Na Ucrânia, equipes de desminagem combinam trabalho manual, drones, máquinas remotas e inteligência artificial para enfrentar uma contaminação que ainda limita a circulação, a agricultura e a reconstrução em áreas atingidas pela guerra.
Equipes de desminagem da HALO Trust trabalham com detectores de metal, máquinas operadas à distância, drones e sistemas de inteligência artificial para retirar minas e munições não detonadas em áreas da Ucrânia afetadas pela invasão russa.
Perto do vilarejo de Myrotske, na região de Kyiv, a operação ocorre em campos e bosques que foram ocupados por forças russas no início da guerra em larga escala, em 2022, e que ainda oferecem risco à população local.
A contaminação por explosivos é uma das consequências mais duradouras do conflito.
-
Estudantes de São Paulo criam jogo para crianças com TDAH que une aprendizado, diversão e acompanhamento de pais e profissionais
-
Na Califórnia, 1.300 baterias aposentadas da Honda e Nissan escapam de ir para o lixo e viram uma usina gigante de 25 MWh, revelando como carros elétricos podem continuar abastecendo a rede mesmo depois de sair das ruas
-
Foguete chinês Kinetica-1 coloca mais de 100 satélites em órbita em 14 voos, carrega 15 toneladas de carga útil e lidera o mercado comercial espacial da China
-
Robô chinês com inteligência artificial solda sozinho plataformas de petróleo offshore, suporta 30 toneladas, corta aço de 70 milímetros e tem vida útil projetada para 20 anos
Segundo a Plataforma Nacional de Ação contra Minas da Ucrânia, até 144 mil km² do território ucraniano podem estar contaminados por minas e outros restos explosivos de guerra.
Em levantamento citado pela Reuters, a área ainda sob risco era estimada em cerca de 132 mil km², dimensão próxima à da Grécia.
Até o momento, aproximadamente 42 mil km² foram tornados seguros, de acordo com dados da plataforma estatal Demining Ukraine citados pela Reuters.
A diferença entre a área já liberada e a extensão ainda sob suspeita indica o volume de trabalho das equipes que atuam no país.
Minas na Ucrânia ainda ameaçam áreas civis
Em Myrotske, cerca de 40 quilômetros a noroeste de Kyiv, removedores de minas avançam em fileiras, com detectores de metal voltados para o chão.
O deslocamento é lento e segue protocolos definidos para reduzir o risco de acionamento de explosivos enterrados ou escondidos pela vegetação.
A HALO Trust iniciou operações no local depois que um militar ucraniano pisou em uma mina antipessoal enquanto recolhia lenha, segundo relato da organização à Reuters.
O caso ocorreu em uma área onde os combates já haviam se deslocado, mas onde os explosivos deixados no terreno continuavam a representar perigo para quem circulava pela região.
“Infelizmente, a Ucrânia é o país mais minado do mundo”, disse Olena Shustova, gerente de mídia da HALO Trust, à Reuters.
Ela afirmou ainda que o país “não será desminado em menos de 10 anos”.
A avaliação foi feita no contexto das operações conduzidas pela entidade em áreas que estiveram sob ocupação russa.
Segundo Shustova, “em todo lugar onde houve ocupação, há campos minados e artefatos explosivos”.
A HALO Trust, organização humanitária internacional especializada em ação contra minas, informou à Reuters que emprega cerca de 1.350 pessoas na Ucrânia.

Inteligência artificial ajuda a localizar explosivos
Diante da extensão do território sob suspeita, a HALO passou a usar inteligência artificial na análise de imagens captadas por drones.
Os sistemas são treinados para reconhecer sinais compatíveis com minas, munições abandonadas, crateras e outros vestígios associados à presença de explosivos.
De acordo com a Reuters, a tecnologia usada pela organização alcança cerca de 70% de precisão na identificação de minas e restos explosivos em imagens de alta resolução feitas por drones.
A ferramenta não substitui a verificação em campo, mas auxilia na triagem de áreas e na definição de prioridades para as equipes.
A HALO afirma que drones e inteligência artificial reduzem o tempo de análise de imagens e limitam a exposição direta de trabalhadores a áreas suspeitas.
Em seus materiais institucionais, a organização informa que usa essas tecnologias para acelerar a identificação de riscos e apoiar operações de limpeza em diferentes países afetados por minas.
