Projetos de energia solar espacial avançam em testes de transmissão sem fio, enquanto agências e centros de pesquisa avaliam custos, segurança, integração à rede elétrica e viabilidade de transformar satélites em futuras usinas orbitais.
A energia solar espacial, conhecida pela sigla SBSP, voltou a ganhar espaço em pesquisas de governos, agências espaciais e universidades por propor a captação de luz solar em órbita e a transmissão dessa energia para a Terra por micro-ondas ou laser.
A tecnologia ainda não abastece redes elétricas comerciais, mas já reúne testes em laboratório, demonstrações em órbita e estudos de viabilidade conduzidos por instituições dos Estados Unidos, da Europa, do Japão e da China.
O conceito parte de uma diferença física entre o espaço e a superfície terrestre.
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Fora da atmosfera, painéis solares não estão sujeitos à mesma interferência de nuvens, chuva, poeira, variações locais de clima e alternância entre dia e noite em uma região específica.
O Departamento de Energia dos Estados Unidos afirma que a energia solar recebida na Terra é reduzida por fatores como noite, cobertura de nuvens, atmosfera e sazonalidade, enquanto sistemas orbitais poderiam captar radiação solar com menos perdas antes de enviá-la a receptores no solo.
Como uma usina solar orbital enviaria energia à Terra
Em um sistema SBSP, satélites equipados com células fotovoltaicas captariam a luz solar em órbita.
A eletricidade gerada seria convertida em radiofrequência, normalmente micro-ondas em muitos dos projetos estudados, e direcionada a estações receptoras no solo.
Essas instalações, chamadas em estudos técnicos de rectennas, converteriam o sinal recebido novamente em eletricidade para uso na rede.
A Agência Espacial Europeia descreve a energia solar espacial como uma tecnologia em avaliação para complementar fontes renováveis dependentes do clima, como solar e eólica terrestres.
O programa SOLARIS, mantido pela ESA, analisa questões técnicas, econômicas, regulatórias e ambientais antes de qualquer decisão sobre implantação em larga escala.

A transmissão por micro-ondas não significaria lançar energia de forma difusa sobre cidades ou áreas habitadas sem controle.
Nos modelos analisados por agências e centros de pesquisa, o feixe precisaria ser direcionado a áreas receptoras planejadas, com limites de potência, protocolos de segurança, monitoramento permanente e integração com autoridades de telecomunicações, aviação e energia.
Teste do Caltech com energia solar espacial
Nos Estados Unidos, um dos projetos mais citados é o Space Solar Power Project, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, o Caltech.
A iniciativa recebeu financiamento de Donald Bren e Brigitte Bren, por meio da Donald Bren Foundation, além de apoio inicial da Northrop Grumman, e busca desenvolver módulos leves e dobráveis capazes de captar energia solar e transmiti-la sem fio.
O demonstrador SSPD-1 foi lançado em janeiro de 2023 para testar três frentes: uma estrutura espacial implantável, células solares e um sistema de transmissão sem fio chamado MAPLE.
Em junho de 2023, o Caltech informou que o equipamento transmitiu energia sem fio no espaço e enviou uma quantidade detectável de energia à Terra.
O resultado foi tratado pela instituição como um marco técnico, mas não como uma operação energética comercial.
O experimento demonstrou componentes em ambiente espacial, sem equivaler a uma usina orbital conectada à rede elétrica.
Para passar dessa etapa a uma aplicação real, seria necessário ampliar a potência transmitida, aumentar a eficiência do sistema, validar a segurança do feixe e demonstrar operação estável por longos períodos.
China, Japão e Europa pesquisam energia solar no espaço
Na China, equipes ligadas à Universidade Xidian e a instituições aeroespaciais do país também pesquisam energia solar espacial.
Em 2024, uma publicação vinculada ao Centro Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação informou que pesquisadores chineses concluíram uma verificação terrestre de cadeia completa para tecnologias associadas a uma futura estação solar espacial, incluindo captação, conversão e transmissão de energia.
