Com 223 indústrias brasileiras no regime de maquila em 2024, o Paraguai amplia exportações, desloca fluxos logísticos, pressiona a BR-277 e aumenta a concorrência entre portos do Sul por cargas internacionais
O avanço da maquila no Paraguai, com 223 indústrias brasileiras entre as 332 empresas enquadradas no regime em 2024, já muda a logística do Sul do Brasil. O crescimento das fábricas instaladas no país vizinho amplia o fluxo de cargas na fronteira, pressiona a BR-277 e aumenta a disputa entre portos como Paranaguá, Itajaí, Navegantes e Itapoá.
Maquila no Paraguai atrai empresas brasileiras e muda o fluxo de cargas
O Paraguai se consolidou nos últimos anos como destino de empresas brasileiras interessadas em reduzir custos tributários, despesas operacionais e burocracia.
Esse movimento ocorre principalmente por meio do regime de maquila, modelo industrial criado para atrair companhias estrangeiras com incentivos fiscais e operacionais.
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Na prática, o sistema permite importar insumos, componentes e matérias-primas com tributação reduzida ou suspensa. Depois, a industrialização é feita no Paraguai e os produtos acabados são exportados.
O modelo tem atraído empresas dos setores de autopeças, têxtil, eletroeletrônicos, alimentos e bens de consumo.
Segundo dados do Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai, 223 das 332 indústrias enquadradas no regime em 2024 têm origem brasileira, o equivalente a 69% do total.
O impacto também aparece nas exportações. O regime registrou recorde histórico em 2025, superando US$ 1,3 bilhão.
O Brasil absorveu 67% das vendas externas do programa, o que reforça a ligação direta entre a expansão industrial paraguaia e a logística brasileira.
BR-277 vira eixo central e concentra gargalos no Paraná
O aumento das operações ligadas à maquila no Paraguai tem ampliado a demanda por rotas entre o país vizinho, a fronteira e os portos do Sul.
A BR-277 aparece como principal corredor desse fluxo, por ligar o Porto de Paranaguá à fronteira com o Paraguai.
A rodovia, no entanto, enfrenta problemas em um momento de maior circulação de veículos pesados. Dados da Pesquisa CNT de Rodovias 2025 mostram que 42,5% das estradas paranaenses estão em condição regular e 8,3% foram classificadas como ruins.
Segundo a CNT, as condições das rodovias elevam em 24% o custo operacional do frete no Paraná. O problema afeta diretamente a competitividade das operações que dependem de transporte rodoviário, prazos previsíveis e acesso eficiente aos portos.
Levantamento do SETCEPAR aponta que a BR-277 concentrou 28% dos acidentes e 25% das mortes registradas nas rodovias federais do Paraná em 2025.
Para Jean Carlos Rocha, CEO da ELO, empresa de logística sediada em Itajaí, a BR-277 é uma das principais artérias desse corredor, mas já opera com limitações relevantes.
Ele cita gargalos em trechos urbanos, restrições em períodos de alta demanda e desgaste estrutural causado pelo fluxo intenso de veículos pesados.
Portos do Sul entram na disputa por cargas paraguaias
A reorganização das rotas também amplia a concorrência entre os portos do Sul do país. Com mais cargas ligadas ao Paraguai, terminais com maior eficiência operacional e melhor conexão rodoviária tendem a ganhar importância.
Na avaliação de Rocha, Itajaí pode se beneficiar pela localização e pela agilidade. Navegantes e Itapoá também ganham relevância pela eficiência operacional e pela forte atuação no segmento de contêineres.
Paranaguá, por sua vez, mantém posição estratégica pela escala operacional e pela ligação com o agronegócio e o comércio exterior.
O corredor da BR-277 reforça esse papel, mas também expõe a dependência da infraestrutura rodoviária para manter o fluxo competitivo.
Para o executivo, porto competitivo hoje não depende apenas do cais. A eficiência passa por toda a cadeia logística, com previsibilidade, velocidade e capacidade de atender à nova dinâmica regional.
Esse cenário também reforça a importância dos corredores bioceânicos e da integração logística sul-americana em operações voltadas ao Pacífico e ao mercado asiático.
Transportadoras ampliam atuação internacional e aduaneira
O crescimento das maquilas paraguaias muda a estratégia de transportadoras brasileiras que atuam no Sul. Empresas do setor ampliam operações ligadas ao transporte internacional rodoviário, armazenagem e distribuição regional.
Operadores logísticos também observam aumento da procura por serviços aduaneiros e estruturas voltadas ao comércio exterior.
O avanço das operações cross-border leva empresas a reforçar presença próxima à fronteira e a revisar formas de transporte e distribuição.
Rocha afirma que a logística deixa de ser apenas nacional e passa a ser mais integrada regionalmente. Isso exige planejamento, inteligência operacional e maior coordenação entre os países do Mercosul.
Segundo ele, filas em praças de pedágio, acidentes e paralisações geram impactos imediatos em toda a cadeia. Em rotas mais pressionadas, qualquer interrupção pode afetar prazos, custos e previsibilidade.
Perda industrial acende alerta sobre competitividade
O avanço industrial do Paraguai também expõe dificuldades do ambiente de negócios brasileiro. Na avaliação de Rocha, as empresas consideram carga tributária, custo de energia, burocracia, legislação trabalhista e previsibilidade antes de investir.
Além da carga tributária, operadores do setor apontam custo energético menor e maior previsibilidade regulatória entre os fatores que ampliam a atratividade do Paraguai.
Para o CEO da ELO, a perda de operações industriais reduz movimentação logística, empregos e competitividade.
O deslocamento de fábricas também desloca fluxos estratégicos de transporte, armazenagem, distribuição e comércio exterior.
O executivo defende investimentos em infraestrutura rodoviária, acessos portuários e digitalização dos processos logísticos e aduaneiros. Segundo ele, logística cara reduz a competitividade de toda a economia.
Esta matéria foi elaborada com base em informações do Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai, da Pesquisa CNT de Rodovias 2025, do SETCEPAR e em declarações de Jean Carlos Rocha, CEO da ELO, com dados, números e declarações preservados conforme o material consultado.


Conveniência e oportunismo (…!)