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EUA gastam US$ 30 bilhões para trocar livros didáticos por telas nas escolas e agora encaram uma geração com queda em matemática, leitura e criatividade

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 09/05/2026 às 09:53
Atualizado em 09/05/2026 às 22:55
EUA gastam US$ 30 bilhões em tecnologia escolar, mas resultados estagnados reacendem debate sobre livros didáticos.
EUA gastam US$ 30 bilhões em tecnologia escolar, mas resultados estagnados reacendem debate sobre livros didáticos.
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Após um investimento de US$ 30 bilhões em tecnologia educacional, escolas dos Estados Unidos enfrentam resultados estagnados, aumento das distrações em sala e queda de desempenho da Geração Z, enquanto professores retomam o uso de rascunhos à mão e reacendem o debate sobre os livros didáticos

O investimento bilionário dos Estados Unidos para substituir livros didáticos por telas nas escolas entrou em xeque após anos de gastos elevados, resultados estáveis em testes e sinais de queda no desempenho da Geração Z em matemática, alfabetização e criatividade.

Em 2002, o Maine se tornou o primeiro estado americano a entregar laptops a todos os alunos do sétimo ano. A iniciativa distribuiu Apple iBooks para 17.000 estudantes em 243 escolas de ensino fundamental, com o objetivo de reduzir a exclusão digital e conectar as salas de aula à internet.

O programa se transformou em um dos primeiros grandes testes estaduais de tecnologia educacional nos Estados Unidos. Ao longo dos anos, porém, a experiência mostrou que equipar uma sala com computadores não significava, automaticamente, melhorar o aprendizado.

Maine virou laboratório da troca de livros didáticos por telas

A experiência do Maine começou com uma proposta direta: levar internet e computadores para todos os estudantes de uma etapa específica da rede escolar. O estado passou a gastar US$ 12 milhões por ano com laptops para alunos, em uma política que se manteve por vários anos.

Em 2016, as escolas do Maine já tinham aproximadamente 66.000 laptops e tablets. O custo anual havia se estabilizado em torno de US$ 12 milhões, o equivalente a cerca de 1% de todo o gasto estadual com educação.

Quinze anos depois, a NPR constatou que os resultados dos testes padronizados em todo o estado permaneceram estáveis. Mesmo com a presença massiva de equipamentos nas escolas, não houve aumento mensurável nas notas dos alunos.

Amy Johnson, pesquisadora de políticas educacionais na Universidade do Sul do Maine, avaliou que o problema esteve na execução da iniciativa. As escolas receberam computadores, mas os professores não tiveram treinamento suficiente para usar a tecnologia de forma prática no processo de ensino.

Ela afirmou à NPR que a ausência de avanços relevantes na aprendizagem indicava a necessidade de ajudar escolas e docentes a entenderem melhor as formas de usar tecnologia em favor dos estudantes. O desafio, portanto, não estava apenas na compra dos equipamentos, mas em como eles entravam na rotina pedagógica.

Programa ampliou desigualdades entre escolas

A reportagem da NPR também apontou uma diferença importante entre distritos escolares. Nas áreas mais ricas, os alunos utilizavam os laptops para atividades criativas e colaborativas, com uso mais amplo das possibilidades oferecidas pela tecnologia.

Nas escolas mais pobres e rurais, o uso era mais limitado. Nesses locais, os estudantes abriam principalmente programas como PowerPoint e Microsoft Word, sem a mesma variedade de aplicações observada nos distritos com mais recursos.

Com isso, um programa criado para reduzir desigualdades acabou gerando novas diferenças. O acesso ao equipamento foi ampliado, mas a forma de uso variou conforme as condições de cada rede escolar.

O então governador Paul LePage classificou a iniciativa como um “fracasso estrondoso”. A avaliação foi citada posteriormente pela revista Fortune como um dos vereditos políticos mais duros sobre o longo experimento realizado no Maine.

Escolas americanas gastaram US$ 30 bilhões em tecnologia educacional

A experiência do Maine antecedeu uma mudança nacional. O restante dos Estados Unidos seguiu o mesmo caminho e ampliou fortemente o uso de telas nas escolas ao longo dos anos seguintes.

A Bloomberg noticiou, em fevereiro de 2026, que as escolas americanas gastaram aproximadamente US$ 30 bilhões em tecnologia educacional em 2024. O valor foi dez vezes maior do que o montante destinado a livros didáticos no mesmo ano.

O conselho editorial da Bloomberg observou que esse gasto poderia dobrar em seis anos. O crescimento ocorreu em meio a uma presença cada vez maior de dispositivos digitais no cotidiano escolar.

