Estudo publicado em 5 de fevereiro de 2026 na revista Science descreve três testes controlados conduzidos pela Universidade Johns Hopkins nos quais um bonobo de 43 anos rastreou suco e uvas imaginárias, indicando que a capacidade pode remontar a um ancestral comum de 6 a 9 milhões de anos
Um bonobo demonstrou capacidade de rastrear objetos imaginários em três testes controlados conduzidos pela Universidade Johns Hopkins e publicados em 5 de fevereiro de 2026 na Science, sugerindo que a imaginação pode ter raízes evolutivas compartilhadas há 6 a 9 milhões de anos.
A pesquisa apresenta a primeira demonstração controlada de que um macaco pode imaginar objetos que não estão fisicamente presentes. Em experimentos inspirados em festas de chá infantis, o bonobo interagiu com suco invisível e uvas imaginárias de maneira consistente e confiável.
Os resultados desafiam a crença de que a imaginação é exclusivamente humana. Os pesquisadores concluíram que compreender objetos imaginários está dentro das capacidades mentais de pelo menos um primata aculturado.
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Eles sugerem que essa habilidade pode remontar a um ancestral comum compartilhado por humanos e outros primatas, há 6 a 9 milhões de anos.
Bonobo participa de testes controlados e demonstra compreensão de objetos imaginários
Kanzi, um bonobo de 43 anos que vive no Ape Initiative, participou do estudo. Ele já havia sido descrito como capaz de responder a perguntas faladas apontando e de se envolver em comportamentos de faz de conta.
Durante as sessões, Kanzi sentava-se diante de um experimentador em uma mesa com jarras, xícaras, tigelas e potes vazios. As atividades foram estruturadas no formato de um chá da tarde, em condições controladas.
No primeiro experimento, dois copos transparentes e uma jarra transparente vazia foram colocados sobre a mesa. O experimentador fingiu despejar suco imaginário nos dois copos e depois fingiu esvaziar um deles.
Em seguida, perguntou: “Onde está o suco?”. Na maioria das vezes, o bonobo apontou para o copo que ainda deveria conter o suco imaginário, mantendo a escolha correta mesmo com a troca de posições dos copos.
Bonobo distingue suco real de suco imaginário em segundo teste
Para descartar a possibilidade de que Kanzi acreditasse haver líquido real nos copos, os pesquisadores realizaram um segundo teste. Um copo continha suco verdadeiro, enquanto o outro continha apenas suco imaginário.
Quando questionado sobre qual preferia, Kanzi quase sempre escolheu o copo com suco real. O desempenho reforçou que o bonobo diferenciava entre o objeto imaginado e o objeto fisicamente presente.
Em um terceiro experimento, o procedimento foi repetido utilizando uvas. O experimentador fingia pegar uma uva de um recipiente vazio e colocá-la em um dos dois potes, depois agia como se tivesse esvaziado um deles.
Ao ouvir a pergunta “Onde está a uva?”, Kanzi indicou novamente a localização correta da uva imaginária. Embora não tenha acertado todas as vezes, seu desempenho ficou consistentemente acima do nível de acerto aleatório.
Bonobo desafia suposições sobre os limites da cognição animal
Os dados foram interpretados pelos pesquisadores como evidência de que o bonobo é capaz de gerar uma representação mental de um objeto inexistente e, simultaneamente, reconhecer que ele não é real.
Christopher Krupenye, professor assistente do Departamento de Ciências Psicológicas e Cerebrais da Universidade Johns Hopkins, afirmou que é revolucionário que a vida mental desses animais vá além do aqui e agora.
Segundo ele, a imaginação tem sido vista como elemento central do que significa ser humano. A possibilidade de que ela não seja exclusiva da nossa espécie é considerada transformadora.
Amalia Bastos, coautora do estudo, declarou que os dados sugerem que os macacos podem conceber mentalmente coisas que não existem. Ela afirmou que Kanzi gera a ideia do objeto imaginário e, ao mesmo tempo, sabe que não é real.
Bonobo e paralelos com brincadeiras humanas de faz de conta
O estudo contextualiza que crianças humanas começam a participar de atividades de faz de conta por volta dos dois anos. Bebês de 15 meses demonstram surpresa quando alguém finge encher uma xícara e age como se ainda houvesse líquido nela.
Até então, nenhum experimento controlado havia testado se animais não humanos compreendiam simulação, apesar de relatos isolados em ambientes naturais e em cativeiro.
Na natureza, já foram observadas chimpanzés fêmeas jovens carregando gravetos como se fossem bebês. Em cativeiro, um chimpanzé chegou a arrastar blocos invisíveis após brincar com blocos reais.
Os pesquisadores afirmam que o trabalho abre caminho para novas investigações sobre se outros primatas ou espécies conseguem acompanhar mentalmente objetos imaginários ou participar de brincadeiras semelhantes.
Eles também pretendem estudar se primatas podem pensar em eventos futuros ou considerar o que outros indivíduos podem estar pensando.
O estudo intitulado “Evidências da representação de objetos imaginários por Kanzi, um bonobo treinado em linguagem” foi publicado em 5 de fevereiro de 2026 na revista Science, sob DOI 10.1126/science.adz0743.
Ao abordar a imaginação como parte da vida mental dos macacos, os autores afirmam que as descobertas devem levar à reconsideração da suposição de que outros animais vivem apenas vidas robóticas, limitadas ao presente.
Krupenye declarou que essas evidências deveriam compelir as pessoas a cuidar dessas criaturas e garantir que continuem a existir, considerando a complexidade de suas mentes.

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