Ao lado do cunhado Eduardo D’Ávila, executivo de franquias, o ex-jogador transformou a aposta no galeto em oito restaurantes próprios no Rio de Janeiro, tudo com capital próprio, e agora prepara uma loja-conceito de mil metros quadrados na Barra da Tijuca
Quem via Filipe Gomes vestindo a camisa da Roma e da Fiorentina, no futebol italiano, dificilmente imaginaria o rumo que a vida dele tomaria fora dos gramados. Depois de 11 anos morando fora do Brasil, o ex-jogador voltou ao Rio de Janeiro com um plano diferente: empreender. E a aposta não foi em nada glamouroso, foi em galeto na brasa.
Ao lado do cunhado Eduardo D’Ávila, executivo com duas décadas no mundo das franquias, ele fundou o Empório do Galeto em 2018. Segundo a Exame, o grupo faturou R$ 40 milhões em 2025 e mira R$ 50 milhões em 2026, tudo construído com capital próprio, sem nenhum investimento externo.
Do futebol italiano à brasa carioca
A virada de chave veio quando Filipe encerrou a carreira e resolveu voltar para casa. Ele retornou ao Brasil já com a ideia de montar um negócio, enquanto Eduardo, seu cunhado, vinha de encerrar uma operação anterior e procurava o próximo passo. A dupla identificou uma demanda simples e mal explorada: um galeto com nova abordagem, focado em ambiente e atendimento, em vez de brigar apenas por preço.
-
Ela entrou numa oficina mecânica aos 14 anos, passou duas décadas com a mão na graxa num setor dominado por homens, fundou a Escola do Mecânico com 48 unidades em 12 estados e agora compra uma empresa de carros elétricos para chegar a R$ 80 milhões e “liderar” a formação técnica da América Latina
-
Poucos sabem, mas idosos têm direito a receber renda mensal, transporte gratuito, remédios e até isenção de IPTU; veja os principais benefícios disponíveis para idosos
-
BNDES apoiou metrôs e siderúrgica na Venezuela, Maduro CAIU, mas a dívida bilionária com o Brasil continuou sem acordo anunciado
-
Prédio abandonado há 30 anos em Minas vai virar unidade de biotecnologia da Funed com investimento de R$ 10 milhões e promessa de aproximar ciência, indústria e saúde pública
A escolha do produto pode parecer modesta para quem vinha do futebol europeu, mas foi justamente aí que estava a oportunidade. O galeto é um prato popular e conhecido, e transformar isso numa experiência gastronômica cuidada era um espaço vazio no mercado carioca. Filipe entrou com a disciplina de atleta e a coragem de recomeçar; Eduardo, com a régua de gestão de quem passou 20 anos estruturando franquias.
Oito restaurantes e um tíquete de R$ 70

O crescimento veio no tijolo, unidade por unidade. Hoje o Empório do Galeto tem oito restaurantes próprios, espalhados por bairros como Leblon e Botafogo e pela região metropolitana do Rio, com um tíquete médio de R$ 70 por cliente. Não foi expansão a jato com dinheiro de fundo: foi crescimento financiado pelo próprio caixa, um a um.
Segundo o Monitor Mercantil, o grupo anunciou um aporte de R$ 3 milhões para acelerar a expansão da rede, reforçando a estrutura e preparando terreno para novas casas. É o tipo de disciplina financeira que explica como um negócio de comida sobrevive e cresce num setor conhecido por margens apertadas e alta mortalidade.
Empório da Brasa: a segunda marca nascida na pandemia
Quando muita gente fechava as portas, a dupla decidiu criar uma segunda marca. O Empório da Brasa nasceu durante a pandemia e foi lançado em 2023, ampliando o cardápio para carnes variadas e levando o conceito para novos endereços, como Niterói e o West Shopping, em Campo Grande. Só na loja de Campo Grande foram investidos R$ 800 mil.
