Pressão dos Estados Unidos sobre comércio digital brasileiro ganhou novo capítulo após o USTR propor medidas contra o país, em uma apuração que envolve Pix, propriedade intelectual, tarifas, etanol e temas ambientais.
A investigação comercial aberta pelos Estados Unidos contra o Brasil em 15 de julho de 2025 voltou ao centro da agenda após o USTR, órgão responsável pela política comercial americana, propor em junho novas medidas contra produtos brasileiros com base na Seção 301 da legislação dos EUA.
Segundo reportagem publicada pelo Times Brasil, o procedimento também expôs a importância estratégica do país na disputa tecnológica entre Estados Unidos e China, ao incluir temas ligados a infraestrutura digital, serviços eletrônicos e propriedade intelectual.
O procedimento mira práticas brasileiras relacionadas a comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, tarifas preferenciais, acesso ao mercado de etanol, combate à corrupção e desmatamento ilegal, segundo documentos divulgados pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos.
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A apuração foi aberta formalmente pelo USTR em julho de 2025, teve fase de recebimento de manifestações públicas e incluiu uma audiência marcada para setembro daquele ano, antes de avançar para a etapa em que o governo americano apresentou sua avaliação e propostas de ação.
Em 2 de junho de 2026, o USTR afirmou ter identificado práticas consideradas “irrazoáveis” pelo governo americano e propôs tarifa de 25% sobre determinados produtos brasileiros, com exceções em setores específicos e prazo para consulta pública antes de eventual aplicação definitiva.
Investigação dos EUA avança sobre a agenda digital
Embora o debate público tenha se concentrado nas tarifas sobre exportações brasileiras, a investigação americana também alcança áreas sensíveis da economia digital, especialmente sistemas de pagamento, serviços eletrônicos, plataformas tecnológicas e regras de proteção à propriedade intelectual.
Na avaliação de Thaíse Hittenband, cofundadora e sócia da Convex, o caso não deve ser analisado apenas como uma disputa tarifária entre Brasil e Estados Unidos, porque envolve uma reorganização das cadeias estratégicas em um ambiente internacional mais fragmentado.
Em entrevista concedida ao Times Brasil, Thaíse afirmou que a pressão americana ocorre em meio à tentativa dos Estados Unidos de definir parceiros e reduzir vulnerabilidades em setores ligados à tecnologia, infraestrutura digital e comércio internacional.
Segundo ela, esse movimento se intensifica no contexto da rivalidade econômica e tecnológica com a China, em que países com escala, energia, território e infraestrutura digital passam a ter papel mais relevante nas cadeias globais.
A especialista afirma que o Brasil ocupa uma posição importante nesse cenário por reunir mercado consumidor, infraestrutura digital, território, capacidade energética e possibilidade de receber investimentos associados à expansão de data centers, serviços digitais e novas cadeias produtivas.
Na leitura de Thaíse, a investigação não representa um fato isolado, mas um desdobramento de disputas comerciais e tecnológicas que ganharam força nos últimos anos, à medida que governos passaram a tratar dados, pagamentos e infraestrutura como ativos estratégicos.
Pix aparece entre os pontos sensíveis
O Pix entrou no debate porque a investigação americana trata de serviços de pagamento eletrônico e comércio digital, áreas nas quais o sistema brasileiro se tornou uma das principais infraestruturas públicas de transações financeiras no país.
Criado e operado pelo Banco Central, o Pix é apresentado pelo governo brasileiro como um sistema de pagamentos instantâneos voltado a ampliar eficiência, segurança, competição e inclusão financeira, sem discriminar empresas estrangeiras ou impedir a atuação de soluções privadas.
Em resposta aos Estados Unidos, o governo brasileiro rejeitou a avaliação de que o Pix prejudique companhias americanas e sustentou que o modelo funciona como infraestrutura pública neutra, aberta a diferentes instituições financeiras e participantes autorizados pelo Banco Central.
A presença do Pix na investigação mostra que a discussão deixou de se limitar a bens físicos e passou a envolver infraestrutura digital, meios de pagamento e regras de funcionamento de mercados nos quais empresas públicas e privadas disputam espaço.
