Enquanto solar e eólica ainda sofrem com a intermitência, energia das ondas avança como alternativa e pode destravar uma nova etapa da transição energética
A energia das ondas do mar voltou a ganhar espaço no debate sobre transição energética porque oferece uma vantagem que poucas fontes renováveis conseguem reunir com tanta clareza, uma geração capaz de complementar os horários e períodos em que solar e eólica tendem a oscilar mais. Em um sistema elétrico cada vez mais renovável, essa combinação pode ajudar a reduzir a dependência de armazenamento caro e ampliar a confiabilidade da oferta de eletricidade.
De acordo com o Departamento de Energia dos Estados Unidos, a energia marinha pode gerar mais eletricidade justamente em momentos em que outras fontes tendem a produzir menos, como à noite e em parte do inverno. A pasta também afirma que a tecnologia ainda está em estágio inicial de desenvolvimento e enfrenta custos superiores aos de fontes já maduras, como solar e eólica, o que ajuda a explicar por que o setor ainda avança mais devagar.
Na prática, isso coloca a energia das ondas em uma posição estratégica. Em vez de disputar espaço diretamente com usinas solares e parques eólicos, ela tende a ser vista como uma fonte complementar, capaz de reforçar a estabilidade do sistema em horários e condições climáticas diferentes.
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O tema ganha peso extra no Brasil porque o país já opera uma matriz elétrica com presença relevante de renováveis e tem uma longa faixa costeira voltada para o Atlântico. Em um cenário de eletrificação crescente e pressão por descarbonização, encontrar fontes limpas com comportamento menos intermitente pode se tornar um diferencial técnico e econômico.
Energia das ondas surge como fonte complementar para solar e eólica
Segundo reportagem publicada pela Exame, a energia das ondas passou a ser tratada como alternativa estratégica justamente por oferecer maior estabilidade de geração e por poder atuar ao lado da energia solar e da eólica offshore. O texto destaca que estudos internacionais já observaram perfil mais constante de produção e melhor desempenho em períodos noturnos, algo valioso em sistemas com alta presença de painéis solares.
O Departamento de Energia dos Estados Unidos reforça essa leitura ao afirmar que a energia marinha pode aumentar a diversidade tecnológica da rede e melhorar a resiliência do abastecimento. Em outras palavras, quanto mais variadas forem as fontes limpas disponíveis, menor tende a ser a vulnerabilidade do sistema a falhas, sazonalidade climática ou picos localizados de demanda.
Além disso, a lógica da complementaridade abre espaço para projetos híbridos no mar. A própria Exame aponta que a integração com a eólica offshore pode permitir compartilhamento de infraestrutura, como cabos submarinos e subestações, o que ajuda a reduzir custos e pode acelerar a maturação comercial dessa tecnologia.
Brasil tem potencial oceânico relevante, mas ainda pouco aproveitado
No caso brasileiro, o interesse cresce porque há base física para isso. O Ministério do Meio Ambiente informa que o país tem 7.367 quilômetros de litoral, enquanto a Empresa de Pesquisa Energética, a EPE, reconhece que a energia oceânica ainda está em desenvolvimento no mundo e reúne possibilidades ligadas a ondas, marés e correntes marinhas.
As estimativas sobre o potencial nacional variam conforme a metodologia adotada. A Exame citou potencial técnico entre 50 GW e 70 GW para o Brasil, com maior destaque para trechos do Sul e do Sudeste, enquanto nota técnica da EPE baseada em estudos da COPPE/UFRJ e da Seahorse Wave Energy estimou potencial teórico de 114 GW para energia dos oceanos no país, sendo 87 GW em ondas e 27 GW em marés.
Essa diferença entre números não é necessariamente contradição. O potencial teórico costuma ser mais amplo e indica o volume bruto de energia disponível, enquanto o potencial técnico considera limitações reais de aproveitamento, como profundidade, distância da costa, tecnologia disponível, custos e restrições ambientais. Por isso, a mensagem principal permanece a mesma, o Brasil tem um recurso oceânico expressivo, mas ainda subutilizado.
O país também já teve experiências práticas. A EPE registra que a COPPE construiu em 2010 um modelo reduzido de conversor de ondas para testes e menciona um conversor onshore de 100 kW concluído em 2012 no Porto de Pecém, em Pernambuco, dentro de projeto financiado no programa de P&D da ANEEL.
Custo alto e ambiente marítimo ainda travam a escala comercial
Se o potencial é promissor, o principal freio continua sendo econômico e operacional. A Exame destacou que o custo nivelado da energia das ondas ainda permanece elevado, puxado por equipamentos caros, instalação complexa e manutenção em ambiente salino, corrosivo e sujeito a forte desgaste mecânico.
A própria EPE já registrou, com base em estudos da COPPE/UFRJ, uma faixa estimada de R$ 166/MWh a R$ 332/MWh para usinas com conversores de ondas em determinados cenários analisados. Mesmo quando esses valores variam conforme escala e projeto, o recado é claro, a tecnologia ainda precisa ganhar eficiência, volume de fabricação e experiência operacional para competir de forma ampla com fontes já consolidadas.
O Departamento de Energia dos Estados Unidos resume o problema de forma direta ao afirmar que o setor ainda conta com poucos dispositivos implantados no mundo real. Essa baixa implantação reduz a curva de aprendizado da indústria, dificulta medições mais precisas de desempenho e torna investidores e concessionárias mais cautelosos.
Há ainda um obstáculo técnico importante que costuma receber menos atenção fora do setor. Diferentemente de projetos em terra, a energia das ondas depende de equipamentos que precisam resistir por longos períodos em um ambiente de tempestades, corrosão, bioincrustação e logística de manutenção mais cara, o que aumenta o risco e encarece cada etapa do empreendimento.
Investimentos e projetos piloto indicam que a tecnologia não ficou parada
Apesar das barreiras, a tecnologia não está parada. O programa de energia marinha do Departamento de Energia dos Estados Unidos teve orçamento de US$ 141 milhões no ano fiscal de 2024, e a Ocean Energy Systems, rede internacional vinculada à Agência Internacional de Energia, informa que os EUA abriram em setembro de 2024 uma chamada que pode destinar até US$ 112,5 milhões ao desenvolvimento e teste de energia das ondas ao longo de cinco anos.
Nos Estados Unidos, o DOE também destacou o projeto da CalWave na Califórnia como o primeiro teste de longa duração da tecnologia no mar no estado, um passo relevante para aproximar a energia das ondas de aplicações ligadas à rede elétrica. O órgão afirma ainda que, combinada com solar e vento, essa fonte pode contribuir para oferta mais confiável de energia ao longo do dia e do ano.
Na Europa, Portugal segue como um dos mercados observados de perto. A Ocean Energy Systems registra que o governo português aprovou em 2023 uma Zona Livre Tecnológica offshore em Viana do Castelo para estimular inovação em renováveis marinhas, criando um ambiente regulatório voltado a testes e demonstrações em condições reais.
Esse movimento mostra que a energia das ondas ainda não venceu a batalha da escala, mas já entrou definitivamente na fase em que governos, centros de pesquisa e empresas tentam transformar potencial físico em negócio viável. Para o Brasil, isso significa que o melhor momento para discutir regulação, testes e integração à matriz pode ser agora, antes que a tecnologia amadureça totalmente em outros países e chegue aqui apenas como solução importada.
A energia das ondas pode virar peça real da matriz brasileira ou continuará como promessa cara diante do avanço mais rápido da solar e da eólica. Deixe sua opinião nos comentários e diga se o país deveria investir desde já nessa rota ou priorizar apenas as fontes que já ficaram baratas.


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