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Europa e Japão estão prontos para iniciar os experimentos de fusão nuclear mais ambiciosos da história, em uma máquina colossal criada para domar um plasma mais quente que o Sol e aproximar a humanidade da energia praticamente infinita

Escrito por Ana Alice
Publicado em 24/03/2026 às 21:03
Assista o vídeoJT-60SA entra em nova fase no Japão e pode ajudar o ITER a avançar na corrida pela fusão nuclear com testes mais ambiciosos. (Imagem: Ilustrativa)
JT-60SA entra em nova fase no Japão e pode ajudar o ITER a avançar na corrida pela fusão nuclear com testes mais ambiciosos. (Imagem: Ilustrativa)
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Reator japonês entra em nova etapa de testes e amplia o papel da cooperação com a Europa em uma fase decisiva da pesquisa sobre fusão nuclear e do cronograma que pode influenciar o futuro do ITER.

O reator experimental JT-60SA, instalado em Naka, no Japão, entrou em uma nova etapa de preparação para experimentos de fusão nuclear que devem ganhar escala até o fim de 2026.

O projeto, conduzido em parceria entre Japão e Europa, produziu seu primeiro plasma no fim de 2023 e agora passa por um comissionamento integrado para testar sistemas adicionados após essa estreia.

De acordo com os responsáveis pelo programa, a expectativa é usar a máquina para avançar no controle de plasmas maiores, mais quentes e mais estáveis, em um cronograma que serve de apoio direto ao ITER, o megaprojeto internacional de fusão em construção no sul da França.

O papel do JT-60SA é o de conectar a etapa atual de pesquisa à operação futura de reatores mais avançados.

Embora não tenha sido concebido para campanhas completas com deutério e trítio, como as previstas para o reator francês, o equipamento japonês foi projetado para estudar regimes de plasma avançados, ampliar o conhecimento sobre confinamento magnético e gerar dados para projetos posteriores, como o DEMO.

Na prática, a máquina funciona como uma plataforma intermediária entre os tokamaks já em operação e a próxima geração de reatores experimentais.

Nova fase do JT-60SA e retomada dos experimentos

O JT-60SA foi ligado pela primeira vez em 2023, quando realizou operações iniciais de plasma em baixa potência.

Depois dessa etapa, a máquina foi desligada para receber componentes e ajustes voltados à ampliação de desempenho.

Segundo a agência japonesa QST e a europeia Fusion for Energy, a fase de retomada começou em 27 de fevereiro de 2026, com testes graduais dos subsistemas antes da volta das operações de plasma em patamar mais alto.

Vista externa do reator de fusão nuclear JT-60SA (Crédito: Fusion for Energy)
Vista externa do reator de fusão nuclear JT-60SA (Crédito: Fusion for Energy)

Esse processo inclui a verificação de equipamentos instalados dentro e fora da câmara de vácuo.

Estão nesse conjunto bobinas internas de controle, sistemas adicionais de aquecimento, portas de acesso para instrumentação, criobombas e diagnósticos destinados a acompanhar o comportamento do plasma em tempo real.

A previsão oficial divulgada por Europa e Japão indica que a nova campanha de experimentos deve começar no fim de 2026 e durar cerca de seis meses.

A máquina também passou a ser apresentada pelos responsáveis pelo projeto como o maior tokamak do mundo em operação.

Essa referência ganhou força após um resultado obtido nas primeiras campanhas: o equipamento alcançou 160 metros cúbicos de volume de plasma, marca certificada em 2024 pelo Guinness World Records.

Em materiais técnicos anteriores, o valor de 130 m³ aparecia como referência de projeto.

A diferença, nesse caso, está entre a capacidade prevista no desenho da máquina e o volume efetivamente alcançado nas operações divulgadas após a entrada em funcionamento.

Como o reator apoia o projeto ITER

O JT-60SA é um tokamak supercondutor, ou seja, um equipamento que usa campos magnéticos intensos para confinar plasma em uma câmara toroidal.

Nesse tipo de reator, o objetivo é reproduzir, de forma controlada, as condições necessárias para que núcleos leves se fundam e liberem energia.

