Estudo revela que uma erupção vulcânica em 1345 pode ter criado condições que favoreceram o surgimento da Peste Negra na Europa.
Erupção vulcânica pode ter dado origem à Peste Negra, revelam pesquisadores
Um novo estudo internacional revela o que pode ter desencadeado uma das maiores catástrofes sanitárias da história: a Peste Negra.
Pesquisadores descobriram que uma erupção vulcânica em 1345 teria alterado significativamente o clima europeu, favorecendo a crise que, poucos anos depois, matou cerca de um terço da população da Europa. As conclusões foram publicadas nesta quinta-feira (4) na revista Communications Earth & Environment.
Os cientistas, liderados por especialistas em clima, história e epidemiologia, analisaram anéis de árvores de toda a Europa, compararam os dados com núcleos de gelo da Groenlândia e Antártida e estudaram documentos históricos para reconstruir o ambiente climático e social que precedeu a pandemia medieval.
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O estudo foi conduzido por Martin Bauch, do Instituto Leibniz, e Ulf Büntgen, da Universidade de Cambridge.
Segundo os autores, a erupção teria bloqueado parcialmente a luz solar, reduzido as temperaturas e provocado perdas severas nas colheitas. Esse ambiente de escassez ajudou a criar a “tempestade perfeita” para uma crise sanitária sem precedentes.
Como a erupção teria influenciado a chegada da peste
A queda das temperaturas e o fracasso das colheitas pressionaram cidades italianas, como Veneza e Gênova, a importar grãos do Mar Negro. No entanto, os navios que transportavam esses alimentos também levavam a bactéria Yersinia pestis, responsável pela peste bubônica.
A bactéria vivia em pulgas de roedores selvagens da Ásia Central, e, com a morte dos hospedeiros naturais, as pulgas migravam para novos animais — incluindo humanos.
Segundo Bauch, armazéns de grãos atraíam essas pulgas, que conseguiam sobreviver meses alimentando-se de resíduos de cereais, o que facilitava sua viagem até os portos europeus.
Assim, a cadeia de eventos climáticos, sociais e econômicos convergiram para permitir a disseminação da peste.
Clima extremo e fome: peças-chave da pandemia medieval
Pesquisadores já sabiam que o comércio marítimo teve papel fundamental na chegada da Peste Negra à Europa. No entanto, esta é a primeira vez que um estudo relaciona diretamente atividade vulcânica e colapso climático à pandemia.
Bauch identificou, em registros históricos, sinais de fome intensa imediatamente antes da Peste Negra. Büntgen, por sua vez, analisou milhares de amostras de árvores vivas e antigas. Os anéis demonstravam temperaturas anormalmente baixas por dois a três anos, correspondendo ao período pós-erupção.
Em paralelo, núcleos de gelo mostraram picos de enxofre, substância liberada em grandes quantidades por vulcões tropicais, reforçando a hipótese climática.
Por que algumas regiões foram devastadas e outras não
O estudo também esclarece um dos enigmas mais antigos da Peste Negra: por que algumas regiões perderam até 60% da população, enquanto outras sofreram pouco impacto. Os pesquisadores atribuem essa diferença diretamente aos padrões de abastecimento de cada cidade.
Bauch explica que cidades como Roma e Milão, apesar de grandes, dependiam menos das importações de grãos porque estavam cercadas por áreas produtoras. Por isso, tiveram menos contato com cargas contaminadas que chegavam do Mar Negro.
Em contraste, cidades portuárias altamente dependentes do comércio marítimo se transformaram em epicentros da disseminação bacteriana, já que recebiam continuamente navios carregados de grãos — e, junto deles, as pulgas infectadas pela Yersinia pestis.
A Peste Negra em números
- Antes da pandemia, a população mundial era inferior a 450 milhões.
- Entre 1347 e 1351, estima-se que pelo menos 25 milhões morreram somente na Europa.
- O impacto social, econômico e cultural persistiu por décadas.
Impacto científico e novos debates
Especialistas que não participaram do estudo elogiaram os resultados e reforçaram sua importância para entender a relação entre clima e pandemias. Entre eles, Mark Welford, da Universidade do Norte de Iowa, afirmou que a pesquisa fortalece a conexão entre mudanças climáticas e a dinâmica das doenças.
Além disso, Mark Bailey, da Universidade de East Anglia, destacou que eventos como a Peste Negra “provavelmente só ocorreram por uma coincidência incomum de fatores naturais e sociais”.
Por fim, Alex Brown, da Universidade de Durham, ressaltou que o estudo evidencia a necessidade de compreender a interdependência entre pessoas, animais e meio ambiente — especialmente para prevenir futuras pandemias.
Quando o clima muda, doenças também mudam
A pesquisa indica que a Peste Negra não foi apenas resultado de comércio, negligência sanitária ou azar histórico. Pelo contrário, o estudo mostra que o evento foi profundamente influenciado pelo clima, pela organização econômica medieval e pela interação entre humanos e ambiente.
Assim, a conclusão dos autores é clara: pequenas alterações climáticas podem desencadear efeitos globais e, quando combinadas com vulnerabilidades sociais, podem transformar surtos locais em pandemias devastadoras.

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