No caso ucraniano, o uso de equipamentos autônomos e ferramentas digitais acompanha uma mudança mais ampla nas atividades ligadas à guerra e à resposta humanitária.
Nas ações de desminagem, esses recursos são empregados para localizar explosivos, orientar o trabalho de campo e diminuir o contato direto de operadores com pontos de risco.
Máquinas remotas reduzem exposição de operadores
Em outro local de desminagem ao norte de Kyiv, uma escavadeira adaptada trabalha sem operador dentro da cabine.
O controle é feito por Oleksandr Liatsevych, que permanece em uma estrutura portátil de aço, com janelas reforçadas, enquanto usa óculos de realidade virtual e joystick para conduzir o equipamento a alguns metros de distância.
A máquina revolve a terra contaminada e usa uma ferramenta especializada para triturar material suspeito.
Com esse método, o operador não precisa permanecer dentro do veículo durante a operação em áreas onde podem existir minas ou munições não detonadas.
Liatsevych, de 39 anos, era funcionário público e agricultor em Huliaipole, cidade no sul da Ucrânia situada em uma região atingida pelos combates entre forças ucranianas e russas.
À Reuters, ele afirmou que a diferença entre dirigir a máquina de dentro da cabine e operá-la por controle remoto é grande.
Também disse que teve dificuldade no início porque não jogava muitos jogos de computador quando criança.
A operação remota exige que o trabalhador interprete imagens em tempo real, controle o movimento da máquina e acompanhe as condições do terreno.
O procedimento é integrado ao trabalho das equipes que fazem a avaliação da área antes, durante e depois da passagem dos equipamentos.
Desminagem manual segue indispensável
Mesmo com o avanço de drones, máquinas e inteligência artificial, a desminagem manual continua presente nas áreas contaminadas.
Em uma floresta próxima, a desminadora Olha Kava usa colete e viseira de proteção enquanto se abaixa para procurar uma possível mina antipessoal com as mãos, seguindo procedimentos tradicionais.
Kava era agente de viagens e é mãe de três filhos.
Ela se candidatou ao trabalho de desminadora depois que amigos se juntaram às Forças Armadas após a invasão em larga escala da Rússia.
À Reuters, disse que sente medo durante o trabalho, mas afirmou que essa sensação a leva a agir de forma correta e responsável.
O perfil de Kava mostra uma característica das equipes de desminagem na Ucrânia: parte dos trabalhadores veio de profissões civis e passou por treinamento para atuar em áreas contaminadas.
A atividade ocorre tanto em regiões próximas da linha de frente quanto em localidades onde os confrontos diretos já cessaram.
Segundo a ONU na Ucrânia, minas e munições não detonadas impedem o plantio, atrasam a reconstrução de infraestrutura e dificultam o retorno de moradores às comunidades afetadas.
Em abril de 2026, a organização afirmou que a ação contra minas é um dos pontos necessários para segurança, recuperação e retomada de atividades em áreas atingidas pela guerra.
Desminagem e reconstrução na Ucrânia
A retirada de explosivos tem impacto direto sobre estradas, áreas agrícolas, florestas e vilarejos.
Antes que uma região seja devolvida ao uso civil, as equipes precisam fazer pesquisa, marcação, limpeza e verificação do terreno, conforme os protocolos de ação contra minas.
A Plataforma Nacional de Ação contra Minas informa que a Ucrânia trabalha com operadores especializados e apoio de parceiros internacionais na organização das atividades de desminagem humanitária.
A prioridade recai sobre áreas desocupadas, regiões agrícolas e pontos necessários para circulação segura da população.
No terreno, a combinação entre trabalhadores, máquinas e inteligência artificial distribui funções diferentes dentro da mesma operação.
A IA ajuda a analisar imagens e indicar áreas suspeitas.
Os drones ampliam a observação do solo.
Máquinas operadas remotamente atuam em trechos de maior risco.
Já as equipes humanas seguem responsáveis pela confirmação, remoção e liberação das áreas.
Em Myrotske e em outras regiões ucranianas afetadas pela ocupação russa, a retirada de minas permanece ligada ao retorno de moradores, ao uso de terras produtivas e à circulação em áreas rurais.

Seja o primeiro a reagir!