Comunidade formada em 1994 resiste até 2026 sob estrutura da ponte, com condições precárias, vínculo territorial forte e ausência de solução habitacional definitiva
Uma realidade social persistente segue visível em Mato Grosso e, ao mesmo tempo, revela falhas estruturais no acesso à moradia.
Famílias vivem sob a Ponte Júlio Müller, em Várzea Grande, desde 1994 e, ainda assim, permanecem no local em 2026.
Segundo informações, a ocupação surgiu quando cerca de 30 pessoas atravessaram o Rio Cuiabá e se instalaram na região.
Embora parte tenha aceitado propostas de realocação na época, outros moradores permaneceram e consolidaram a comunidade.
Esse cenário evidencia, portanto, a continuidade de um problema habitacional que atravessa décadas.
Além disso, mostra como a falta de políticas públicas efetivas contribui para a permanência dessas famílias em condições vulneráveis.
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Formação da comunidade e ocupação irregular
A ocupação se desenvolveu sob a estrutura da ponte, às margens do Rio Cuiabá, em área classificada como Zona de Preservação Permanente (APP).
Por isso, conforme o Código Florestal, a permanência no local é considerada irregular.
Ainda assim, as famílias estruturaram moradias improvisadas e estabeleceram formas de sobrevivência.
Além disso, a pesca e a criação de pequenos animais passaram a sustentar a comunidade ao longo dos anos.
Embora haja acesso à energia elétrica e água encanada, o saneamento básico é precário.
Ao mesmo tempo, a insegurança jurídica da ocupação mantém os moradores em constante vulnerabilidade.
Redução das famílias e permanência no território
Com o passar do tempo, a comunidade diminuiu significativamente.
Atualmente, restam três famílias, enquanto anteriormente existiam nove casas.
Mesmo assim, os moradores permanecem no local devido ao forte vínculo emocional e à dependência da pesca.
Esse apego territorial reforça a resistência à saída, mesmo diante das dificuldades.
Entre os moradores, destacam-se figuras como “Jacaré”, responsável pela horta e pelos animais.
Além disso, “Nardo” atua como mediador comunitário, organizando a convivência entre vizinhos.
Também vive na área Vitória, que utiliza cadeira de rodas.
Enquanto isso, seu marido participa das atividades de pesca, contribuindo para a renda familiar.
Tentativas de remoção e ausência de solução definitiva
Antes da Copa do Mundo de 2014, houve tentativa de remoção da comunidade.
Na época, o projeto do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) previa alterações na região.
Entretanto, o projeto foi abandonado e substituído por um sistema de BRT.
Dessa forma, a comunidade permaneceu no local sem mudanças estruturais.
Atualmente, a Prefeitura de Várzea Grande reconhece a ocupação.
Além disso, o CRAS acompanha as famílias, embora não exista plano concreto de regularização ou remoção.
Renda baseada na pesca e impacto da piracema
A pesca permanece como a principal fonte de renda da comunidade.
No entanto, fatores climáticos e econômicos afetam diretamente essa atividade.
Durante a piracema, período de restrição para preservação das espécies, a renda diminui significativamente.
Além disso, muitos moradores relatam não receber o seguro-defeso, o que agrava a vulnerabilidade.
Essa instabilidade evidencia, portanto, a fragilidade econômica enfrentada pelas famílias.
Ao mesmo tempo, reforça a dependência de uma atividade sujeita a variações ambientais.
Cenário ampliado de vulnerabilidade em Mato Grosso
De acordo com o GeoSUAS-MT, mais de 35 mil famílias vivem em situação de vulnerabilidade em Várzea Grande.
Além disso, cerca de 73 mil famílias em Mato Grosso enfrentam dificuldades habitacionais.
Segundo Emídio de Souza, da ACDHAM, muitas pessoas ocupam áreas irregulares por falta de alternativas.
Ele afirma que o principal desafio é sensibilizar autoridades responsáveis por decisões estruturais.
Esse contexto revela, portanto, que o problema ultrapassa a comunidade sob a ponte.
Além disso, demonstra que a questão habitacional afeta milhares de famílias no estado.
Plano habitacional e perspectivas futuras
Atualmente, a Prefeitura de Várzea Grande busca recursos para elaborar o Plano Municipal de Habitação.
Esse diagnóstico é considerado essencial para o planejamento urbano e social do município.
Além disso, foi anunciado um programa para regularizar mais de 8 mil imóveis em 25 bairros.
A previsão indica entrega de moradias em até dois anos e meio.
Mesmo assim, enquanto as soluções avançam lentamente, as famílias seguem vivendo sob a ponte.

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