O contrato de US$ 325,5 milhões assinado em 14 de maio entre o Exército americano e a Northrop Grumman transforma drones Global Hawk RQ-4 já aposentados em uma nova frota chamada RangeHawk, voadores de 40 metros de envergadura que vão ficar 34 horas no ar a 18 mil metros de altitude só pra cronometrar a velocidade dos próprios mísseis hipersônicos.
O contrato vai até 2031, vinculado ao Test Resource Management Center, escritório do Pentágono que cuida da infraestrutura de testes de armas.
A escolha por reciclar o Global Hawk RQ-4 não é simbólica. O modelo foi sendo retirado de serviço pela Força Aérea americana no início desta década, considerado caro demais pra missões de espionagem que satélites já cobrem melhor.
Mas o casco original tem características raras: 130 pés de envergadura, autonomia de 34 horas e teto de 60 mil pés, quase o dobro da altitude máxima de um jato comercial.
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O custo de uma plataforma desse porte voando do zero é proibitivo. Reaproveitar aviões que iam pro depósito sai bem mais barato.
O que o RangeHawk realmente faz
O drone vai carregar um pacote de instrumentos chamado PANTHER, com antenas phased-array, sensores eletro-ópticos e infravermelhos, gravadores de telemetria e comunicações encriptadas.
Tudo serve pra acompanhar mísseis voando a Mach 5 e mais rápido, registrando velocidade, trajetória, temperatura de superfície e desempenho de cada estágio do voo.
A lista de programas inclui o Dark Eagle e o Long-Range Hypersonic Weapon do Exército, o Conventional Prompt Strike da Marinha e veículos boost-glide ainda em desenvolvimento.

Hoje cada teste hipersônico depende de uma frota de navios instrumentados parados em pontos específicos do oceano.
George Rumford, diretor do Test Resource Management Center, explica que esses navios demoram semanas ou meses entre testes só pra reposicionar.
O RangeHawk encurta isso pra “poucos dias”, segundo a documentação do contrato. Voando alto e por muito tempo, o drone acompanha disparos em qualquer ponto do Pacífico ou do Atlântico sem precisar atracar.
Por que o Pentágono está com pressa
A China testou um veículo hipersônico planador na década passada e já opera há vários anos o DF-17, primeiro míssil do tipo em uso ativo. A Rússia mantém os modelos Avangard e Kinjal em serviço desde o fim da década de 2010.
Os Estados Unidos vinham atrasados na largada. O Dark Eagle deveria ter entrado em serviço no Exército em 2023 e foi adiado várias vezes por problemas no lançador.
Cronometrar voos com precisão é o gargalo seguinte. Sem dados de telemetria limpos, o desenvolvimento trava porque os engenheiros não conseguem entender onde corrigir.

A gente costuma pensar em armas como objetos finais, mas o trabalho real está em iterar testes com dados precisos.
Com o RangeHawk no ar, o Pentágono espera disparar uma sequência de testes a cada poucos dias e usar a telemetria pra ajustar antes do próximo voo.
Drones que saem do depósito e viram instrumento
Cada RangeHawk repropõe um RQ-4 retirado do serviço ativo, salva o investimento original e corta o custo de fabricação de uma frota nova.
A Northrop não está sozinha nessa corrida americana por novas plataformas não tripuladas. A mesma empresa fez voar há duas semanas, em 12 de maio, outro drone experimental, o XRQ-73 híbrido-elétrico do programa SHEPARD da DARPA, em Edwards.
E em 21 de maio a Boeing entregou as primeiras unidades do MQ-25A Stingray à Marinha americana, drone-tanque autônomo embarcado.

O contrato com a Northrop vai até 2031, prazo que coincide com o ciclo previsto de novos programas hipersônicos americanos, dos derivados do X-51 air-breathing até os scramjets de longo alcance.
O detalhe mais curioso talvez seja a economia da operação: drones que iam pro ferro-velho voltam ao ar, agora não pra espionar inimigos, mas pra cronometrar as próprias armas em desenvolvimento.
Confesso que o jogo todo tem um ar meio paradoxal: pagar 325 milhões pra usar drones aposentados como cronômetro voador dos mísseis que ainda nem entraram em campo. Mas a lógica do Pentágono é clara: sem telemetria precisa, nada anda. E você, conta nos comentários se acha esse tipo de investimento militar produtivo ou sintoma de uma corrida sem freio.
Faz sentido pagar US$ 325 milhões pra ressuscitar drones aposentados só pra cronometrar mísseis hipersônicos americanos?
