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Escondida por 60 mil anos no fundo do oceano, uma floresta zumbi voltou à luz, surpreendeu cientistas com árvores ainda preservadas e revelou microrganismos que podem gerar novos remédios contra infecções e câncer

Escrito por Ana Alice
Publicado em 24/03/2026 às 22:20
Floresta submersa no Golfo do México revela madeira da era glacial e microrganismos estudados por seu potencial biomédico. (Imagem: Ilustrativa)
Floresta submersa no Golfo do México revela madeira da era glacial e microrganismos estudados por seu potencial biomédico. (Imagem: Ilustrativa)
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Uma antiga floresta submersa no Golfo do México reúne madeira preservada desde a era glacial e organismos estudados por cientistas, em uma descoberta que conecta mudanças climáticas do passado, biodiversidade marinha e pesquisas biomédicas.

Uma antiga floresta de ciprestes preservada sob o mar no norte do Golfo do México, a cerca de 18 metros de profundidade e próxima à costa do Alabama, nos Estados Unidos, voltou ao centro de pesquisas científicas por dois eixos principais.

O primeiro envolve pistas sobre a paisagem e o clima da última era glacial.

O segundo está ligado ao estudo de microrganismos, enzimas e compostos com possível aplicação biomédica e biotecnológica.

Embora a descoberta costume aparecer associada à marca de 60 mil anos, os estudos publicados até agora indicam uma faixa etária mais ampla, entre 42 mil e 74 mil anos.

Ainda assim, pesquisadores e órgãos ligados à exploração oceânica usam o número aproximado para descrever a antiguidade do sítio submerso.

A preservação foi favorecida pelo soterramento em sedimentos pobres em oxigênio, condição que reduziu a decomposição da madeira.

Floresta submersa no Golfo do México ajuda a explicar o passado climático

O local reúne restos de uma antiga floresta de bald cypress, espécie típica de áreas alagadas do sul dos Estados Unidos.

Em um período em que o nível do mar era mais baixo e a linha de costa ocupava outra posição, aquelas árvores cresciam em terra firme, em ambiente de pântano.

Mais tarde, alterações no nível do mar e o soterramento por sedimentos mantiveram a madeira isolada por milênios.

Ao analisar as amostras, os pesquisadores encontraram material em estado de conservação incomum.

A paleoclimatóloga Kristine DeLong, da Louisiana State University, relatou que a madeira ainda tinha cheiro de cipreste recém-cortado, dado frequentemente citado para ilustrar o grau de preservação do sítio.

Em ambiente marinho, a expectativa usual seria de degradação mais acelerada por bactérias e organismos perfuradores de madeira.

Esse conjunto de troncos é usado para reconstruir a história ambiental da região.

Os anéis de crescimento e o contexto sedimentar podem indicar como era o clima no Golfo durante a última glaciação, quando a área hoje submersa integrava uma paisagem continental.

As pesquisas também ajudam a mapear episódios de elevação do nível do mar e mudanças no litoral do sudeste dos Estados Unidos.

Cientistas descobrem floresta submersa cujas árvores podem ajudar a desenvolver novos medicamentos • Foto: Francis Choi
Cientistas descobrem floresta submersa cujas árvores podem ajudar a desenvolver novos medicamentos • Foto: Francis Choi

Como a área foi exposta após tempestades no fundo do mar

A floresta antiga não “voltou à vida” em sentido literal.

O que ocorreu foi a reexposição de parte desse material depois que tempestades removeram sedimentos do fundo do mar.

Um dos episódios mais citados por pesquisadores é a passagem do furacão Ivan, em 2004, que abriu caminho para que troncos e tocos antes enterrados reaparecessem.

Depois disso, mergulhadores e cientistas passaram a documentar a extensão e a relevância do local.

Desde então, o sítio vem sendo investigado por equipes acadêmicas e por projetos apoiados pela NOAA, a agência dos Estados Unidos para oceanos e atmosfera.

O interesse não se limita à geologia ou à paleoclimatologia.

Com a madeira novamente exposta, o ambiente passou a abrigar uma comunidade marinha com peixes, invertebrados e organismos microscópicos associados à matéria orgânica antiga.

Microrganismos e shipworms entram no foco das pesquisas biomédicas

Uma das linhas de pesquisa mais citadas envolve os chamados shipworms, moluscos que perfuram e consomem madeira submersa.

Apesar do nome, eles não são vermes, mas bivalves adaptados a esse tipo de substrato.

Segundo os pesquisadores, o interesse nesses animais está principalmente nas bactérias simbióticas que vivem associadas a eles.

De acordo com a NOAA, trabalhos anteriores com bactérias presentes em shipworms já haviam levado à investigação de ao menos um antibiótico para tratamento de infecções parasitárias.

A partir disso, o projeto no Alabama passou a examinar se o microbioma instalado na madeira antiga poderia revelar moléculas novas, com eventual valor farmacêutico ou industrial.

Em campo, pesquisadores recolheram troncos, removeram centenas de animais, produziram culturas microbianas e separaram amostras para análises genéticas e químicas.

Esse ponto ajuda a distinguir o que já foi confirmado do que ainda está em estudo.

Há registro de uma busca por compostos com potencial antimicrobiano, analgésico, anticâncer e por enzimas capazes de degradar madeira.

(Imagem: Reprodução)
(Imagem: Reprodução)

Ao mesmo tempo, os dados públicos consultados não confirmam que cientistas já tenham isolado remédios inéditos prontos ou validados a partir dessa floresta.

O que há, até aqui, é uma frente de prospecção biológica em busca de moléculas candidatas.

Potencial biomédico da floresta antiga ainda está em fase de estudo

Pesquisas em ambientes extremos ou pouco explorados ganharam espaço porque muitos microrganismos produzem substâncias químicas para competir, se defender ou se adaptar.

Essas moléculas podem servir de base para estudos sobre novos fármacos ou processos industriais.

No caso da floresta submersa, os cientistas consideram que o isolamento prolongado e a composição singular do habitat podem aumentar a chance de encontrar organismos e compostos incomuns.

Além disso, a madeira antiga funciona como suporte para uma cadeia ecológica própria.

A NOAA descreve o local como um habitat capaz de sustentar peixes, invertebrados e microrganismos em comunidades que, em alguns aspectos, lembram recifes.

Nesse contexto, a diversidade biológica interessa não apenas pela descrição do ecossistema, mas também por seu possível uso em áreas como desenvolvimento de medicamentos, produção de enzimas e aproveitamento biotecnológico da decomposição de biomassa vegetal.

(Imagem: Reprodução/BMC)
(Imagem: Reprodução/BMC)

Ainda assim, a distância entre a descoberta de um composto promissor e sua transformação em medicamento é grande.

Mesmo quando uma molécula apresenta atividade antibiótica ou ação contra células tumorais em testes preliminares, ela ainda precisa passar por etapas de validação, segurança, eficácia e desenvolvimento farmacêutico.

Por isso, a formulação mais precisa, neste momento, é a de uma pesquisa com potencial, e não a de uma fonte já consolidada de novos remédios.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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