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Em uma escala que poucos países conseguem imaginar, a China prepara milhares de robôs para assumir a operação de sua rede elétrica, reduzir falhas humanas, sustentar o avanço explosivo da inteligência artificial e transformar a energia em uma infraestrutura mais inteligente e autônoma

Escrito por Ana Alice
Publicado em 25/04/2026 às 22:58
Assista o vídeoChina prepara milhares de robôs para operar a rede elétrica e aposta em automação e IA para sustentar o avanço energético do país. (Imagem: Ilustrativa)
China prepara milhares de robôs para operar a rede elétrica e aposta em automação e IA para sustentar o avanço energético do país. (Imagem: Ilustrativa)
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Plano bilionário em infraestrutura energética coloca robôs, inteligência artificial e redes de transmissão no centro de uma disputa tecnológica que pode mudar a forma como grandes países mantêm sistemas elétricos sob pressão.

A China prepara uma expansão em larga escala do uso de robôs na operação de sua rede elétrica, em uma estratégia que reúne automação, inteligência artificial e modernização da infraestrutura de transmissão e distribuição.

A iniciativa ocorre em meio ao aumento do consumo de energia no país, impulsionado pela indústria, por data centers, por veículos elétricos e pela ampliação de fontes renováveis.

Segundo reportagem do South China Morning Post, baseada em informações do veículo chinês Jiemian, a State Grid Corporation of China reservou 6,8 bilhões de yuans, cerca de US$ 1 bilhão, para comprar robôs com inteligência artificial em 2026.

A empresa é a principal operadora da rede elétrica chinesa e atua em 26 das 31 regiões provinciais da China continental.

Robôs na rede elétrica chinesa

O plano prevê a aquisição de cerca de 8.500 robôs pela State Grid em 2026.

A maior parte será formada por máquinas quadrúpedes, usadas em inspeções de subestações, linhas de transmissão e instalações localizadas em áreas montanhosas ou de acesso difícil.

Também estão previstos robôs humanoides e equipamentos com dois braços, destinados a tarefas mais complexas.

Entre as atividades citadas pela reportagem estão serviços ligados à rede de ultra-alta tensão, inspeções em campo e apoio a operações em ambientes considerados de maior risco para equipes humanas.

A escala do projeto tem relação direta com o tamanho do sistema elétrico chinês.

Além da State Grid, a China Southern Power Grid atende cinco regiões do sul do país, incluindo Guangdong.

Quando os planos de outras empresas do setor são considerados, os investimentos em robótica aplicada à rede elétrica podem superar 10 bilhões de yuans em 2026, segundo a mesma reportagem.

Na prática, os robôs devem executar atividades de inspeção, monitoramento e manutenção preventiva.

Essas funções já fazem parte da rotina de concessionárias e operadoras de energia, mas a automação permite ampliar a coleta de dados em campo e reduzir a necessidade de deslocamento humano em determinadas áreas.

Um funcionário da China Southern Power Grid demonstra o controle de um robô humanoide no laboratório de robótica da empresa em Guangzhou. Foto: Reuters
Um funcionário da China Southern Power Grid demonstra o controle de um robô humanoide no laboratório de robótica da empresa em Guangzhou. Foto: Reuters

Consumo de energia cresce com IA e data centers

A aposta chinesa em robôs ocorre em um momento de forte expansão do consumo de eletricidade.

Em 2025, a demanda elétrica da China passou de 10 trilhões de kWh pela primeira vez e chegou a 10,4 trilhões de kWh, alta de 5% em relação ao ano anterior, segundo dados da Administração Nacional de Energia do país divulgados pela agência Xinhua.

O aumento não ficou restrito ao consumo residencial.

A eletrificação da indústria, a expansão dos veículos elétricos, os serviços ligados à internet e a manufatura de alta tecnologia ampliaram a pressão sobre a rede.

Em 2025, o consumo de eletricidade na fabricação de veículos de nova energia cresceu mais de 20%, enquanto o setor de internet e serviços relacionados teve alta superior a 30%, conforme os dados oficiais chineses.

A inteligência artificial também entrou no centro desse debate.

De acordo com a Agência Internacional de Energia, a demanda global de eletricidade dos data centers cresceu 17% em 2025.

A agência informou ainda que o consumo dos centros voltados à IA avançou em ritmo superior e pode triplicar até 2030, caso se mantenham as tendências atuais de expansão da infraestrutura digital.

Esses números ajudam a explicar por que a rede elétrica passou a ser tratada como uma área estratégica por governos e empresas de energia.

Quanto maior a dependência de sistemas digitais, veículos eletrificados e produção industrial intensiva em energia, maior tende a ser a necessidade de monitoramento, resposta rápida a falhas e reforço da infraestrutura.

Investimentos na modernização da rede elétrica

O investimento em robôs integra um programa mais amplo de modernização da rede chinesa.

Em janeiro de 2025, a Reuters informou que a State Grid previa aplicar mais de 650 bilhões de yuans, cerca de US$ 88,7 bilhões, na rede elétrica naquele ano.

