Gabriele Valentina, a Tina de Ourinhos, é campeã mundial de Jiu-Jitsu aos 9 anos, vice-campeã europeia e pan-americana. Mas enquanto acumula medalhas, a família vende doces no sinaleiro e conta com a ajuda de catadores de recicláveis para custear as viagens a campeonatos internacionais.
A história de quem se torna campeã mundial aos 9 anos raramente começa com glamour. No caso de Gabriele Valentina, a Tina, começou no canto de uma academia de Jiu-Jitsu em Ourinhos, interior de São Paulo, onde ela dava seus primeiros passos enquanto o pai treinava. A menina que brincava no tatame enquanto a turma do pai lutava acabou ganhando um quimono e, pouco depois, subindo no pódio. Aos 4 anos, disputou sua primeira competição. Aos 9, já é campeã mundial na categoria cinza meio pesado, título conquistado em novembro de 2025 no Campeonato Mundial de Jiu-Jitsu em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos.
O que torna a trajetória de Tina ainda mais impressionante é o contraste entre suas conquistas e a realidade financeira da família. Para custear as viagens a campeonatos internacionais, seus pais vendem canjica e doces no semáforo, fazem rifas e contam com a ajuda da cooperativa Recicla Ourinhos, que reúne 90 famílias de catadores de recicláveis. A próxima meta é o campeonato europeu em Dublin, na Irlanda, nos dias 13 e 14 de abril. No ano passado, Tina conquistou o vice-campeonato europeu em Roma. Agora, como campeã mundial, mira o ouro na categoria cinza peso pesado.
Como uma criança de Ourinhos se tornou campeã mundial de Jiu-Jitsu
A influência do pai foi o ponto de partida. Tina cresceu dentro da academia, observando técnicas, imitando movimentos e absorvendo a disciplina do esporte antes mesmo de entender o que significava competir. “Meus primeiros passinhos foram no tatame”, conta a campeã mundial. “Como meu pai já treinava Jiu-Jitsu, eu comecei a pegar gosto.” O pai comprou o primeiro quimono quando percebeu que a filha não estava apenas brincando, mas reproduzindo posições e golpes com uma naturalidade que chamou a atenção dos demais praticantes.
-
Sem equipe de obra e cercado apenas por árvores, homem transformou troncos da floresta em uma cabana de madeira no Canadá, com paredes encaixadas, cobertura rústica e piso final feito à mão
-
Entre concreto, máquinas e quase 40 homens, Maria Marli é pedreira há 15 anos e ajuda a erguer o maior prédio da Bahia; com o que aprendeu na construção civil, já levantou a própria casa e agora constrói outro sonho no interior
-
Cães maias viajavam entre cidades, acompanhavam líderes e eram usados em sacrifícios: descobertas revelam uma relação muito mais complexa do que se imaginava
-
Um advogado britânico pediu por anos que o governo limpasse um rio poluído, não teve resposta, organizou voluntários para remover 200 sacos de lixo em 10 dias e agora enfrenta até dois anos de prisão
A evolução foi rápida. Dos pódios em competições regionais no interior de São Paulo, Tina logo chegou a torneios nacionais e depois internacionais. O jeitinho meigo pode confundir quem não a conhece, mas no tatame a menina mostra foco de atleta profissional. Seu treinador a descreve como “muito explosiva” e “show de bola”, uma combinação de técnica apurada e intensidade competitiva que surpreende adversárias maiores e mais experientes. Aos 9 anos, a campeã mundial já acumula dezenas de medalhas e três títulos internacionais de destaque.
O título de campeã mundial em Abu Dhabi e o que ele representou
Segundo o Canal Jornalismo TV Cultura, o maior título da carreira de Tina veio em novembro de 2025, quando ela viajou para Abu Dhabi para disputar o Campeonato Mundial de Jiu-Jitsu. Na categoria cinza meio pesado, a menina de Ourinhos subiu ao lugar mais alto do pódio e voltou para casa como campeã mundial, uma conquista que colocou seu nome entre os talentos mais promissores do esporte nacional. “Foi incrível. Ganhei em primeiro lugar”, resume Tina com a simplicidade de quem ainda tem 9 anos.