De acordo com a entrevista publicada pelo Times Brasil, Thaíse avalia que o avanço dessa infraestrutura deve ser tratado como um ativo brasileiro nas negociações internacionais, desde que o país preserve margem de manobra e evite alinhamento automático com uma única potência.
Brasil tenta preservar margem entre Washington e Pequim
A especialista afirma que o maior risco para o Brasil estaria em uma dependência excessiva de apenas uma matriz tecnológica, seja ela americana ou chinesa, porque essa escolha reduziria a capacidade de negociação em um cenário internacional mais competitivo.
Na avaliação dela, uma aproximação exclusivamente orientada pela China poderia aumentar a exposição a retaliações americanas, enquanto um alinhamento automático com os Estados Unidos deixaria de considerar o peso da relação econômica brasileira com Pequim.
O desafio, segundo Thaíse, é construir “opcionalidade”, mantendo canais com diferentes parceiros e preservando condições para negociar investimentos, tecnologia e acesso a mercados sem comprometer de forma rígida a autonomia comercial do país.
Na prática, essa estratégia significaria manter relações com Estados Unidos e China, negociar com base em interesses econômicos concretos e usar a relevância brasileira como instrumento de barganha em áreas como energia, conectividade e infraestrutura.
Propriedade intelectual amplia risco regulatório
A investigação americana também inclui propriedade intelectual, tema que pode afetar empresas brasileiras de tecnologia, plataformas digitais, desenvolvedores de software e companhias que exportam serviços ou mantêm contratos com clientes e parceiros nos Estados Unidos.
Segundo Thaíse, o impacto direto sobre empresas brasileiras pode não ser imediato, mas o avanço do processo exige acompanhamento porque eventuais medidas comerciais ou regulatórias podem elevar o escrutínio sobre práticas de mercado, contratos e proteção de ativos digitais.
Nesse contexto, companhias com atuação internacional tendem a precisar de atenção maior a documentação de propriedade intelectual, conformidade contratual, licenciamento de tecnologia e adaptação a regras exigidas por clientes ou autoridades estrangeiras.
O risco, portanto, não se limita à cobrança de tarifas sobre bens exportados, já que a investigação também pode pressionar discussões sobre padrões regulatórios, acesso a mercados e condições de concorrência em setores digitais.
Governo brasileiro contesta investigação americana
O Brasil contestou a legitimidade da investigação conduzida unilateralmente pelos Estados Unidos e defendeu que divergências comerciais sejam tratadas por meio de diálogo bilateral, canais diplomáticos e mecanismos multilaterais de solução de controvérsias.
Na resposta enviada ao USTR, o governo brasileiro rejeitou a alegação de que suas políticas digitais, tarifárias e regulatórias prejudiquem injustamente empresas americanas, inclusive no caso do Pix e de outros instrumentos ligados à economia digital.
A disputa ocorre em um momento de restrição fiscal no Brasil, fator que limita a capacidade de expansão de investimentos públicos em tecnologia, infraestrutura e inovação, embora o país siga buscando atrair capital privado para projetos ligados à transformação produtiva.
Mesmo nesse cenário, o Brasil tenta se posicionar como destino para centros de dados, serviços digitais, projetos de conectividade e investimentos que dependem de escala, energia, segurança jurídica e integração com cadeias internacionais de tecnologia.
Infraestrutura digital ganha peso nas negociações
Para Thaíse, a oportunidade brasileira depende de coordenação entre governo, setor privado e ambiente regulatório, especialmente em áreas ligadas a pagamentos, dados, infraestrutura tecnológica e atração de investimentos de longo prazo.
O Times Brasil também destacou que, na avaliação da especialista, respostas apenas reativas podem reduzir a capacidade de negociação do país, enquanto uma agenda mais coordenada permitiria tratar a pressão americana como parte de um debate mais amplo sobre inserção internacional.
A investigação dos Estados Unidos coloca em evidência uma agenda que ultrapassa o comércio tradicional entre os dois países e incorpora temas como propriedade intelectual, pagamentos instantâneos, serviços digitais, infraestrutura e concorrência tecnológica.
O valor estratégico do Brasil já não se limita a commodities, indústria ou mercado consumidor, mas também envolve dados, meios de pagamento, infraestrutura digital e capacidade de negociação em um ambiente global marcado pela disputa entre grandes potências.


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