A restauração de rolos de nitrato deteriorados pela Biblioteca do Congresso permitiu a recuperação de uma obra de 1897 que documenta o nascimento da ficção científica e da robótica na cinematografia.
A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos anunciou a descoberta e restauração de um filme mudo dado como perdido por mais de um século, que contém a primeira aparição de um robô em uma obra cinematográfica. Intitulado Gugusse e o Autômato (Gugusse et l’Automate), o curta-metragem de 45 segundos foi criado em 1897 pelo pioneiro cineasta francês Georges Méliès.
A película foi localizada em um antigo baú de metal pertencente a uma família em Michigan, preservando um registro histórico que precede em 24 anos a própria criação do termo “robô”.
O tesouro escondido no baú de Michigan
A descoberta ocorreu quando Bill McFarland, um professor aposentado de Grand Rapids, Michigan, decidiu levar uma caixa de rolos de filme de seu bisavô para o Centro Nacional de Conservação Audiovisual da Biblioteca do Congresso. O bisavô de McFarland, William Frisbee, era um professor e agricultor que atuava como exibidor itinerante de cinema no final do século XIX.
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Os técnicos da biblioteca passaram mais de uma semana estabilizando e digitalizando o material, visto que o frágil filme de nitrato estava esfarelado e colado, impossibilitando sua projeção de forma segura.
O chefe do cofre de filmes de nitrato, George Willeman, identificou o logotipo da Star Film Company, produtora de Méliès, escondido na filmagem. Através de uma análise minuciosa, os especialistas confirmaram que se tratava da obra desaparecida que marca a primeira aparição de um robô nas telas. Antes desta restauração, a existência de Gugusse e o Autômato era conhecida apenas por catálogos históricos, sem que houvesse qualquer cópia sobrevivente para visualização pública ou acadêmica.
Elementos precursores da ficção científica
A narrativa do filme apresenta um palhaço, interpretado pelo próprio Georges Méliès, que interage com uma figura mecânica antropomórfica chamada Pierrot Automate. No enredo, o palhaço utiliza uma manivela para controlar os movimentos do autômato, que gradualmente adquire autonomia e ataca seu criador. Esse tema de uma criação tecnológica que se volta contra o seu inventor é um dos tropos mais antigos e persistentes da ficção científica, estabelecido na primeira aparição de um robô filmada.
Para criar o efeito de crescimento e encolhimento do autômato, Méliès utilizou técnicas de edição por substituição, que se tornariam sua marca registrada em clássicos posteriores como Viagem à Lua.
O uso de cenários pintados representando uma oficina de relógios reforça a atmosfera artesanal e inventiva do cinema da época. Ao registrar a primeira aparição de um robô, o cineasta francês não apenas inovou tecnicamente, mas também lançou as bases para o gênero que exploraria a relação entre humanos e máquinas.
Preservação e legado de Georges Méliès
A restauração do filme é considerada um marco para a arqueologia do cinema, permitindo que o público acesse o trabalho de um dos diretores mais plagiados de sua era. Estima-se que Méliès tenha produzido mais de 500 filmes, mas a maioria se perdeu devido à fragilidade do nitrato e ao descarte deliberado feito pelo próprio autor em momentos de crise financeira.
A recuperação da primeira aparição de um robô oferece uma nova perspectiva sobre como as audiências do século XIX percebiam a mecanização e a tecnologia emergente.
A versão recuperada por Bill McFarland é uma cópia de distribuição, provavelmente produzida poucas gerações depois do negativo original de 1897. Atualmente, o curta-metragem está disponível em alta definição no site da Biblioteca do Congresso, garantindo que o registro histórico seja preservado para futuras gerações.
Com a revelação da primeira aparição de um robô, a história do cinema ganha um capítulo fundamental que conecta a engenhosidade mecânica do passado com a imaginação futurista do presente.
Com informações Smithsonianmag

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