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O relator do projeto de minerais críticos disse hoje que o Brasil não vai criar uma estatal de mineração mas Lula já discutiu a criação da Terrabras com ministros na sexta-feira passada e os Estados Unidos já enfiaram 565 milhões de dólares numa mineradora brasileira sem esperar resposta do governo

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 31/03/2026 às 16:02
Atualizado em 31/03/2026 às 16:05
O relator barra a estatal de minerais críticos, Lula discute a Terrabras e os EUA já colocaram US$ 565 milhões na Serra Verde. Entenda a disputa pelas terras raras.
O relator barra a estatal de minerais críticos, Lula discute a Terrabras e os EUA já colocaram US$ 565 milhões na Serra Verde. Entenda a disputa pelas terras raras.
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O relator Arnaldo Jardim afirmou que a criação de uma estatal para minerais críticos não estará no relatório do PL 2780/24, enquanto Lula reuniu ministros para discutir a Terrabras e os Estados Unidos já financiaram a Serra Verde com US$ 565 milhões e fecharam acordo direto com Goiás para acessar terras raras, sem passar pelo governo federal, em uma disputa que envolve o Brasil como dono da segunda maior reserva do mundo

O projeto de minerais críticos do Brasil vive uma contradição que explodiu nesta terça-feira.

O relator Arnaldo Jardim afirmou que a criação de uma estatal para minerais críticos e terras raras não estará no relatório do PL 2780/24, dizendo que seria um retrocesso e que o Brasil não vai seguir o que ele chamou de old fashion estatizante.

Segundo IstoÉDinheiro, na sexta-feira passada (27), o presidente Lula reuniu no Planalto o secretário-executivo da Fazenda, o ministro de Minas e Energia, representantes da Casa Civil e Celso Amorim para discutir exatamente a criação de uma estatal de minerais críticos chamada Terrabras.

E enquanto o governo discute se cria ou não a estatal de minerais críticos, os Estados Unidos já entraram com dinheiro.

A Corporação Financeira de Desenvolvimento dos EUA (DFC) colocou US$ 565 milhões na Serra Verde, a única mineradora de terras raras em operação comercial no Brasil, e o governo americano fechou acordo direto com o estado de Goiás sem passar pelo governo federal.

O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, com 21 milhões de toneladas de óxidos, e três forças disputam o controle: o Executivo, o Congresso e os Estados Unidos.

O que são minerais críticos e por que o Brasil virou campo de batalha

Minerais críticos são elementos essenciais para a fabricação de tecnologias como veículos elétricos, turbinas eólicas, smartphones, semicondutores e equipamentos militares.

As terras raras, o grupo mais estratégico entre os minerais críticos, são dominadas pela China, que controla aproximadamente 60% da mineração global e 85% do processamento mundial.

A China já usou restrições de exportação de minerais críticos como arma comercial contra os Estados Unidos, e Washington respondeu com o Project Vault, um programa de US$ 12 bilhões para construir cadeias alternativas de fornecimento.

O Brasil, com a segunda maior reserva de terras raras do planeta, virou peça central nessa disputa.

O país tem oito projetos de minerais críticos em diferentes estágios de desenvolvimento em Minas Gerais, Goiás, Bahia e Amazonas, e os investimentos previstos de 2026 a 2030 somam US$ 2,4 bilhões, segundo o Ibram.

A disputa por minerais críticos é chamada por analistas de novo petróleo do século XXI, e o Brasil está no centro dela sem ter decidido ainda como quer participar.

Os Estados Unidos já entraram nos minerais críticos do Brasil sem esperar Brasília

Em fevereiro de 2026, a DFC (Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos EUA) colocou US$ 565 milhões na Serra Verde, mineradora localizada em Minaçu, Goiás.

A Serra Verde é a única operação comercial de terras raras em atividade no Brasil, e não é brasileira: pertence aos grupos americanos Denham Capital e EMG e ao britânico Vision Blue.

O financiamento inclui direito a aquisição de participação acionária minoritária pelo governo americano. A Serra Verde vende 85% do óxido para a Ásia e pretende aumentar a produção para até 6.500 toneladas métricas até o início de 2027.

Em 18 de março, os governos dos EUA e de Goiás assinaram memorando de entendimento para aumentar o acesso de empresas americanas a minerais críticos e terras raras no estado.

O acordo prevê cinco eixos: levantamento geológico, identificação de áreas promissoras, parceria técnica, separação de terras raras em larga escala e incentivos fiscais, incluindo a possibilidade de fabricação de ímãs de neodímio em Goiás.

O governador Ronaldo Caiado assinou o memorando diretamente com os americanos, sem passar pelo governo federal, posicionando Goiás como hub de minerais críticos e se projetando politicamente como aliado de Washington em ano pré-eleitoral.

