Pesquisadores acompanharam 103 moradores de rua na Califórnia durante um ano inteiro dando renda básica sem nenhuma condição e descobriram que quase conseguiram metade moradia mas a mesma proporção de quem não recebeu nada também conseguiu e o que realmente mudou foi algo que vai além de ter ou não um teto
O que acontece quando você dá dinheiro aos moradores de rua e deixa que eles decidam o que fazer com ele? Segundo o portal the conversation, uma equipe da Universidade do Sul da Califórnia, em parceria com a ONG Miracle Messages, fez exatamente isso: entregou 750 dólares por mês durante um ano a 103 moradores de rua na Califórnia, sem nenhuma condição de uso. O estudo, um dos primeiros do tipo nos Estados Unidos especificamente em pessoas em situação de rua, será publicado na revista científica Social Work Research.
Os pesquisadores esperavam que a resposta fosse simples que o dinheiro ajudaria moradores de rua para conseguir moradia permanente. Mas o resultado foi mais complicado e mais revelador do que qualquer um foi antecipado. Quase metade dos participantes que receberam os pagamentos deixaram a situação de rua ao longo do ano. Parece bom, até você descobrir que praticamente a mesma proporção de pessoas que não receberam nada também encontraram moradia. O dinheiro não fez diferença nesse ponto. Mas fez diferença em outro e é aí que a história muda de direção.
O que o estudo esperava encontrar e por que os pesquisadores estavam otimistas
Quando o projeto começou em 2022, havia motivos para acreditar que dinheiro direto resolveria o problema. Um experimento semelhante no Canadá demonstrou que uma parcela única de 7.500 dólares canadenses é impossível em 99 dias o tempo que os participantes passaram em situação de rua.
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A própria Miracle Messages já tinha feito um piloto menor com nove moradores de rua, dos quais seis conseguiram moradia permanente após receberem 500 dólares mensais durante seis meses.
Mas a equipe sabia que resultados de amostras pequenas podem ser enganosos as pessoas poderiam ter encontrado moradia de qualquer forma.
Havia outra diferença crucial: os Estados Unidos têm uma rede de proteção social mais frágil que a do Canadá, o que significa que os moradores de rua americanos enfrentam um cenário estruturalmente mais difícil. Ainda assim, as expectativas eram otimistas.
O estudo foi desenhado com um grupo de controle pessoas em situação de rua que não receberam os pagamentos para medir com precisão o impacto real do dinheiro.
O resultado que ninguém esperava sobre os moradores de rua
Após um ano de pagamentos mensais, os números contaram uma história diferente da que os pesquisadores imaginaram.
Quase metade dos moradores de rua que receberam os 750 dólares mensais deixaram a situação de rua mas praticamente a mesma proporção de quem não recebeu nada também conseguiu moradia. Em termos estatísticos, o dinheiro não alterou a taxa na qualidade dos participantes que saíram pelas ruas.
Isso revela algo que muita gente não sabe: para a maioria dos americanos, a situação de rua — embora devastadora costuma ser temporária. A maioria das pessoas que vivem nas ruas está tentando conseguir um lugar para morar. Elas se movimentam, buscam oportunidades e, com o tempo, muitas encontram alguma forma de moradia.
O dinheiro extra não acelerou esse processo. Diante desse resultado, os pesquisadores fizeram outra pergunta: se os 750 dólares por mês não mudaram a situação da moradia dos moradores de rua, o que exatamente eles mudaram?
Não que os moradores de rua realmente gastassem o dinheiro
Críticos de programas de renda básicos costumam argumentar que moradores de rua gastam dinheiro livre em álcool, drogas e outros bens de “tentação”.
O estudo mostrou o oposto: a grande maioria dos participantes usou o dinheiro em necessidades básicas alimentação, transporte, saúde e despesas com moradia. Gastos com álcool, cigarros e drogas ilícitas representaram apenas 5% do valor total.
Mas os números frios não contam a história inteira. O dinheiro permitiu que moradores de rua tomassem decisões que, para quem tem casa, parecem triviais mas para quem vive na rua são impossíveis. Um participante usou o dinheiro para manter seu carro funcionando, que serviu ao mesmo tempo como transporte para o trabalho e como moradia temporária.
Outro comprou presentes de aniversário e de Natal para os pais. Outro fez uma doação para uma instituição de caridade porque isso lhe devolveu um senso de contribuição. Outro quitou uma dívida de cartão de crédito que era fonte de estresse constante.
Nenhum desses gastos aparece numa estatística sobre moradia mas cada um deles mudou a experiência de estar sem teto.
Por que 750 dólares não são suficientes para tirar moradores de rua das ruas
A explicação para o resultado é mais estrutural do indivíduo. Em fevereiro de 2026, o aluguel médio de um apartamento de um quarto nos Estados Unidos era de cerca de 1.500 dólares o dobro do valor que os moradores de rua receberam no estudo.
Ou seja, os 750 dólares mensais simplesmente não cobriram o custo de um aluguel em praticamente nenhum mercado imobiliário do país.
Moradia não depende apenas de ter dinheiro no bolso. Exija que haja uma unidade disponível e acessível e nos EUA, especialmente na Califórnia, a escassez de moradias populares é crônica.
Programas diretamente ligados à habitação, como vales-aluguel ou subsídios específicos, tendem a ter efeito mais imediato na situação de moradores de rua porque atacam o problema na ponta certa: o acesso ao imóvel. A renda básica, por mais digna que seja, esbarra num limite quando o valor não cobre o custo real de morar.
O que os pesquisadores recomendam a partir dos resultados com moradores de rua
A pesquisadora que liderou o estudo, diretora do Instituto de Pesquisa de Políticas para Pessoas em Situação de Rua da Universidade do Sul da Califórnia, chegou a uma conclusão direta. Para que a renda funcione básica como ferramenta contra a situação de rua, os pagamentos precisam ser maiores, durar mais tempo ou ambos. O valor mensal deveria ser mais próximo de cobrir o custo real do aluguel na região onde os moradores de rua vivem.
O estudo também desmontou um preconceito persistente. Moradores de rua que receberam dinheiro sem condições não “desperdiçaram” os recursos obtidos para sobreviver com mais dignidade, reduzir o estresse financeiro e atender necessidades que nenhum programa assistencial tradicional cobre.
Os pesquisadores não encontraram evidências de que o dinheiro tenha causado qualquer dano. O que o estudo mostra é que a questão dos moradores de rua nos Estados Unidos é menos sobre comportamento individual e mais sobre um mercado imobiliário que não oferece opções acessíveis e que resolver isso exige intervenções na escala do problema.
O que você acha: dar dinheiro direto aos moradores de rua é uma boa política pública ou o foco deveria ser em programas de moradia? Deixe sua opinião nos comentários.

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