O Japão desenvolve estudos sobre sistemas solares espaciais há décadas.
A JAXA, agência espacial japonesa, informa que suas pesquisas em transmissão de energia sem fio por micro-ondas incluem o controle preciso do feixe, com sincronização de fases e amplitudes em antenas para direcionar a energia ao ponto desejado.
Essa etapa é considerada necessária para qualquer sistema que dependa de envio de energia do espaço para uma área específica na superfície.
Na Europa, a ESA trata o tema como uma possibilidade tecnológica ainda em avaliação.
O foco do SOLARIS é medir se a energia solar espacial poderia oferecer geração limpa, escalável e contínua para apoiar redes com maior presença de renováveis variáveis.
A própria abordagem da agência indica uma função complementar, não a substituição imediata das fontes terrestres atuais.
Desafios de engenharia para satélites solares
A construção de uma usina solar orbital exigiria painéis, refletores, transmissores e estruturas de suporte em dimensões muito superiores às de satélites convencionais.
Além do lançamento, seria necessário desdobrar e controlar componentes extensos, manter orientação precisa em relação ao Sol e ao receptor terrestre, lidar com radiação, variação térmica, vibrações e risco de colisão com detritos espaciais.
O Departamento de Energia dos Estados Unidos observa que alguns desenhos de satélites solares com transmissão por micro-ondas poderiam envolver estruturas de grande escala em órbita geoestacionária e receptores terrestres com vários quilômetros de diâmetro.
Esses números variam conforme o projeto, mas indicam o tamanho da infraestrutura necessária para transformar um teste tecnológico em fonte de eletricidade em escala de rede.
A regulação também faz parte do desafio.
Um sistema SBSP dependeria de coordenação internacional de órbitas, uso de radiofrequências, licenciamento ambiental, regras de segurança aérea, proteção de satélites, gestão de falhas e definição de responsabilidade em caso de interferência ou acidente.
Sem esses parâmetros, a transmissão de energia por feixe não poderia ser tratada apenas como uma questão de engenharia.
Custo e viabilidade da energia solar espacial
A NASA avaliou cenários de energia solar espacial que poderiam operar por volta de 2050.
O relatório concluiu que, nas premissas analisadas, os sistemas SBSP seriam mais caros que alternativas sustentáveis terrestres, embora os custos pudessem cair se lacunas tecnológicas fossem resolvidas em áreas como lançamento, montagem no espaço, fabricação em escala e eficiência da transmissão.
Esse dado não encerra a pesquisa, mas estabelece uma referência econômica para comparação.
Usinas solares terrestres, parques eólicos, baterias, redes reforçadas e outras tecnologias de armazenamento também evoluem.
Para que a energia solar espacial entre na matriz elétrica, seria necessário demonstrar não apenas viabilidade técnica, mas custo competitivo, segurança pública e benefício claro para o sistema elétrico.
A promessa de captar luz solar de forma quase contínua também exige precisão.
Satélites em órbitas adequadas podem reduzir a dependência do clima e do ciclo local de dia e noite, mas a disponibilidade não seria absoluta em todas as circunstâncias.
Eclipses orbitais, degradação de painéis, manutenção, perda de apontamento, falhas eletrônicas e restrições operacionais podem alterar a potência entregue.
Energia do espaço entre testes e rede elétrica
A energia solar espacial permanece em uma fase intermediária entre demonstração tecnológica e proposta de infraestrutura energética.
Os testes já realizados mostram que partes do sistema podem funcionar em ambiente espacial, mas a aplicação comercial exigiria transmissão em escala muito maior, integração com redes nacionais, aceitação regulatória e comprovação econômica.
Nos próximos anos, os projetos de SBSP tendem a depender menos de uma única descoberta e mais da combinação de avanços em lançadores, materiais ultraleves, robótica orbital, semicondutores, antenas, controle de feixe e normas internacionais.
Sem essas etapas, a ideia de captar energia no espaço continuará restrita a experimentos e estudos de viabilidade.


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