O que é a Terrabras e por que Lula quer uma estatal de minerais críticos

Conforme a Revista Forum, na sexta-feira passada, Lula reuniu ministros para discutir a criação da Terrabras, uma estatal que teria como objetivo controlar a cadeia de minerais críticos e terras raras no Brasil.

A frase de Lula resume a motivação: “O Brasil não vai fazer das terras raras aquilo que foi feito com o minério de ferro. Agora a parceria tem que ser feita para que a transformação seja aqui no Brasil.”

A referência é direta ao modelo histórico em que o Brasil exportou minério de ferro bruto por décadas e comprou de volta produtos manufaturados a preços muito mais altos.

A proposta da Terrabras segue a lógica da criação da Petrobras nos anos 1950: uma estatal para garantir soberania sobre um recurso estratégico de minerais críticos.

Mas a avaliação interna do governo é que a chance de aprovação no Congresso é baixa, e os defensores da proposta questionam: se o Brasil aceita que estatais estrangeiras operem aqui, por que não criar uma estatal brasileira para controlar seus próprios minerais críticos?

O Projeto de Lei da Terrabras foi publicado em 30 de março e propõe a criação da Terrabras S.A. como empresa de economia mista para exploração, beneficiamento e comercialização de minerais críticos.

O Congresso barra a estatal e o relatório de minerais críticos sai na semana que vem

O relator Arnaldo Jardim foi direto: a criação de uma estatal de minerais críticos não estará no relatório do PL 2780/24, que deve ser entregue até 8 de abril.

Jardim afirmou que criar uma estatal seria um retrocesso e disse que o Brasil não deve seguir o caminho estatizante. No Congresso, circularam comparações com o modelo de Maduro na Venezuela, onde o governo impôs participação acionária obrigatória de 30% nas empresas do setor.

O relatório de Jardim defende incentivos fiscais, fundo garantidor e licenciamento acelerado para atrair investimento privado em minerais críticos, em vez de criar uma estatal.

O PL inclui textos apensados com propostas diferentes: um deles propõe criar a EBMinerais; outro foca em beneficiamento obrigatório de minerais críticos em território nacional, garantindo que o Brasil não exporte bruto.

O relatório final sai na semana que vem, e a decisão do Congresso sobre minerais críticos vai definir se o Brasil cria uma estatal, atrai investimento privado com incentivos ou continua assistindo enquanto outros países montam a operação por conta própria.

Flávio Bolsonaro, nos Estados Unidos, declarou que o Brasil é a solução para que os americanos não dependam mais da China em minerais críticos e terras raras, adicionando mais uma camada política à disputa.

O risco de repetir com minerais críticos o que o Brasil fez com o minério de ferro

O paralelo que preocupa o governo é histórico: durante décadas, o Brasil exportou minério de ferro bruto e comprou de volta aço e produtos manufaturados a preços multiplicados.

Com minerais críticos, o risco é idêntico. A Serra Verde já vende 85% da produção de óxidos de terras raras para a Ásia, onde são transformados em componentes para veículos elétricos e turbinas eólicas, produtos que o Brasil importa.

Se o Brasil exportar minerais críticos brutos e comprar de volta baterias, motores elétricos e equipamentos de energia renovável, estará repetindo o ciclo do minério de ferro com um recurso ainda mais estratégico.

A diferença é que desta vez a janela de oportunidade é menor. A China domina o processamento, os EUA estão investindo bilhões para criar cadeias alternativas, e o Brasil precisa decidir rápido se quer ser fornecedor de matéria-prima ou dono da cadeia industrial.

O relatório de Jardim na semana que vem, a reunião de Lula sobre a Terrabras e os US$ 565 milhões dos EUA na Serra Verde convergem para um momento em que o Brasil precisa escolher: controlar seus minerais críticos ou assistir enquanto outros lucram com eles.

Três forças, um recurso e uma decisão que não pode esperar

O Congresso diz não à estatal de minerais críticos. Lula discute a Terrabras com ministros. Os Estados Unidos já colocaram US$ 565 milhões numa mineradora em Goiás e fecharam acordo direto com o estado.

O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, 21 milhões de toneladas de óxidos de minerais críticos, e a decisão sobre o que fazer com esses recursos está sendo disputada por três forças ao mesmo tempo.

O relatório do PL 2780/24 sai na semana que vem. A resposta vai definir se o Brasil controla seus minerais críticos ou repete a história do minério de ferro. A janela está aberta, mas não por muito tempo.

Você acha que o Brasil deveria criar a Terrabras para controlar os minerais críticos ou deixar o investimento privado liderar? Os EUA estão certos em fechar acordo direto com Goiás? O Brasil vai repetir o erro do minério de ferro? Deixe nos comentários e compartilhe este artigo com quem acompanha geopolítica e economia.

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Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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