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Enterraram 4.700 toneladas de salmões podres no oceano e semanas depois o mar se vingou: uma maré vermelha tóxica matou tudo, gerou zona morta no Pacífico e arruinou a pesca no sul do Chile

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 07/01/2026 às 12:11
Descarte de 4.700 toneladas de salmão no mar em 2016 antecedeu maré vermelha em Chiloé, paralisou a pesca e gerou crise ambiental no Chile.
Descarte de 4.700 toneladas de salmão no mar em 2016 antecedeu maré vermelha em Chiloé, paralisou a pesca e gerou crise ambiental no Chile.
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Descarte emergencial de salmões mortos em 2016, no sul do Chile, antecedeu nova maré vermelha e protestos em Chiloé; estudos e decisões judiciais discutiram o peso de nutrientes e clima na crise que paralisou a pesca.

Navios despejaram, em março de 2016, cerca de 4.700 toneladas de salmões e trutas mortos em alto-mar, a aproximadamente 75 milhas náuticas da costa da ilha de Chiloé, no sul do Chile, como resposta emergencial a uma mortandade em massa nas fazendas de cultivo.

Nas semanas seguintes, a região enfrentou uma crise ambiental e econômica mais ampla: uma floração tóxica de algas associada a Alexandrium catenella avançou pela costa, contaminou mariscos, levou ao fechamento de áreas de pesca artesanal e desencadeou protestos prolongados na ilha.

A relação entre o descarte no oceano e a chamada “maré vermelha” passou a ser discutida por autoridades, cientistas e comunidades locais, com estudos posteriores indicando possível contribuição do pulso de nutrientes, sem estabelecer uma relação causal direta e exclusiva.

O episódio ocorreu em meio a um cenário já sensível do ponto de vista ambiental.

A salmonicultura vinha enfrentando, havia anos, alertas sobre os limites de carga dos fiordes do sul chileno, enquanto eventos de florações nocivas se tornavam mais frequentes na região.

A crise de 2016 acabou reunindo esses fatores em uma sequência de eventos de grande impacto social e produtivo.

A sequência de eventos que levou ao descarte no mar

Descarte de 4.700 toneladas de salmão no mar em 2016 antecedeu maré vermelha em Chiloé, paralisou a pesca e gerou crise ambiental no Chile.
Descarte de 4.700 toneladas de salmão no mar em 2016 antecedeu maré vermelha em Chiloé, paralisou a pesca e gerou crise ambiental no Chile.

O primeiro sinal de colapso surgiu no verão austral de 2016.

Uma floração de microalgas descrita em estudos científicos como associada à Pseudochattonella cf. verruculosa atingiu áreas centrais de cultivo de salmão no sul do país.

A proliferação comprometeu a oxigenação da água e afetou diretamente as brânquias dos peixes, provocando uma mortandade rápida dentro das gaiolas.

Levantamentos técnicos e reportagens publicadas à época indicam que dezenas de milhões de peixes morreram em poucos dias.

As estimativas mais citadas apontam para cerca de 39 a 40 mil toneladas de biomassa perdida apenas na primeira onda, o equivalente a aproximadamente 12% da produção anual chilena naquele período.

Com o avanço do episódio ao longo das semanas seguintes, as perdas totais da indústria se aproximaram de 100 mil toneladas.

À medida que a mortalidade avançava, o problema deixou de ser apenas produtivo e passou a envolver riscos sanitários e ambientais.

As carcaças acumuladas nas gaiolas aceleravam processos de decomposição, elevando a preocupação com a qualidade da água nas áreas costeiras e com a possibilidade de novos impactos sobre os ecossistemas próximos.

Diante da dimensão do volume, as alternativas disponíveis mostraram-se limitadas.

Parte dos peixes poderia ser processada para farinha ou óleo, outra parte enterrada em terra, mas a infraestrutura existente não conseguiu absorver a quantidade gerada em tão curto espaço de tempo.

Sob esse cenário, órgãos públicos autorizaram uma solução de emergência: o transporte de parte do material para uma área previamente delimitada em mar aberto, onde os peixes seriam descartados em águas profundas.

Registros oficiais e investigações posteriores indicam que, embora a autorização previsse um teto mais elevado, o volume efetivamente despejado ficou entre 4,6 e 4,7 mil toneladas.

A operação ocorreu ao longo de março de 2016, com sucessivas viagens de navios a partir das áreas de cultivo.

Por que o sul do Chile virou polo global do salmão

Descarte de 4.700 toneladas de salmão no mar em 2016 antecedeu maré vermelha em Chiloé, paralisou a pesca e gerou crise ambiental no Chile.
Descarte de 4.700 toneladas de salmão no mar em 2016 antecedeu maré vermelha em Chiloé, paralisou a pesca e gerou crise ambiental no Chile.

O pano de fundo da crise está ligado à expansão acelerada da salmonicultura nas últimas décadas.

Desde os anos 1980, o sul do Chile passou a receber investimentos e tecnologia estrangeira, transformando fiordes e canais frios em centros de produção intensiva de salmão do Atlântico, espécie que não ocorre naturalmente naquela região.

