exceção.
Quando a saúde mental vira prioridade, não luxo
Em meio a tantos sinais de alerta, um movimento importante desponta: a saúde mental deixou de ser tabu e entrou na lista de prioridades.
O consultor Marcos Olliver vê isso como um ponto positivo e diferencial da geração Z. Se no passado falar de terapia soava como fraqueza, hoje é entendido cada vez mais como cuidado básico.
De acordo com pesquisa da Vida LinkedIn, cerca de 13% dos brasileiros fazem terapia e 15% tomam remédios para tratar questões psiquiátricas, enquanto 41,6% consideram a saúde mental uma prioridade.
A geração Z, em particular, tende a assumir esse discurso com mais força, dando nome ao sofrimento, buscando ajuda profissional e cobrando mais responsabilidade das empresas em relação ao tema.
Na prática, isso repercute diretamente no comportamento profissional: 56,2% dos jovens almejam vagas com possibilidade de trabalho remoto e horários flexíveis, e 71,6% afirmam que deixariam os cargos se o ambiente fosse tóxico ou o trabalho estivesse desalinhado com seus valores.
Em nome do bem-estar, eles estão menos dispostos a aceitar jornadas exaustivas, chefias abusivas e culturas organizacionais que desrespeitam limites.
Privilegiar a vida privada, rever o trabalho e redesenhar sonhos
Diante desse cenário, a geração Z tende a priorizar a vida privada em relação ao trabalho, questionando modelos que colocam a carreira como centro absoluto da existência.
A busca por equilíbrio entre tempo pessoal, relações afetivas, lazer e saúde mental pesa tanto quanto salário e plano de saúde na hora de avaliar oportunidades.
Isso não significa falta de ambição, mas mudança na régua com que o sucesso é medido.
Em vez de apenas acumular bens, muitos jovens preferem investir em aprendizagem contínua, projetos com propósito, negócios próprios e caminhos profissionais que permitam algum controle sobre tempo e rotina.
É uma resposta às pressões inéditas que enfrentam e também uma tentativa de proteger a própria cabeça.
Barros enxerga esse movimento como um ponto de virada relevante: “isso indica que, apesar das pressões inéditas que os jovens enfrentam, eles também desenvolvem estratégias próprias da sua época, como o uso das redes sociais para formar comunidades virtuais e compartilhar o que sentem”.
Ou seja, as mesmas plataformas que adoecem também podem servir como espaço de apoio e reinvenção de vínculos.
Nem toda geração Z é igual: classe, raça e oportunidades
Apesar do rótulo aparentemente homogêneo, a categoria “geração Z” não é consenso científico e carrega importantes limitações.
Ao enfatizar diferenças entre faixas etárias, esse recorte tende a esconder as convergências e, muitas vezes, reflete sobretudo o olhar de uma classe média alta, distanciando-se da realidade da maioria dos jovens.
Feijó lembra que pessoas com níveis de renda e de educação distintos têm comportamentos muito diferentes, mesmo dentro da mesma geração.
Entre a população preta e parda e de renda mais baixa, por exemplo, o sonho da casa própria permanece muito mais forte, porque a conquista de bens materiais básicos ainda é um passo urgente de ascensão social.
Já entre os mais ricos, majoritariamente brancos ou amarelos, há mais espaço para sonhar com empreender, investir e diversificar fontes de renda, em vez de focar apenas na sobrevivência imediata.
Os sonhos mudam, mas os desafios estruturais (desigualdade, racismo, violência, insegurança econômica) continuam marcando a trajetória de toda a geração Z, ainda que de formas diferentes.
A geração Z vive pior do que os pais?
No saldo, a resposta não é simples. A geração Z vive em um país com mais acesso à educação, menor desemprego e maior diversidade nas universidades, mas paga o preço de um custo de vida alto, laços comunitários enfraquecidos, competição intensa e um bombardeio permanente de estímulos digitais.
Se a sensação é de que “ganha menos, gasta mais e surta”, é porque os dados de saúde, trabalho e bem-estar confirmam que o mal-estar não é drama, é diagnóstico.
A dúvida que fica é quanto tempo sociedade, empresas e governos vão demorar para ajustar regras, políticas públicas e expectativas a uma realidade em que o sofrimento psíquico virou parte central da experiência juvenil.
E você, olhando para a sua rotina ou para a dos jovens à sua volta, acha que a geração Z está mesmo vivendo pior do que os pais ou está apenas reinventando o que significa ter uma vida boa no Brasil de hoje?

-
1 pessoa reagiu a isso.