Projeto no Líbano reúne pneus, garrafas de vidro, captação de chuva, energia solar e estufa integrada em uma casa pensada para funcionar fora da rede convencional, combinando técnicas ancestrais, materiais reaproveitados e soluções de baixo impacto ambiental em uma residência semienterrada.
Na vila de Baskinta, na região montanhosa do Líbano, o arquiteto Nizar Haddad desenvolveu a Lifehaus, uma residência concebida para funcionar fora das redes convencionais de água e energia e para reduzir o impacto ambiental da construção.
O projeto reúne cerca de 1.200 pneus reaproveitados nas paredes, garrafas de vidro incorporadas à estrutura, captação de água da chuva, reaproveitamento hídrico e uma estufa integrada ao imóvel.
A proposta surgiu menos como experimento visual e mais como resposta prática a um cenário de infraestrutura frágil.
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Em registro publicado pela Reuters em dezembro de 2022, Haddad apresentou a casa como materialização de sua visão sobre arquitetura ambiental, em um país que atravessou crises sucessivas de energia e abastecimento.
Em vez de depender da rede tradicional, a ideia foi construir uma moradia capaz de operar com recursos próprios e demonstrar que soluções de menor impacto podem sair do papel.
Casa autossuficiente no Líbano une arquitetura sustentável e materiais reciclados
A Lifehaus tem 160 metros quadrados, ou 1.722 pés quadrados, segundo a Architectural Digest e o estudo de caso da Fossil Free Zones.
O espaço inclui sala, mezanino, terraço, estufa e área técnica, em uma implantação semienterrada que acompanha a topografia e favorece o desempenho térmico ao aproximar a construção do solo e da massa de pedra ao redor.
Uma das soluções mais incomuns está justamente nas paredes.

A Architectural Digest informou que os painéis revestidos com cal foram preenchidos com 1.200 pneus de carros retirados de um aterro local, reaproveitamento que reduz a necessidade de materiais novos e adiciona massa térmica ao conjunto.
A publicação também descreveu os pneus como parte de um sistema durável, capaz de colaborar na regulação de temperatura e na resistência da estrutura.
Além dos pneus, o imóvel incorpora garrafas de vidro reutilizadas em alguns trechos das paredes.
Em vez de servirem apenas como acabamento, elas permitem a entrada de luz natural em pontos do interior sem depender exclusivamente de janelas convencionais, criando um efeito funcional de iluminação difusa.
A casa também combina pedra, tijolos de barro, lã de ovelha para isolamento, junco e outros insumos locais ou reciclados, numa lógica que retoma saberes construtivos antigos e os adapta a exigências atuais de conforto e eficiência.
Pneus nas paredes e garrafas de vidro ajudam no conforto térmico
O funcionamento diário foi planejado para exigir o mínimo possível de infraestrutura externa.
A principal fonte de eletricidade vem de painéis solares, enquanto o estudo da Fossil Free Zones cita ainda uma turbina eólica vertical, o movimento da água dentro da casa, uma bicicleta elétrica geradora e o uso de biogás obtido a partir da água negra para cozinhar.
O mesmo material registra a presença de equipamentos eficientes, como iluminação em LED e fogão elétrico solar, o que reduz a demanda energética antes mesmo da geração.
Essa combinação ajuda a explicar por que Haddad, em entrevista à Architectural Digest, afirmou ter conseguido diminuir a dependência energética do projeto ao cortar o consumo de aquecimento e resfriamento.
Segundo ele, a redução da carga térmica permitiu instalar nove painéis solares, e não doze, além de um inversor menor.
A lógica, portanto, não se resume a produzir energia limpa, mas a baixar o consumo estrutural da casa para tornar a autonomia mais viável.
Energia solar, biogás e água da chuva sustentam o funcionamento da Lifehaus

A gestão da água segue a mesma linha de circuito fechado.
A Architectural Digest relatou que a residência coleta água da chuva e a integra a um sistema interno de reaproveitamento, enquanto a Fossil Free Zones detalha que a água cinza é destinada à irrigação das plantações.
No caso da água negra, o estudo informa que ela passa por um tanque séptico para produção de biogás e, depois de tratada, também pode ser usada na irrigação.
Esse processo não se limita ao armazenamento.
O estudo aponta a presença de filtragem por juncos, recurso biológico que ajuda a reinserir a água tratada no ciclo agrícola da propriedade.
Na prática, o projeto tenta manter dentro do próprio terreno etapas que, em modelos convencionais, dependem de sistemas públicos separados para abastecimento, esgoto, energia e descarte de resíduos orgânicos.
A estufa acoplada ao imóvel ocupa papel central nesse arranjo.
Imagens e descrição da Fossil Free Zones indicam um ambiente envidraçado com vegetação, integrado ao desempenho térmico da casa, e a Architectural Digest detalha que o ar aquecido ali ajuda no aquecimento interno durante o inverno.
Já no verão, a circulação por dutos e passagens sob a estrutura contribui para resfriar o ar antes da entrada nos ambientes, reduzindo a necessidade de climatização convencional.
Estufa integrada amplia produção de alimentos e ajuda a regular a temperatura
As paredes de terra isoladas e a ventilação natural completam esse sistema passivo de conforto térmico.
O estudo de caso afirma que a massa das paredes armazena calor no verão e devolve estabilidade térmica ao longo do ano, enquanto a combinação entre estufa, isolamento e ventilação elimina a necessidade de aquecimento ou resfriamento com recursos externos.
Em outras palavras, a casa não depende apenas de equipamentos mais eficientes, mas de desenho bioclimático para funcionar melhor desde a sua forma.
O projeto também foi pensado como protótipo replicável.
A Lifehaus descreve a experiência como uma iniciativa voltada ao desenvolvimento de moradias de baixo custo, autossuficientes e energeticamente neutras, com possibilidade de aplicação em diferentes escalas.
Na Architectural Digest, Haddad afirmou que os cinco princípios adotados — materiais locais ou reutilizados, desenho bioclimático, gestão da água, energia renovável e manejo de resíduos — podem ser adaptados a outros climas e localidades, desde que respeitem as condições de cada região.
A construção ainda mobilizou conhecimento compartilhado entre profissionais e moradores.
A Fossil Free Zones informa que a obra reuniu pessoas da comunidade com formações científicas e técnicas diversas, e a Architectural Digest destacou a troca de experiência com especialistas acostumados a métodos tradicionais, como a produção de tijolos de terra.
Para Haddad, esse resgate não significa copiar o passado, mas recuperar técnicas que perderam espaço e combiná-las com engenharia contemporânea.
Projeto de Nizar Haddad busca inspirar moradias de baixo impacto
Nesse sentido, a casa de Baskinta se tornou mais do que uma moradia incomum recortada pela montanha.
Ao transformar resíduos difíceis de descartar, como pneus e vidro, em partes estruturais e funcionais de uma residência que capta água, produz energia, reaproveita efluentes e integra cultivo ao espaço doméstico, a Lifehaus passou a operar como demonstração concreta de uma arquitetura orientada pela redução de dependência externa, pelo uso de recursos locais e pela tentativa de diminuir custos ambientais ao longo de toda a vida útil da construção.

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