Esse crescimento consolidou o país entre os maiores produtores globais, mas também concentrou grandes volumes de biomassa em áreas relativamente restritas.

Estudos sobre o setor indicam que a atividade gera resíduos contínuos, como restos de ração e dejetos, que se depositam no fundo e alteram a dinâmica química e biológica dos sedimentos.

Pesquisas anteriores a 2016 já apontavam sinais de eutrofização crônica em algumas baías, com redução de oxigênio próximo ao fundo e aumento da vulnerabilidade a florações de algas.

Segundo especialistas, esses processos tendem a se intensificar quando combinados a condições oceanográficas favoráveis, como águas mais quentes e estáveis.

No ano da crise, variáveis climáticas ampliaram esse risco.

Trabalhos científicos destacam que o aquecimento e a estratificação da coluna d’água criaram um ambiente propício ao crescimento acelerado de microalgas, funcionando como um fator adicional de pressão sobre um sistema já sobrecarregado.

O que se sabe sobre o descarte de 4.700 toneladas em alto-mar

O despejo de matéria orgânica em grande escala no oceano profundo não é considerado ambientalmente neutro.

Durante a decomposição, bactérias consomem oxigênio e liberam compostos como amônio e fosfato, que podem alterar a composição da água ao redor.

No caso de Chiloé, a discussão técnica se concentrou menos na existência desses processos e mais em sua escala e alcance.

A literatura científica que analisou o episódio descreve a crise de 2016 como formada por eventos encadeados: uma primeira floração associada à mortandade nas fazendas e, semanas depois, uma segunda floração, desta vez de Alexandrium catenella, com efeitos sanitários mais amplos.

A proximidade temporal entre o descarte e o início da segunda maré vermelha levou pesquisadores a investigar se nutrientes liberados na decomposição poderiam ter se deslocado em direção à plataforma continental.

Descarte de 4.700 toneladas de salmão no mar em 2016 antecedeu maré vermelha em Chiloé, paralisou a pesca e gerou crise ambiental no Chile.
Descarte de 4.700 toneladas de salmão no mar em 2016 antecedeu maré vermelha em Chiloé, paralisou a pesca e gerou crise ambiental no Chile.

Para isso, estudos recorreram a modelos oceanográficos e simulações de correntes, buscando reconstruir o comportamento das massas de água naquele período.

Os resultados apontaram que, sob condições consideradas realistas, parte do material poderia alcançar áreas costeiras dentro do intervalo em que a floração se intensificou.

Os próprios autores ressaltaram, no entanto, que as simulações não demonstram uma relação direta e exclusiva de causa, mas indicam compatibilidade temporal e espacial entre os fenômenos.

Relatórios oficiais chilenos trataram o episódio como resultado de múltiplos fatores, incluindo variabilidade climática, histórico de enriquecimento de nutrientes e a recorrência regional de florações nocivas.

O descarte em alto-mar passou a ser analisado como um elemento adicional dentro desse conjunto, e não como único gatilho.

A maré vermelha que paralisou a pesca e virou crise social

Quando a floração de Alexandrium catenella se espalhou pela costa sul, os impactos extrapolaram o setor aquícola.

Essa espécie produz toxinas associadas ao envenenamento paralisante por mariscos, o que levou autoridades sanitárias a interditar extensas áreas de extração e comercialização.

Estudos acadêmicos e reportagens da época descrevem o episódio como uma das maiores crises socioambientais já registradas em Chiloé.

Comunidades que dependiam da coleta de moluscos ficaram meses sem acesso à principal fonte de renda, enquanto relatos de fauna morta nas praias ampliavam a percepção de gravidade do cenário.

Com a pesca artesanal suspensa, a tensão social aumentou.

Moradores organizaram protestos e bloqueios de estradas e portos, interrompendo a ligação da ilha com o continente por mais de duas semanas.

As manifestações cobravam respostas do governo e questionavam o modelo de desenvolvimento da salmonicultura na região.

O caso foi parar na Justiça e mudou o debate público

A controvérsia avançou para o Judiciário.

Em maio de 2018, a Corte Suprema do Chile analisou recursos relacionados ao episódio e concluiu que a autorização para o descarte em mar aberto não observou adequadamente o princípio da precaução ambiental.

A decisão determinou que órgãos do Estado reforçassem procedimentos e fiscalização em situações de mortalidade em massa.

Após o julgamento, investigações administrativas e ações judiciais discutiram a atuação de autoridades envolvidas no processo de autorização.

Mesmo com desfechos distintos ao longo dos anos, o caso passou a ser citado como referência nos debates sobre gestão ambiental e resposta a emergências na aquicultura.

Passados vários anos, a crise de 2016 segue presente na memória local e no debate técnico.

Pesquisadores continuam apontando a recorrência de florações nocivas no sul do Chile e a necessidade de monitoramento contínuo em um contexto de aquecimento das águas.

Diante desse histórico, como futuras emergências envolvendo grandes volumes de biomassa morta devem ser tratadas para reduzir riscos ambientais e sociais?

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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