O desempenho dos alunos, no entanto, não acompanhou essa expansão. A mesma análise da Bloomberg apontou que os resultados de QI nos países ocidentais subiram por mais de um século, em um período marcado pela ampliação da escolaridade.

Há cerca de duas décadas, essa tendência se inverteu. A Geração Z passou a apresentar resultados inferiores aos de seus pais em testes de matemática, alfabetização e criatividade.

A análise indicou que essa é a primeira geração, nos registros acadêmicos modernos, a apresentar esse tipo de declínio. O dado aparece em contraste com o aumento dos gastos em tecnologia educacional e com a presença crescente de telas nas escolas.

Telas ocupam grande parte do dia escolar

O tempo diante das telas também se tornou um ponto central do debate. Uma pesquisa de 2021 do EdWeek Research Center mostrou que 55% dos professores afirmaram que os alunos passavam de uma a quatro horas por dia usando tecnologias educacionais.

Outros 27% relataram mais de cinco horas diárias de uso. Apenas um professor em cada cem disse que os estudantes não utilizavam nenhuma tecnologia durante a rotina escolar.

A presença das telas, portanto, deixou de ser pontual e passou a ocupar uma parte expressiva do dia dos alunos. A questão passou a ser não apenas a disponibilidade dos equipamentos, mas o que os estudantes fazem enquanto estão diante deles.

Um estudo publicado em 2014 no periódico Computers and Education acompanhou o uso de laptops em uma sala universitária com quase 3.000 alunos matriculados. A pesquisa combinou observação direta em sala de aula e questionários aplicados aos estudantes.

Os resultados mostraram que os alunos gastavam 63% do tempo de tela em atividades não relacionadas à aula. Nos questionários, o percentual relatado foi de 61%.

Entre as atividades ligadas ao curso, fazer anotações foi a mais comum. Entre os comportamentos sem relação com a aula, navegar em redes sociais apareceu em primeiro lugar.

Os pesquisadores observaram que, em um auditório amplo, os alunos praticamente não corriam risco de serem distraídos pela própria aula. Embora o estudo tenha analisado o ensino superior, o padrão se aproxima de relatos observados em outros ambientes educacionais.

Professor passou a exigir rascunhos escritos à mão

James Welsch, professor de política americana na Gorham High School, no Maine, vive esse dilema dentro da sala de aula. Suas aulas funcionam quase totalmente com telas, e os alunos escrevem posts para blogs, compartilham artigos e exibem vídeos durante discussões.

Com o tempo, Welsch percebeu mudanças nas redações entregues digitalmente. Os textos chegavam truncados, com trechos inteiros que pareciam copiados e sem a fluência que ele esperava encontrar.

Diante disso, ele mudou parte da rotina. Em alguns cursos, passou a exigir que os primeiros rascunhos fossem escritos à mão, afastando os estudantes dos laptops no momento inicial da produção textual.

O caso resume a tensão criada por mais de duas décadas de investimento em tecnologia educacional. Mesmo mantendo blogs, vídeos e debates online, o professor recorre ao papel quando chega a hora de organizar o primeiro rascunho.

Aplicativos disputam a atenção dos alunos

Outro fator apontado no material é a força dos aplicativos presentes nas telas. Um estudo da Universidade Baylor, publicado em 2025 no periódico Cyberpsychology, Behavior, and Social Networking, comparou três plataformas de vídeos curtos.

O TikTok superou Instagram Reels e YouTube Shorts em três características de design: facilidade de uso, precisão nas recomendações de conteúdo e capacidade de surpreender o usuário com frequência.

Meredith David, coautora do estudo e professora de marketing na Hankamer School of Business da Baylor, afirmou que a facilidade de uso é o pré-requisito central. Sem ela, os outros fatores não teriam a mesma importância.

O TikTok começa a reproduzir vídeos assim que o aplicativo é aberto, enquanto plataformas concorrentes exigem um clique. Essa entrada direta foi apontada pelos pesquisadores como parte do mecanismo que favorece engajamento profundo e uso compulsivo.

David acrescentou que os próprios materiais do TikTok reconhecem que usuários podem ficar viciados em menos de trinta minutos na plataforma. O estudo concluiu que os recursos de design aumentam o vício primeiro por meio do engajamento, fazendo os usuários perderem a noção do tempo.

As fontes não tratam um laptop escolar como equivalente a um feed de rede social. O conjunto de dados, porém, mostra que os Estados Unidos gastaram dezenas de bilhões de dólares para colocar telas diante dos alunos, enquanto o primeiro grande teste estadual não elevou as notas.

No fim, a experiência reacende a discussão sobre o papel dos livros didáticos, dos cadernos e das telas dentro da escola. Em Gorham, Welsch ainda ensina majoritariamente online, mas guarda os laptops quando os alunos precisam escrever o primeiro rascunho.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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