Tito Varela, surfista e ambientalista de Isabela, no norte de Porto Rico, liderou o plantio de 30 mil mudas de mangue nos últimos três anos com grupos de até 60 estudantes voluntários. Para alcançar áreas inacessíveis a pé, a equipe passou a usar paraquedas motorizado. A história de Varela começou quando o surfe o afastou das drogas em um bairro com poucas oportunidades e o conectou à defesa do litoral caribenho.
Tito Varela encontrou no surfe o que muitos de seus amigos de infância não encontraram: uma saída. Criado em um bairro de Isabela, no norte de Porto Rico, onde as oportunidades eram escassas e as drogas abundantes, ele descobriu nas ondas um refúgio que funcionou como terapia e direcionamento. O oceano se tornou seu psicólogo, como ele mesmo descreve, e foi a partir dessa conexão com o mar que nasceu o compromisso de proteger o litoral que o salvou. Nos últimos três anos, Varela coordenou o plantio de 30 mil mudas de mangue em Isabela com grupos de estudantes e voluntários, usando métodos que vão do trabalho braçal ao voo de paraquedas motorizado.
A motivação não é abstrata. O furacão Maria devastou os manguezais de Porto Rico em 2017, destruindo florestas que abrigavam os quatro tipos de mangue encontrados no Caribe e que funcionavam como berçários de vida marinha, barreiras contra tempestades e filtros naturais de poluição. Varela, que atuou como coordenador nacional da Surfrider Foundation em Porto Rico, canalizou a experiência da organização californiana com mais de 40 anos de conservação costeira para transformar a devastação em oportunidade de restauração. O resultado são 30 mil mudas plantadas e uma comunidade que aprendeu a valorizar o ecossistema que protege sua própria costa.
Como o surfe salvou Tito Varela das drogas e o levou ao ambientalismo

Segundo informações divulgadas pelo portal da DW Español, a história de Varela não começa nos manguezais, mas na areia. Sentir a areia nos pés com uma prancha debaixo do braço e observar a maré era seu maior prazer, e esse ritual diário o manteve longe das influências que levaram muitos de seus amigos para o caminho das drogas. Em um bairro com poucas alternativas de lazer e renda, o surfe ofereceu a Varela não apenas diversão, mas estrutura emocional e um grupo de amigos com interesses saudáveis.
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Ele estudou mecânica e depois cursou marketing, formação que lhe deu ferramentas para organizar a defesa ambiental do litoral de Isabela. Com quatro amigos, começou a se mobilizar contra a degradação das praias que frequentava, um ativismo que cresceu até assumir a coordenação da Surfrider Foundation na ilha. A transição de surfista para ambientalista foi natural: quem depende do oceano para viver bem aprende rapidamente que proteger a costa não é idealismo, é sobrevivência.
O plantio de 30 mil mudas e o exército de voluntários estudantes
Nos últimos três anos, Varela organizou mutirões de plantio que reuniram grupos de 50 a 60 voluntários por vez, a maioria estudantes que nunca haviam pisado em um manguezal. A reação inicial costuma ser de hesitação, mas quando entram na área e começam a plantar, ouvem os pássaros e veem caranguejos e outras criaturas, se apaixonam pelo lugar, relata o ambientalista. O envolvimento dos jovens não é apenas mão de obra: é formação de uma geração que entende o valor do ecossistema.
As 30 mil mudas plantadas cobrem áreas que foram devastadas pelo furacão Maria e representam um esforço de restauração que poucos projetos na região conseguiram igualar em escala. Os manguezais de Isabela abrigam os quatro tipos de mangue encontrados no Caribe, o que torna a floresta local um patrimônio botânico e ecológico de relevância regional. Cada muda plantada é uma aposta de que a vegetação se regenerará a tempo de proteger a costa antes do próximo furacão, em uma ilha onde ciclones são certeza, não possibilidade.
O paraquedas motorizado que leva mudas onde ninguém consegue ir a pé
A solução mais criativa da operação surgiu de uma reunião com voluntários. Áreas de manguezal destruídas pelo furacão ficaram inacessíveis por terra, cercadas por água e lama que impedem a passagem de pessoas e equipamentos. Um dos voluntários sugeriu o uso de paramotores, paraquedas motorizados que permitem sobrevoar e pousar em terrenos onde nenhum veículo terrestre chega. Varela adotou a ideia e, há dois meses, o equipamento entrou em operação.
Com o paraquedas motorizado, a equipe consegue acessar pontos remotos dos manguezais para plantar mudas e coletar dados sobre a recuperação da vegetação. A técnica é incomum em projetos de restauração ambiental, mas resolve um problema logístico que travava o avanço do plantio em justamente nas áreas mais degradadas, onde a regeneração natural não estava acontecendo na velocidade necessária. O acesso aéreo também facilita o monitoramento de grandes extensões de floresta costeira que seriam impossíveis de cobrir a pé.
Por que os manguezais de Porto Rico são tão importantes para o Caribe
Os manguezais não são apenas áreas verdes bonitas. Pesquisas recentes mostraram que eles absorvem cinco vezes mais carbono do que florestas terrestres, o que os torna aliados essenciais no combate às mudanças climáticas. Além disso, funcionam como refúgio para uma grande variedade de animais selvagens, local de reprodução para aves e barreira natural contra tempestades e erosão costeira.
Varela também apoiou a criação da reserva natural Los Jardines Submarinos, que interrompeu o desenvolvimento urbano e hoteleiro na zona centro-norte da ilha. A reserva abriga a maior população de coral chifre de alce em Porto Rico e em toda a jurisdição dos Estados Unidos, uma espécie em perigo de extinção que depende da saúde dos manguezais adjacentes para sobreviver. A proteção do mangue e dos recifes de coral são partes de um mesmo sistema que, se degradado, compromete a pesca, o turismo e a própria capacidade da ilha de resistir a furacões.
A luta contra a poluição e o descaso que ameaçam o litoral
O trabalho de restauração enfrenta obstáculos que vão além da natureza. Análises de qualidade da água realizadas pela equipe da Surfrider Foundation detectaram bactérias de origem fecal na maioria dos corpos de água doce analisados em Porto Rico, resultado da má manutenção de fossas sépticas que se rompem durante furacões e deslizamentos. Segundo um estudo das autoridades americanas, 99,5% dos moradores da ilha estão expostos a água contaminada.
Varela denuncia que o governo porto-riquenho estigmatiza os ambientalistas como contrários ao progresso, quando na verdade eles protegem o recurso natural que atrai o turismo para a ilha. Ele próprio relata ter sido atingido por máquinas pesadas durante uma ação de proteção de manguezal há menos de um mês, quando um galho foi deliberadamente jogado sobre ele enquanto tentava impedir a destruição da vegetação. A repressão, porém, não desacelerou o movimento: os 30 mil pés de mangue plantados são a resposta mais concreta que um grupo de voluntários pode dar.
Você conhece algum projeto de restauração ambiental na sua região ou já participou de um plantio de mudas? Conte nos comentários o que achou da história de Tito Varela e se acredita que o surfe e o contato com a natureza podem mudar vidas como mudaram a dele.