No caso do projeto conduzido por Japão e Europa, o foco está na física e na engenharia do processo, e não na demonstração de ganho líquido de energia em escala de usina.

Por esse motivo, o combustível empregado nas etapas de pesquisa do JT-60SA é hidrogênio ou deutério.

O uso de deutério permite estudar um plasma com comportamento próximo ao de uma futura mistura deutério-trítio, mas sem reproduzir a mesma carga de nêutrons associada a máquinas voltadas à fusão em estágio mais avançado.

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Essa diferença ajuda a explicar por que o reator japonês é tratado como complementar ao ITER, e não como substituto.

O cronograma oficial mais recente do projeto francês reforça essa função de apoio.

A organização do ITER revisou o calendário e passou a indicar o início da operação de pesquisa em 2034, com energia magnética plena prevista para 2036 e o início da fase com deutério-trítio em 2039.

Até lá, qualquer avanço em estabilidade de plasma, controle de forma, instrumentação e operação sustentada obtido no JT-60SA tende a ter utilidade para o desenvolvimento do reator francês.

Engenharia de fusão nuclear e controle do plasma

Entre as intervenções feitas após a primeira campanha, uma das mais delicadas envolve bobinas internas desenvolvidas para controlar a posição do plasma em alta velocidade.

Duas delas, em formato de anel e com cerca de 8 metros de diâmetro, foram enroladas diretamente dentro da máquina.

Esses componentes fazem parte do esforço para aprimorar o controle do plasma em regimes mais exigentes, condição necessária para pulsos mais longos e para operações mais próximas do estado estacionário.

Além do controle magnético, a medição do que acontece no interior do plasma continua no centro do programa experimental.

Como sensores convencionais não resistem ao contato direto com temperaturas de dezenas ou centenas de milhões de graus, os pesquisadores dependem de métodos indiretos.

Um deles é o espalhamento de Thomson, técnica que usa laser para medir a temperatura e a densidade dos elétrons a partir da luz espalhada no plasma.

No JT-60SA, esse diagnóstico foi dividido entre contribuições japonesas e europeias.

O sistema da borda do plasma foi desenvolvido com participação de instituições da Itália e da Romênia, sob coordenação europeia, enquanto o Japão responde por outras partes do arranjo de medição.

(Imagem: Reprodução)
(Imagem: Reprodução)

Em 2025, a instalação de componentes do chamado Edge Thomson Scattering foi tratada pelos responsáveis como uma etapa central para a retomada das operações, porque esse conjunto deve ajudar a monitorar regiões críticas do plasma e a avaliar sua estabilidade.

O que a campanha deve medir no reator japonês

A próxima campanha não se limita à religação do equipamento.

O objetivo é levar a máquina a condições mais exigentes do que as alcançadas na estreia de 2023, agora com mais sistemas de aquecimento, novos diagnósticos e instrumentação adicional.

Documentos institucionais associam essa etapa ao estudo de regimes de alta densidade, ao aprimoramento do controle de plasma e à obtenção de dados que ajudem a planejar a operação de reatores maiores.

Também há menção ao uso de técnicas de inteligência artificial e ferramentas computacionais para acelerar a fase de partida do plasma, uma frente que vem ganhando espaço na pesquisa de fusão.

Ao mesmo tempo, o projeto segue como uma plataforma de cooperação científica entre Japão e Europa.

Mais de 500 pesquisadores e dezenas de fornecedores participaram de sua construção e evolução, em um arranjo concebido para formar pessoal, testar tecnologias e reduzir incertezas antes das etapas mais críticas do ITER.

Nesse contexto, os resultados esperados com o JT-60SA não se concentram em um experimento isolado, mas no conjunto de informações técnicas que poderão orientar a operação de uma máquina ainda maior e mais complexa.

A nova fase do reator japonês deve, portanto, concentrar parte da atenção internacional na corrida pela fusão nuclear, especialmente porque os resultados obtidos ali poderão alimentar decisões técnicas ligadas ao ITER e a futuros reatores de demonstração.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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