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Em 2026 devem sair os resultados de um estudo com 140 mil pessoas sobre um exame de sangue capaz de detectar 50 tipos de câncer antes de qualquer sintoma aparecer e isso pode ser o maior avanço da medicina desde a penicilina

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 31/03/2026 às 19:24
Atualizado em 31/03/2026 às 19:28
Um exame de sangue que detecta 50 tipos de câncer foi testado em 142 mil pessoas. Quadruplicou a detecção mas deixou passar 3 em 5 tumores. Entenda os resultados.
Um exame de sangue que detecta 50 tipos de câncer foi testado em 142 mil pessoas. Quadruplicou a detecção mas deixou passar 3 em 5 tumores. Entenda os resultados.
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O exame de sangue Galleri, da empresa americana GRAIL, foi testado em 142 mil pessoas assintomáticas de 50 a 77 anos no maior estudo clínico já feito para detecção precoce de câncer, e os resultados mostraram que o exame de sangue quadruplicou a detecção quando combinado com rastreamentos tradicionais, mas deixou passar 3 em cada 5 tumores existentes e não conseguiu cumprir o objetivo principal do estudo

Imagine detectar um câncer de pâncreas, de ovário ou de pulmão com uma simples coleta de sangue, antes de sentir qualquer dor, qualquer sintoma, qualquer sinal.

Conforme o portal Metrópoles, um exame de sangue chamado Galleri, desenvolvido pela empresa americana GRAIL, promete fazer exatamente isso: identificar mais de 50 tipos de câncer em estágio inicial a partir de alterações químicas em fragmentos de DNA livre que vazam dos tumores para a corrente sanguínea.

O exame de sangue foi testado no maior estudo clínico da história para detecção precoce de câncer: 142 mil participantes assintomáticos, de 50 a 77 anos, acompanhados ao longo de três anos pelo sistema de saúde da Inglaterra (NHS).

Os resultados saíram em fevereiro de 2026 e dividiram o mundo da medicina.

O exame de sangue quadruplicou a detecção de tumores quando combinado com rastreamentos tradicionais e reduziu diagnósticos de câncer em estágio IV, o mais avançado e letal.

Mas também deixou passar cerca de 3 em cada 5 cânceres existentes, gerou 38% de alarmes falsos entre os resultados positivos e não conseguiu cumprir o objetivo principal do estudo. As ações da GRAIL despencaram 47% na bolsa em uma noite.

O que é o Galleri e como esse exame de sangue detecta 50 tipos de câncer

O Galleri é um exame de sangue que identifica alterações químicas em fragmentos de DNA livre circulante (cfDNA) na corrente sanguínea.

Quando um tumor existe no corpo, mesmo em estágio inicial, ele libera fragmentos de DNA para o sangue. O exame de sangue Galleri detecta esses fragmentos e analisa padrões de metilação que indicam a presença de câncer.

Além de detectar o sinal, o exame de sangue possui um recurso chamado Cancer Signal Origin que indica o tecido ou órgão mais provável como fonte do câncer, ajudando os médicos a direcionar a investigação.

O teste cobre mais de 50 tipos de câncer com uma única coleta de sangue, incluindo cânceres para os quais não existe rastreamento convencional, como pâncreas, ovário, fígado e estômago.

O exame de sangue já é vendido nos Estados Unidos mesmo sem aprovação do FDA, ao preço de US$ 949 por teste. Em 2025, mais de 185 mil testes foram vendidos, gerando receita de US$ 136,8 milhões para a GRAIL.

A FDA está analisando o pedido de aprovação, que inclui os dados do estudo NHS-Galleri.

O maior estudo clínico da história testou o exame de sangue em 142 mil pessoas

O NHS-Galleri é o primeiro e maior ensaio clínico prospectivo, randomizado e controlado para avaliar um exame de sangue de detecção precoce de múltiplos cânceres.

Recrutou mais de 142 mil participantes assintomáticos de 50 a 77 anos no sistema de saúde da Inglaterra.

Os participantes forneceram três amostras de sangue ao longo de dois anos, com intervalo de aproximadamente 12 meses. Foram divididos em dois grupos: intervenção (sangue testado com o exame de sangue Galleri anualmente) e controle (sangue coletado e armazenado sem teste).

O objetivo principal do estudo era mostrar que o exame de sangue conseguia reduzir o número de cânceres diagnosticados em estágio tardio (III e IV) em 12 tipos de câncer que representam cerca de dois terços das mortes por câncer na Inglaterra e nos EUA.

Esses 12 tipos incluem ânus, bexiga, colorretal, esôfago, cabeça e pescoço, fígado, pulmão, linfoma, mieloma, ovário, pâncreas e estômago, alguns dos cânceres mais letais justamente porque costumam ser diagnosticados tarde demais.