A viagem a Abu Dhabi foi possível graças a uma mobilização que envolveu a família, a comunidade de Ourinhos e a cooperativa de catadores de recicláveis que apoia a atleta. O custo de passagens aéreas, hospedagem, alimentação e taxas de inscrição para uma competição no Oriente Médio é proibitivo para uma família que depende de vendas no semáforo. Cada título que Tina conquista é, ao mesmo tempo, uma vitória esportiva e uma demonstração de que o talento brasileiro sobrevive apesar da falta de estrutura, não por causa dela.
A rotina de uma campeã mundial que ainda precisa brincar
Na vida diária da campeã mundial de 9 anos, 24 horas parecem pouco. Tina concilia escola, treinos intensivos e, como toda criança, a necessidade de brincar. A própria atleta garante que “dá muito tempo de brincar”, mas a rotina exige uma organização que muitos adultos teriam dificuldade em manter. Os treinos são diários, voltados agora para a preparação do campeonato europeu em Dublin, com foco em técnicas específicas para a categoria cinza peso pesado.
Ter o próprio sensei dentro de casa, no caso o pai, é uma vantagem que acelerou o desenvolvimento de Tina como lutadora. A convivência constante com o esporte criou uma mentalidade competitiva precoce, mas saudável: a menina lida com a pressão das competições de forma natural. “Fica aquela barriga meio fria”, admite sobre os momentos antes de entrar no tatame. “Mas quando chegar lá, dá tudo certo.” É a confiança de quem já provou que pode vencer nos palcos mais importantes do mundo.
O preço real de ser campeã mundial em um país que não apoia o esporte de base
Enquanto Tina luta no tatame, a família se mobiliza fora dele para manter a atleta competindo. A realidade financeira de uma campeã mundial que vende canjica no semáforo é o retrato mais honesto do esporte brasileiro de base. Os pais fazem rifas, vendem doces no sinaleiro, organizam dias de beleza com a cooperativa Recicla Ourinhos e correm atrás de patrocinadores entre conhecidos e comerciantes locais. Cada viagem internacional exige uma campanha inteira de arrecadação.
A cooperativa Recicla Ourinhos, que reúne 90 famílias de catadores de recicláveis, se tornou uma das principais parceiras da família. “A gente já fez rifas juntas, venda de canjicas, dia da beleza. A gente tenta correr atrás de outros patrocinadores”, explica a mãe de Tina. O apoio comunitário é genuíno, mas não substitui o que deveria existir: uma política pública de suporte a atletas de base que demonstram talento excepcional. Uma campeã mundial não deveria precisar de rifas para viajar ao próximo campeonato.
O que esperar de Tina nos próximos meses e anos
A próxima parada da campeã mundial é Dublin, na Irlanda, onde disputará o campeonato europeu nos dias 13 e 14 de abril. No ano passado, Tina conquistou o vice-campeonato europeu em Roma, e agora, como campeã mundial, o objetivo é claro: o ouro. A mudança de categoria, do cinza meio pesado para o cinza peso pesado, adiciona um desafio extra, mas a equipe técnica e a própria atleta demonstram confiança no resultado.
Além do europeu, Tina já é vice-campeã pan-americana, o que mostra que seus resultados não são pontuais, mas parte de uma trajetória consistente de alto rendimento. Para uma menina de 9 anos que começou brincando no canto do tatame, o futuro no Jiu-Jitsu parece tão promissor quanto incertas são as viagens que precisa fazer para competir. A campeã mundial de Ourinhos é a prova viva de que o talento brasileiro nasce em qualquer lugar. O que falta é que o apoio chegue ao mesmo lugar.
Uma menina de 9 anos de Ourinhos é campeã mundial de Jiu-Jitsu, mas a família vende canjica no semáforo para bancar as viagens. Você acha que o Brasil deveria ter um programa de apoio a atletas mirins com resultados comprovados? Conhece histórias parecidas? Deixe nos comentários.


Seja o primeiro a reagir!