A lógica é a de esticar a operação sem perder a identidade: mesma obsessão por experiência, produto na brasa e atendimento, aplicada a um público maior. Enquanto o Galeto ancorava a marca original, a Brasa passou a ser o vetor de escala do grupo, testando formatos em regiões diferentes da cidade.
A aposta de mil metros quadrados na Barra

O próximo passo é o mais ambicioso até agora. O grupo prepara uma loja-conceito de cerca de mil metros quadrados na Barra da Tijuca e desenha um projeto de franquias para os próximos anos, o movimento que pode multiplicar o negócio para muito além dos R$ 50 milhões. É a transição de uma operação familiar para uma máquina replicável.
E é aqui que os 20 anos de Eduardo em franquias entram em campo. Para ele, a chave de uma boa franquia é não repassar ao franqueado os erros que os donos já pagaram para aprender. “A gente já cometeu muitos erros e transformou isso em aprendizado. Isso é o que queremos que o franqueado evite”, afirma o empresário à Exame.
Por que a reinvenção de um atleta é tão rara
No mundo do esporte, histórias de jogadores que perderam tudo depois de pendurar as chuteiras são quase um cliché. A transição da vida de atleta, com renda alta e curta, para a vida comum é um dos maiores desafios de quem vive do futebol, e poucos conseguem transformar a fama e o dinheiro acumulados num negócio que se sustenta sozinho. O caso de Filipe Gomes chama atenção justamente por fugir desse roteiro: em vez de apostar em algo ligado ao próprio nome ou à imagem de ex-jogador, ele escolheu um setor operacional, difícil e pouco glamouroso, e se cercou de um sócio que entendia de gestão.
Essa combinação, o atleta disposto a começar de baixo e o executivo que já conhecia as armadilhas do varejo, é o que costuma separar quem só investe dinheiro de quem realmente constrói uma empresa. Filipe entrou com a disciplina de quem treinava todos os dias e a disposição de aprender o negócio por dentro; Eduardo, com o mapa de quem já tinha errado antes e sabia onde ficavam os buracos. Juntos, montaram uma estrutura que não depende da fama de ninguém para funcionar, o que é raro em negócios tocados por celebridades do esporte.
A conta dura de abrir restaurante no Brasil
Abrir um restaurante é uma das apostas mais arriscadas do empreendedorismo brasileiro. O setor de alimentação fora do lar é conhecido pela alta rotatividade de negócios, pelas margens apertadas e por uma mortalidade elevada nos primeiros anos, principalmente para quem entra sem caixa e sem método. É nesse cenário de risco que a escolha do Empório do Galeto por crescer com capital próprio, uma unidade de cada vez, ganha peso e explica a sobrevivência do grupo.
Ao recusar investimento externo, a dupla abriu mão de crescer mais rápido em troca de manter o controle e a saúde financeira do negócio. Cada nova casa só abria quando a anterior já se pagava, uma disciplina que reduz o risco de quebrar no meio do caminho e que muitos negócios de comida ignoram na pressa de expandir. Foi assim, no passo lento e financiado pelo próprio bolso, que o grupo chegou às oito unidades atuais e agora se sente seguro para dar o salto maior da loja-conceito e do futuro projeto de franquias.
O que essa história diz sobre empreender no Brasil
A trajetória do Empório do Galeto é um retrato de um caminho que muitos atletas tentam e poucos acertam: a reinvenção depois dos gramados. Enquanto boa parte dos jogadores queima o que ganhou, Filipe Gomes escolheu um negócio simples, se cercou de um sócio técnico e construiu, no tijolo e com capital próprio, um grupo de R$ 40 milhões que emprega e alimenta o Rio. Para Eduardo, o segredo é entender que restaurante é mais do que comida.
“É um negócio dentro do negócio. A experiência tem que ir além do prato”, resume D’Ávila. Num país onde abrir um restaurante é quase sinônimo de risco alto, a dupla mostra que método, paciência e caixa próprio ainda são a receita mais confiável.
Conta pra gente nos comentários: você trocaria uma carreira de futebol na Europa para vender galeto no Rio?