O objetivo informado era otimizar o sistema, fortalecer a distribuição e apoiar o desenvolvimento de energia renovável.

Para o ciclo de 2026 a 2030, a empresa planeja investir 4 trilhões de yuans, o equivalente a US$ 574 bilhões, na modernização da rede.

Segundo a Reuters, com base em informações da agência estatal Xinhua, o valor representa aumento de 40% nos investimentos fixos em relação ao período anterior de cinco anos.

Parte desses recursos deve ser direcionada ao reforço das linhas de transmissão de longa distância, principalmente no eixo oeste-leste.

A estratégia busca levar eletricidade de regiões menos povoadas, onde estão grandes bases de geração renovável, para centros urbanos e industriais no leste do país.

A State Grid também pretende elevar em 30% a capacidade de transmissão entre províncias e regiões em relação ao nível registrado no fim de 2025.

Esse tipo de ampliação é relevante para um país que precisa conectar áreas produtoras de energia a polos de consumo com grande concentração industrial.

Equipes de manutenção inspecionam uma subestação com o auxílio de um robô de inspeção na província de Anhui, no centro da China. Foto: Getty Images
Equipes de manutenção inspecionam uma subestação com o auxílio de um robô de inspeção na província de Anhui, no centro da China. Foto: Getty Images

Energia renovável exige operação mais flexível

A expansão das fontes solar e eólica torna a operação do sistema elétrico mais complexa, segundo especialistas do setor energético.

Diferentemente de usinas convencionais, essas fontes variam conforme condições climáticas, incidência solar e regime de ventos.

Por esse motivo, redes com maior participação de renováveis costumam exigir previsão de geração, monitoramento em tempo real e capacidade de ajuste rápido.

A automação pode contribuir nesse processo ao integrar sensores, sistemas de análise de dados e equipamentos capazes de operar em campo.

No caso chinês, os robôs entram como parte de uma infraestrutura mais ampla, que inclui linhas de transmissão, subestações, softwares de controle, inteligência artificial e sistemas de comunicação.

A combinação desses recursos permite acompanhar o funcionamento da rede de forma mais detalhada e identificar falhas com maior antecedência.

A utilização de robôs em subestações e linhas de transmissão também está associada à segurança operacional.

Inspeções em altura, manutenção em áreas energizadas, deslocamentos por terrenos difíceis e atuação em instalações remotas envolvem riscos que podem ser reduzidos quando parte das tarefas é transferida para máquinas.

Robótica e política industrial da China

Além do impacto no setor elétrico, a compra de milhares de robôs movimenta cadeias ligadas à indústria de alta tecnologia.

Fabricantes de sensores, baterias, atuadores, câmeras, sistemas de navegação e softwares de inteligência artificial podem ser demandados por projetos desse tipo.

Essa relação entre energia, automação e indústria tem sido uma das marcas da política tecnológica chinesa nos últimos anos.

O país busca ampliar a presença de robôs em fábricas, serviços públicos e infraestrutura crítica, enquanto empresas locais avançam na produção de equipamentos industriais e sistemas de IA embarcada.

Na rede elétrica, essa aplicação tem características próprias.

O robô não atua apenas como uma máquina isolada, mas como parte de um sistema de coleta e processamento de informações.

Ao circular por subestações ou áreas de transmissão, ele registra imagens, identifica anomalias e envia dados para equipes técnicas ou centros de controle.

Segundo empresas e especialistas do setor, esse tipo de operação pode reduzir inspeções manuais repetitivas e melhorar o acompanhamento de equipamentos.

Ainda assim, a implantação em larga escala depende de testes, padronização, integração com sistemas existentes e protocolos de segurança.

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Desafios da rede elétrica no Brasil

Para o Brasil, a experiência chinesa pode servir como ponto de comparação, mas os dois países têm estruturas, escalas e modelos regulatórios distintos.

O sistema elétrico brasileiro também passa por expansão de renováveis e por desafios de transmissão, armazenamento e operação, embora não haja confirmação pública de um programa nacional de robôs para a rede em escala semelhante à anunciada na China.

A matriz elétrica brasileira segue majoritariamente renovável.

O Balanço Energético Nacional 2025, da Empresa de Pesquisa Energética, informou que as fontes renováveis responderam por 88,2% da matriz elétrica em 2024, com crescimento da geração solar fotovoltaica e ampliação da capacidade instalada.

Esse perfil traz vantagens do ponto de vista da baixa emissão na geração elétrica, mas também exige planejamento para integrar fontes variáveis ao sistema.

No Brasil, a expansão de solar e eólica ocorre ao mesmo tempo em que o país discute novas linhas de transmissão, armazenamento, estabilidade do sistema e digitalização da operação.

A diferença central, neste momento, está na escala da automação anunciada.

Enquanto a China prepara a compra de milhares de robôs para atuação direta na rede, o Brasil ainda não divulgou uma iniciativa nacional equivalente.

O uso de tecnologias digitais no setor elétrico brasileiro avança em diferentes frentes, mas sem um plano público de robótica operacional com volume comparável.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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