Microsoft assinou acordo com a Helion para comprar energia de fusão em 2028, enquanto Sam Altman e investidores apostam bilhões na corrida pela fusão nuclear.
A Microsoft assinou um acordo para comprar eletricidade da Helion Energy a partir de 2028, numa das apostas mais ousadas já feitas no setor de fusão nuclear. O compromisso envolve pelo menos 50 megawatts e foi apresentado como o primeiro anúncio desse tipo no mercado, mesmo com a Helion ainda sem provar operação comercial de fusão elétrica.
A operação ajuda a explicar por que a Helion virou uma das startups de energia mais observadas dos Estados Unidos. Sam Altman investiu US$ 375 milhões na empresa, e a companhia levantou mais US$ 465 milhões em junho de 2026, alcançando avaliação de US$ 15,5 bilhões e total de US$ 1,5 bilhão em capital captado.
O que é a fusão nuclear e por que Microsoft e Sam Altman apostam que ela pode mudar o mercado global de energia
A fusão nuclear é o processo que alimenta o Sol: em vez de dividir átomos pesados, como na fissão, ela une núcleos leves e libera grandes quantidades de energia. Em tese, isso permitiria gerar eletricidade sem emissões significativas de gases de efeito estufa e sem grandes volumes de resíduos radioativos de longa duração.
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O problema é que transformar esse princípio em uma usina viável continua sendo um dos maiores desafios da engenharia moderna. A própria Reuters resumiu o ponto central da corrida global pela fusão: cientistas e engenheiros ainda não encontraram uma forma confiável de gerar mais energia com a reação do que a necessária para iniciá-la e mantê-la.
Esse desafio ficou ainda mais estratégico com a explosão da demanda por eletricidade para data centers e inteligência artificial.
A Reuters observou que a nova rodada da Helion ocorreu justamente em meio ao aumento da procura por energia para grandes operações de IA, o que ajuda a conectar a aposta da Microsoft e de Altman ao avanço de sistemas como os da OpenAI.
Como funciona o reator Polaris da Helion e por que a empresa tenta gerar eletricidade sem usar turbinas
A Helion segue uma rota diferente da maior parte das empresas de fusão. Segundo a TechCrunch, seu reator usa o conceito de field-reversed configuration, com uma câmara que lembra uma ampulheta: o combustível entra nas extremidades, vira plasma e é acelerado por ímãs até a colisão no centro.
Quando os plasmas se encontram, começam na faixa de 10 milhões a 20 milhões de graus Celsius. Em seguida, ímãs mais fortes comprimem esse plasma combinado, elevando a temperatura. Em fevereiro de 2026, a Helion anunciou que o protótipo Polaris atingiu 150 milhões de graus Celsius, marco repetido pela Reuters como um dos avanços mais recentes da empresa.
A ambição técnica da Helion está no modo de extrair eletricidade. Em vez de usar a fusão para gerar calor, ferver água e mover turbinas, a empresa quer capturar energia diretamente por indução eletromagnética, aproveitando a expansão do plasma contra os campos magnéticos do próprio sistema. A Reuters e a TechCrunch destacam que esse é um dos diferenciais centrais da empresa.
Contrato com a Microsoft colocou a Helion no centro da corrida para entregar energia de fusão à rede em 2028
O acordo com a Microsoft deu à Helion uma vitrine que nenhuma outra startup de fusão tinha alcançado. A Fortune registrou que a empresa prometeu fornecer pelo menos 50 MW à Microsoft em até um ano a partir do início da entrega, ou pagar uma penalidade financeira se não cumprir o contrato.
A ambição saiu do discurso e entrou em fase de obra. Em julho de 2025, a Reuters informou que a Helion iniciou a construção do local de sua primeira planta, chamada Orion, em Malaga, Washington, com a meta de atender os data centers da Microsoft até 2028.

Em junho de 2026, a Reuters voltou a informar que a Orion estava em construção e que a nova captação bilionária seria usada para acelerar a implantação comercial, ampliar a capacidade de fabricação e apoiar a entrega de eletricidade limpa aos clientes. Isso mostra que o cronograma segue ativo, mas ainda depende de a empresa resolver o problema mais difícil de todos: provar que o sistema gera eletricidade líquida útil.
Bilhões entraram na Helion, mas a empresa ainda não comprovou o principal marco comercial da fusão nuclear
O avanço financeiro da Helion é real. A rodada de US$ 465 milhões anunciada em 2026 quase triplicou a avaliação da empresa em relação à rodada anterior, de US$ 425 milhões em janeiro de 2025, quando a startup valia US$ 5,4 bilhões.
No lado técnico, porém, a questão decisiva continua em aberto. A TechCrunch relatou que, ao ser perguntado se a Helion já havia alcançado scientific breakeven, David Kirtley evitou responder diretamente e disse que a empresa está focada em “fazer eletricidade”, não em marcos científicos puros.
Esse ponto importa porque temperatura elevada, uso de combustível de fusão e construção da planta não equivalem, por si só, a uma usina comercial funcionando. A Reuters foi direta ao afirmar que a barreira central do setor continua sendo gerar mais energia com a fusão do que a consumida para criar e sustentar a reação.
A aposta de Sam Altman na Helion virou símbolo da ligação entre inteligência artificial, energia e infraestrutura
O investimento de US$ 375 milhões feito por Sam Altman ajudou a transformar a Helion em uma das apostas mais emblemáticas da nova corrida energética ligada à IA. A Fortune registrou esse aporte quando noticiou o acordo com a Microsoft, e a Reuters mostrou que Altman permaneceu entre os investidores da empresa mesmo após novas rodadas bilionárias.
A lógica por trás dessa movimentação é clara: a expansão da inteligência artificial exige mais capacidade computacional, e capacidade computacional exige mais eletricidade. Por isso, a fusão nuclear passou a ser tratada por parte do mercado como uma possível resposta de longo prazo para abastecer infraestrutura digital em escala.
Se a Helion cumprir o que promete, o acordo com a Microsoft será lembrado como um marco histórico da energia. Se não cumprir, o caso permanecerá como um dos exemplos mais ambiciosos de como o capital da era da inteligência artificial passou a financiar uma das tecnologias mais difíceis e incertas já perseguidas pela indústria.