Os resultados que dividiram o mundo: o exame de sangue funciona, mas não como prometiam

O exame de sangue Galleri cumpriu várias promessas secundárias importantes.

Houve redução substancial nos diagnósticos de câncer em estágio IV, o mais avançado e letal. Aumentou a detecção de cânceres em estágio I e II, que são mais tratáveis. E quadruplicou a taxa de detecção quando combinado com rastreamentos convencionais de mama, colorretal, cervical e pulmão.

O exame de sangue também reduziu os diagnósticos de câncer por apresentação de emergência, que são associados a alta mortalidade e custos elevados.

Quando o resultado dava positivo, o teste identificou corretamente a doença em 62% dos casos.

Mas o exame de sangue falhou no objetivo principal: não conseguiu demonstrar redução nos diagnósticos de estágio III e IV combinados ao longo de três anos.

A sensibilidade do teste foi de 40,4%, o que significa que ele deixou passar cerca de 3 em cada 5 cânceres existentes. E 38% dos resultados positivos foram alarmes falsos, causando ansiedade e exames desnecessários em pacientes que não tinham câncer.

O que os médicos dizem sobre o exame de sangue e por que as ações desabaram 47%

As ações da GRAIL despencaram 47% no after-hours trading após o anúncio dos resultados.

A queda aconteceu porque o mercado esperava que o exame de sangue cumprisse o objetivo principal do estudo, e quando os dados mostraram que não cumpriu, a confiança dos investidores evaporou em uma noite.

Charles Swanton, um dos investigadores principais do estudo, defendeu os resultados: como oncologista, ele vê uma diferença profunda entre doença em estágio III e estágio IV. Quando o câncer é detectado antes de metástases distantes, o tratamento pode ser curativo.

Do outro lado, a publicação STAT News classificou os resultados como um revés para a GRAIL, e especialistas afirmam que os dados ainda não sustentam a implementação do exame de sangue em larga escala.

O meio-termo é que o exame de sangue é um passo promissor na direção certa, mas não é uma solução completa. Um resultado negativo não pode ser interpretado como tudo limpo, e o teste funciona melhor quando combinado com os rastreamentos tradicionais, não quando usado sozinho.

Os resultados detalhados serão apresentados no congresso ASCO 2026, o maior evento de oncologia do mundo, e a GRAIL planeja estender o período de acompanhamento do estudo por 6 a 12 meses.

O exame de sangue é um fracasso ou o começo de uma revolução na detecção de câncer

A resposta depende de como se olha para os números.

Se o critério for o objetivo principal do estudo, o exame de sangue falhou. Não reduziu os diagnósticos de estágio III e IV combinados como prometia.

Mas se o critério for o impacto real na vida dos pacientes, o exame de sangue quadruplicou a detecção quando combinado com rastreamentos tradicionais, reduziu diagnósticos em estágio IV e encontrou cânceres que não seriam detectados por nenhum outro exame disponível.

Para cânceres como pâncreas, ovário e estômago, que não têm rastreamento convencional, detectar mesmo 40% dos casos em estágio inicial pode significar milhares de vidas salvas por ano.

O exame de sangue não é a bala de prata que a GRAIL prometia, mas pode ser a peça que faltava no quebra-cabeça da detecção precoce, desde que seja usado como complemento dos rastreamentos existentes e não como substituto.

No Reino Unido, os resultados vão informar recomendações do Comitê Nacional de Rastreamento sobre próximos passos, incluindo uma possível avaliação expandida no NHS.

Um exame de sangue imperfeito que pode salvar milhares de vidas

O exame de sangue Galleri foi testado em 142 mil pessoas, quadruplicou a detecção de câncer quando combinado com exames tradicionais, reduziu diagnósticos em estágio IV e encontrou tumores que nenhum outro teste encontraria.

Mas também deixou passar 3 em cada 5 cânceres, gerou alarmes falsos em 38% dos positivos e não cumpriu o objetivo principal do estudo. As ações da empresa caíram 47% em uma noite.

A medicina raramente avança com soluções perfeitas. Se esse exame de sangue, combinado com os rastreamentos tradicionais, conseguir detectar cânceres de pâncreas, ovário e pulmão alguns meses antes do que seria possível sem ele, milhares de pessoas terão a chance de tratamento curativo. E isso não é fracasso. É o começo.

Você faria esse exame de sangue se estivesse disponível no Brasil? Acha que 40% de sensibilidade é suficiente ou é muito pouco? O SUS deveria investir em testes como esse? Deixe nos comentários e compartilhe este artigo com quem se interessa por saúde e inovação médica.

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Bruno Teles

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