O gelo da Antártida analisado em Allan Hills preservou bolhas de ar e gases raros que permitiram reconstruir partes do clima terrestre nos últimos 3 milhões de anos, revelando forte resfriamento dos oceanos, queda pequena de gases do efeito estufa e novas perguntas sobre a evolução climática do planeta.
O gelo da Antártida revelou novos detalhes sobre um mistério climático de 3 milhões de anos: a Terra esfriou de forma significativa nesse período, especialmente nos oceanos, enquanto os níveis de dióxido de carbono e metano caíram apenas modestamente. A descoberta aparece em dois estudos publicados na revista Nature e amplia o registro direto das condições climáticas antigas preservadas em amostras de gelo.
As pesquisas analisaram tanto o gelo antigo quanto pequenas bolhas de ar aprisionadas em seu interior. Esses registros permitiram observar uma diferença inesperada entre o resfriamento do planeta e a variação dos principais gases de efeito estufa.
Gelo da Antártida amplia registro climático antigo
O trabalho foi desenvolvido no âmbito do National Science Foundation Center for Oldest Ice Exploration, conhecido como COLDEX, esforço colaborativo liderado pela Oregon State University. O grupo atua na localização e análise de alguns dos gelos mais antigos da Terra.
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Os estudos foram liderados por Julia Marks-Peterson, doutoranda da Oregon State University, e Sarah Shackleton, que realizou o trabalho como pesquisadora de pós-doutorado na Princeton University e hoje é professora na Woods Hole Oceanographic Institution. As amostras vieram de Allan Hills, região localizada na borda do manto de gelo da Antártida Oriental.
A área de Allan Hills tem uma característica diferente dos locais tradicionais de perfuração de núcleos de gelo. Ali, o gelo foi empurrado para cima e distorcido pelo movimento do manto, o que rompe a sequência original de camadas e fornece “retratos” de diferentes momentos do passado climático.
Planeta era mais quente há 3 milhões de anos
A existência de um clima mais quente há cerca de 3 milhões de anos já era conhecida por cientistas há mais de um século. Entre as evidências estão fósseis de florestas temperadas e subtropicais em regiões como Alasca e Groenlândia, além de antigas linhas costeiras na Costa Leste dos Estados Unidos, entre Geórgia e Virgínia, indicando níveis do mar muito mais altos.
O motivo desse período quente e do resfriamento posterior ainda permanecia pouco claro. Uma das dificuldades estava em reconstruir com precisão, para um intervalo tão antigo, tanto as temperaturas globais quanto os níveis de gases do efeito estufa.
O gelo da Antártida analisado agora estende esse registro direto e oferece novos pontos de comparação. As amostras não formam uma linha contínua no tempo, mas ajudam a ampliar a compreensão sobre diferentes fases da evolução climática da Terra.
Oceanos esfriaram até 2,5 °C
Um dos estudos usou medições de gases nobres preservados nas bolhas de ar aprisionadas no gelo. Esses gases oferecem um sinal global das condições dos oceanos e permitiram estimar mudanças na temperatura oceânica ao longo do tempo.
Os resultados mostram que as temperaturas médias dos oceanos caíram cerca de 2 °C a 2,5 °C nos últimos 3 milhões de anos. Pesquisas anteriores já haviam identificado resfriamento na superfície oceânica, mas o novo estudo mostrou que o momento do resfriamento foi diferente entre águas superficiais e camadas mais profundas.
Grande parte do resfriamento geral ocorreu cedo, começando por volta de 3 milhões de anos atrás e avançando por cerca de 1 milhão de anos. Esse período coincide com a formação de grandes mantos de gelo no Hemisfério Norte, enquanto as temperaturas da superfície do oceano diminuíram mais gradualmente até cerca de 1 milhão de anos atrás.
CO₂ e metano tiveram queda modesta
Com as mesmas amostras de gelo da Antártida, Marks-Peterson e sua equipe produziram as primeiras medições diretas de dióxido de carbono e metano cobrindo os últimos 3 milhões de anos. Os resultados mostram que o CO₂ geralmente ficou abaixo de 300 partes por milhão nesse período.
Por volta de 2,7 milhões de anos atrás, os níveis de dióxido de carbono estavam em cerca de 250 partes por milhão. Depois, caíram levemente, em aproximadamente 20 partes por milhão, até 1 milhão de anos atrás.
O metano permaneceu estável em cerca de 500 partes por bilhão. Em contraste, os níveis atuais são muito mais altos: o dióxido de carbono atingiu média de 425 partes por milhão em 2025, enquanto o metano chegou a 1.935 partes por bilhão, conforme dados da National Oceanic and Atmospheric Administration citados na pesquisa.
Outros fatores ajudaram a moldar o clima
Os resultados indicam que os gases do efeito estufa, sozinhos, não explicam toda a tendência de resfriamento de longo prazo. Mudanças na refletividade da Terra, variações na vegetação e na cobertura de gelo, além de alterações na circulação oceânica, também aparecem como fatores relevantes.
A diferença entre o forte resfriamento e a queda modesta dos gases abre novas questões sobre a interação entre os componentes do sistema terrestre. O gelo da Antártida passa a ter papel central nessa investigação ao preservar registros diretos de ar antigo e condições ambientais passadas.
As pesquisas continuam com a busca por gelo ainda mais antigo. Cientistas do COLDEX identificaram recentemente gelo que pode ter até 6 milhões de anos na base de um núcleo e já analisam essas amostras.
Novas perfurações também estão em andamento para localizar outros depósitos de gelo antigo. Os trabalhos incluem o aperfeiçoamento de métodos para reconstruir níveis de dióxido de carbono, estudar outros gases presos no gelo e entender melhor como amostras tão antigas são preservadas.
Com informações ScienceDaily

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