No deserto, uma engrenagem de tecnologia, comércio e logística avança para redesenhar o abastecimento de um dos países mais dependentes de importações no mundo, em meio a pressões climáticas, geopolíticas e econômicas.
Os Emirados Árabes Unidos colocaram a segurança alimentar entre as prioridades do Estado ao tentar reduzir a dependência de compras externas.
Em um país desértico, com pouca água, calor extremo e área agrícola limitada, a estratégia combina produção local com tecnologia, expansão da infraestrutura logística e investimentos em ativos agrícolas no exterior para tornar o abastecimento menos vulnerável a choques internacionais.
A pressão é concreta.
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O país ainda importa cerca de 90% dos alimentos que consome, segundo estimativas citadas recentemente por agências e veículos internacionais ao tratar das rotas de abastecimento do Golfo.
Esse nível de dependência expõe os Emirados a crises como guerras, gargalos portuários, oscilações de preços, secas e interrupções em corredores marítimos estratégicos.
Nos últimos anos, episódios como a guerra na Ucrânia e as tensões nas rotas da região reforçaram, para autoridades e analistas ouvidos por reportagens internacionais, que o abastecimento de alimentos passou a ser tratado como tema de segurança nacional.
Estratégia de segurança alimentar dos Emirados até 2051
A resposta institucional ganhou forma em 2018, com o lançamento da Estratégia Nacional de Segurança Alimentar 2051.
O plano busca colocar os Emirados entre os países mais preparados no setor por meio de produção sustentável, uso intensivo de tecnologia, fortalecimento da oferta interna e diversificação das origens de importação.
Em documentos oficiais e relatórios setoriais baseados nessa estratégia, uma das metas centrais é elevar a produção doméstica para 50% do consumo até 2051.
Na prática, isso significa investir em modelos que dispensem parte das condições tradicionais da agricultura.
Em vez de depender apenas de solo fértil e clima ameno, os Emirados ampliaram o uso de agricultura vertical, hidroponia e cultivo em ambiente controlado.

Essas tecnologias permitem plantar em estruturas fechadas, com irrigação mais precisa e menor exposição às temperaturas extremas do deserto.
A proposta não é alcançar autossuficiência plena, algo limitado pelas condições naturais do território, mas ampliar a parcela de alimentos produzidos localmente e reduzir a vulnerabilidade do sistema.
Agricultura no deserto avança com sementes e tecnologia
Além das fazendas indoor, o país tenta enfrentar um problema mais estrutural: adaptar cultivos ao calor intenso, à seca e à salinidade do solo.
Esse esforço aparece tanto nos incentivos públicos à agrotecnologia quanto nas parcerias com empresas especializadas em genética vegetal.
Em Abu Dhabi, o programa de incentivo da ADIO, lançado com dotação de AED 1 bilhão, equivalente a cerca de US$ 272 milhões à época, foi desenhado para atrair empresas capazes de desenvolver soluções para a chamada agricultura do deserto.
Anos depois, o governo informou que o programa já havia alocado esse volume para dezenas de empresas, incluindo projetos ligados ao avanço de pesquisa e produção em ambiente controlado.
Mais recentemente, esse eixo de inovação ganhou novo impulso.
Em 1º de outubro de 2025, a Silal e a francesa Limagrain Vegetable Seeds anunciaram, em Al Ain, a criação de um centro de excelência voltado à resiliência abiótica e genômica de culturas.
Segundo as empresas, o foco é desenvolver variedades mais adequadas a condições como calor, seca e salinidade, um passo relevante para um país que tenta ampliar a produção de alimentos sob restrições climáticas severas.
Dubai Food District e a nova logística de alimentos
Os Emirados também tratam a distribuição como parte da equação.
Não basta comprar ou produzir; é preciso armazenar, refrigerar, inspecionar e redistribuir com rapidez.
Nesse contexto, Dubai colocou a logística de alimentos no centro da estratégia ao oficializar, em 22 de janeiro de 2026, o Dubai Food District, projeto da DP World que amplia e reposiciona o mercado central de frutas e vegetais de Al Aweer.
Segundo a empresa, o novo complexo terá 29 milhões de pés quadrados, o equivalente a cerca de 2,69 milhões de metros quadrados, e foi concebido para integrar comércio, armazenagem, processamento e distribuição em um único ecossistema.

