Após a posse de Delcy Rodríguez em janeiro de 2026, a Venezuela continuou sem apresentar pagamento ou acordo público para quitar a dívida bilionária ligada a obras financiadas com apoio do BNDES, incluindo metrôs e siderúrgica, segundo dados citados pela CNN Brasil e outras fontes oficiais
A posse de Delcy Rodríguez como presidente interina da Venezuela, em 5 de janeiro, abriu uma nova pergunta sobre uma dívida antiga: depois da saída de Nicolás Maduro do poder, o país vizinho pagou, renegociou ou apresentou algum calendário para quitar os valores devidos ao Brasil por obras financiadas com apoio do BNDES?
Até agora, as fontes públicas não mostram pagamento, abatimento, refinanciamento, perdão ou acordo fechado após a mudança de comando em Caracas.
O que existe, de forma documentada, é uma dívida bilionária reconhecida pelo lado brasileiro, formada por valores cobertos pela União após inadimplência em operações de exportação apoiadas pelo Fundo de Garantia à Exportação.
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Segundo a Reuters, Delcy Rodríguez foi formalmente empossada como presidente interina da Venezuela em 5 de janeiro de 2026, após a remoção de Nicolás Maduro do poder por uma operação liderada pelos Estados Unidos.
A agência informou que Rodríguez, até então vice-presidente e ministra do Petróleo, assumiu o cargo em cerimônia conduzida por Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional venezuelana e irmão da nova mandatária.
A troca de poder, porém, não apareceu nas informações disponíveis como um marco de solução para a pendência financeira com o Brasil.
Ao contrário: no dia seguinte à posse, a CNN Brasil informou, com base em dados cedidos pelo Ministério da Fazenda, que a dívida da Venezuela com o Brasil havia terminado 2025 em US$ 1,856 bilhão, valor equivalente a cerca de R$ 10,1 bilhões na cotação da época.

Dívida terminou 2025 em US$ 1,856 bilhão
Esse dado é relevante porque marca a situação da dívida imediatamente antes da posse de Delcy Rodríguez. A cifra de US$ 1,856 bilhão correspondia às indenizações já pagas pela União e aos juros de mora acumulados.
Na prática, isso significa que o problema não estava restrito a uma cobrança entre bancos ou empresas. Quando uma operação de exportação coberta pelo Fundo de Garantia à Exportação entra em inadimplência, o fundo pode indenizar o credor.
Depois disso, a União passa a buscar o ressarcimento dos valores pagos, acrescidos dos encargos correspondentes.
Neste momento, uma coisa é certa: não havia previsão de pagamento. Ou seja, até aquele momento, o governo brasileiro mantinha a cobrança, mas sem uma data definida para receber os valores.
Essa ausência de calendário oficial é um dos pontos centrais da história: a dívida existia, estava quantificada em dados enviados pelo Ministério da Fazenda e seguia sem uma solução pública.
Como o calote virou conta para a União
A origem da dívida está ligada a operações de exportação de bens e serviços brasileiros, especialmente no setor de engenharia.
O BNDES informa em sua página de transparência que financiou a comercialização de bens e serviços brasileiros para 15 países ao longo de 20 anos por meio da linha BNDES Exim Pós-embarque.
Essa modalidade permitia que empresas brasileiras vendessem ao exterior e recebessem os recursos no Brasil, enquanto o devedor externo assumia o compromisso de pagar a dívida.
O próprio BNDES explica que, no BNDES Exim Pós-embarque, a empresa exportadora recebe os recursos no Brasil após comprovar a exportação, e o devedor no exterior passa a pagar a dívida ao banco.
No caso venezuelano, operações vinculadas a obras de infraestrutura passaram a ser alvo de questionamento público depois da inadimplência.
Governo brasileiro conversou com Delcy, mas não anunciou acordo sobre a dívida
A mudança no poder venezuelano provocou reação imediata em Brasília. Segundo a Reuters, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou por telefone com Delcy Rodríguez após a ação dos Estados Unidos que depôs Nicolás Maduro.
A Presidência brasileira confirmou a ligação, mas não divulgou detalhes sobre o conteúdo da conversa.
Não há, nas informações públicas consultadas, indicação de que essa conversa tenha resultado em negociação sobre a dívida com o Brasil.
Saída de Maduro mudou o ambiente político, mas não eliminou as restrições
A chegada de Delcy Rodríguez ao poder também mudou parte da relação da Venezuela com Washington.
Segundo a Reuters, em janeiro de 2026, a nova líder venezuelana tentava consolidar poder internamente enquanto atendia a demandas dos Estados Unidos para ampliar a produção de petróleo.
Em abril de 2026, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos retirou Delcy Rodríguez da lista de sanções da OFAC.
A própria base oficial da OFAC mantém consulta pública de nomes sancionados e programas de sanções.
Esse movimento abriu espaço para uma normalização parcial da relação com os Estados Unidos, mas não significou o fim de todas as restrições contra a Venezuela. A economia venezuelana ainda carregava os efeitos de anos de crise, sanções, instabilidade institucional e queda da capacidade de financiamento externo.
Dados do Banco Mundial mostram que o PIB da Venezuela foi de US$ 99,66 bilhões em 2025. O PIB per capita ficou em US$ 3.494,80, e o crescimento anual foi de 1,6%.
Esses números ajudam a dimensionar o desafio. Uma dívida de US$ 1,856 bilhão com o Brasil, quando comparada a uma economia ainda fragilizada, representa uma cobrança de peso em um país que tentava reorganizar sua política interna, recompor relações internacionais e reconstruir capacidade econômica.
O que se sabe até agora
Com o novo cenário político na Venezuela, com Delcy Rodríguez no poder interino, tentativa de reorganização da relação com os Estados Unidos, permanência de restrições e uma crise humanitária agravada pelos terremotos de junho de 2026 indicam que essa dívida vai demorar muito para ser quitada, se um dia for.
Para o Brasil, a questão prática continua sendo a mesma: saber se os valores cobertos pela União voltarão aos cofres públicos.
Para a Venezuela, o desafio é ainda maior, porque qualquer negociação dependerá de capacidade econômica, estabilidade política, acesso a recursos externos e decisão do governo interino de tratar a dívida com o Brasil como prioridade.
