Bruno mora em Itsu, cidade pequena no interior do Japão cercada por plantações de arroz. Testou o Uber Eats de moto por três horas, recebeu 2.437 ienes e concluiu na prática o que todo brasileiro que entrega no Japão precisa saber antes de ligar o aplicativo fora da capital.
Bruno abriu o aplicativo às 10h44 da manhã. O mapa mostrava o centro de Itsu sem nenhum ponto vermelho, aquelas marcações que indicam alta demanda. Amarelo fraco aqui e ali. O brasileiro foi se deslocando pela cidade tentando encontrar alguma região mais movimentada. Nada chamava. Para passar o tempo enquanto esperava, foi até o local onde costuma pescar. Estava vendo os peixes quando o primeiro pedido apareceu.
O detalhe que resume o dia: um brasileiro acostumado ao ritmo de Nagoia, onde os pedidos chegam sem parar, ficou parado num cais olhando para o mar esperando o aplicativo reagir. Itsu é uma cidade pequena, cercada de plantações de arroz, com um antigo centro histórico e templos tocando sinos ao meio-dia. Charmosa para morar. Complicada para entregar.
Primeiro pedido: 420 ienes, 5 km e o restaurante que ninguém achou de primeira

Bruno aceitou sem hesitar, porque a alternativa era continuar parado. Chegando ao restaurante de retirada, o problema imediato foi achar onde ficava o estabelecimento: o nome no aplicativo e o nome na fachada não batiam. Depois de procurar, encontrou. O funcionário entregou o pedido com uma dúvida clara no rosto, perguntando se era a primeira vez de Bruno naquela rota. Era.
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A entrega foi concluída, os 420 ienes caíram na conta e Bruno voltou a circular pela cidade em busca do próximo ponto vermelho no mapa. A sequência seguinte foi um pedido de 900 ienes para duas entregas simultâneas em restaurantes diferentes, o que pareceu razoável até ele perceber o quanto teria que rodar para cumprir tudo. Aceitou assim mesmo. Quando não chama, o brasileiro aceita o que vier.
O GPS mandando o brasileiro Bruno para a rodovia e a entrega que demorou quase uma hora

O GPS do aplicativo ficou insistindo em mandar Bruno por uma rodovia onde motocicletas não podem circular. Ele desviava, o mapa redirecionava para o mesmo lugar. Repetiu o ciclo várias vezes, atrasou cinco minutos e chegou ao destino imaginando o cliente já irritado do outro lado da porta. Subiu de elevador, entregou no apartamento 403 e concluiu a corrida com a sensação de ter corrido demais para ganhar de menos.
Ao fim desse pedido, já passava de uma hora desde que havia saído para buscar o item. O total acumulado no dia ainda estava longe de qualquer número animador. Bruno parou, comeu um pão que tinha levado porque ainda não tinha almoçado, e avaliou se valia continuar online.
Resultado: 2.437 ienes em 3 horas de trabalho
Depois de três horas rodando por Itsu, o total foi de 2.437 ienes. Na segunda-feira seguinte, o Uber depositou 2.400 ienes, a diferença de 37 ienes explicada pelos arredondamentos do sistema. Com esse valor em mãos, Bruno foi direto ao McDonald’s com a companheira para ver o que dava para comprar. Pediram dois combos completos e o total ficou em 2.250 ienes.
O experimento deixou as contas claras: três horas de trabalho no interior do Japão renderam o suficiente para dois combos de lanchonete. Um Big Mac em Itsu custa 770 ienes. Com o dinheiro do dia inteiro, daria para comprar pouco mais de três. O cup noodles do mercado fica em 126 ienes a unidade, o que significa que os 2.400 ienes dariam para levar 19 embalagens. São esses os parâmetros reais do poder de compra gerado por uma tarde de Uber Eats no interior japonês.
Interior do Japão versus capital: a diferença que o mapa não mostra
Bruno deixa claro no vídeo que a experiência em Nagoia é radicalmente diferente. Na capital regional, os pedidos chegam em sequência, o mapa fica vermelho com frequência e o entregador dificilmente fica parado por mais de alguns minutos. Em Itsu, ele ficou longos intervalos sem nenhuma chamada entre cada entrega. A explicação é simples: mais entregadores do que pedidos disponíveis, o que permite ao aplicativo pagar menos por quilômetro e ainda ter gente disposta a aceitar.
A companheira de Bruno, que mora na cidade e conhece melhor a dinâmica local, foi direta na avaliação: no interior, talvez valha mais a pena buscar um bico em outro lugar que pague melhor por hora do que ficar esperando o aplicativo chamar. Quem está perto de Tóquio ou Nagoia tem outra realidade, mas para quem mora em cidade pequena, o Uber Eats no Japão é um complemento de renda que exige paciência e expectativa calibrada.
O que 2.400 ienes compram no Japão e o que isso diz sobre o custo de vida
No mercado depois do McDonald’s, Bruno passou pelos corredores mostrando os preços para contextualizar o valor ganho no dia. Um bife de Wagyu, a carne premium japonesa, estava a 2.000 ienes por menos de 200 gramas. Daria para comprar com o salário do dia, mas sobraria pouco. Uma linguiça tipo Milão de 500 gramas também estava disponível, o que permitiria comprar quase 1 kg com o total recebido.
Na seção de utilidades por 100 ienes, Bruno achou itens de vidro trabalhado que no Brasil custariam bem mais. Com os 2.400 ienes, daria para comprar mais de 23 itens dessa prateleira. O Japão tem essa dualidade: alguns produtos são surpreendentemente baratos, enquanto carne, frutos do mar e itens importados pesam no bolso de qualquer um, inclusive do entregador que acabou de trabalhar três horas para pagar o almoço.
O vídeo é do canal de Bruno no YouTube, brasileiro que mora no interior do Japão e documenta o cotidiano de quem vive e trabalha fora do Brasil.
Você já fez entrega por aplicativo no Brasil ou fora daqui? Vale mais a pena numa cidade grande ou no interior? Conta nos comentários a sua experiência.


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