A DP World afirma que a expansão preserva o papel histórico de Al Aweer, aberto em 2004, mas amplia sua escala para reduzir riscos na cadeia de suprimentos.
Hoje, o mercado já apoia mais de 2.500 comerciantes que abastecem os Emirados e outros países da região.
A lógica do projeto, segundo a DP World e analistas que acompanham a cadeia de abastecimento regional, é reduzir perdas e aumentar a previsibilidade da operação.
Em um país altamente dependente de importações, falhas em cadeia do frio, atrasos alfandegários ou interrupções logísticas podem comprometer produtos perecíveis em pouco tempo.
Ao concentrar infraestrutura, documentação digital e inspeção de qualidade, Dubai busca ampliar a capacidade de resposta do sistema.
Investimentos agrícolas dos Emirados fora do país
Ao mesmo tempo em que amplia a produção local, os Emirados mantêm outra frente de atuação: garantir acesso direto a commodities e cadeias agrícolas fora de suas fronteiras.
Esse movimento não é recente, mas ganhou mais peso com o aumento da volatilidade global.
Um dos marcos mais conhecidos foi a entrada da ADQ no capital da Louis Dreyfus Company, uma das maiores tradings agrícolas do mundo.
A operação, concluída em 2021, deu ao grupo de Abu Dhabi uma participação indireta de 45% na companhia.
O negócio ampliou o acesso emiradense a redes globais de comercialização de grãos e outras commodities agrícolas.
Outra peça relevante é a Al Dahra, multinacional do agronegócio sediada em Abu Dhabi.
Em dados publicados pela própria empresa, o grupo informa atuar em mais de 20 países, servir mais de 40 mercados e manter um banco global de terras superior a 100 mil hectares em quatro continentes.
A companhia destaca operações de grande escala na Romênia, Sérvia, Egito e Emirados, além de presença em cadeias de ração, grãos e alimentos.
Esse tipo de presença internacional ajuda os Emirados a diversificar origens de abastecimento, um ponto recorrente na política nacional de segurança alimentar.
A estratégia, segundo documentos oficiais e o posicionamento de empresas do setor, é reduzir a dependência de poucos fornecedores ou de uma única rota, distribuindo o risco entre mais parceiros, mercados e ativos produtivos.
População, turismo e tensão regional pressionam o abastecimento
A corrida por alimentos ocorre em um país que continua crescendo e atraindo população expatriada.
As estimativas mais recentes baseadas em dados das Nações Unidas apontam população na faixa de 11,5 milhões em 2026, acima do patamar registrado oficialmente pelo país em anos anteriores.
Mais moradores, mais turismo e maior demanda por alimentação ampliam a pressão sobre uma cadeia que já opera sob limitações naturais.
Ao mesmo tempo, o ambiente regional segue instável.
Reportagens recentes mostraram que novas tensões no Golfo voltaram a testar a resiliência alimentar dos países da região, justamente porque boa parte do abastecimento depende de rotas marítimas sensíveis.
Os Emirados têm reservas, capacidade financeira e infraestrutura robusta, mas continuam expostos a esse tipo de risco, como apontam análises publicadas pela imprensa internacional.
Por isso, a política emiradense não se resume à produção agrícola em ambiente desértico.
O que está em curso é a formação de uma rede mais ampla, em que tecnologia agrícola, pesquisa genética, comércio exterior, terminais logísticos e investimentos globais funcionam como partes do mesmo sistema.
O objetivo declarado pelas autoridades é reduzir vulnerabilidades e ampliar a segurança do abastecimento em um cenário de instabilidade climática e geopolítica.


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