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Do passaporte ao assento do trem, China desenvolve sistema de vigilância capaz de rastrear estrangeiros em tempo real e transformar cada pessoa em um “arquivo holográfico” para a polícia

Escrito por Ana Alice
Publicado em 22/05/2026 às 23:58
Sistema chinês revela como dados de jornalistas estrangeiros, viagens e reconhecimento facial podem ser usados para monitoramento no país. (Imagem: Ilustrativa)
Sistema chinês revela como dados de jornalistas estrangeiros, viagens e reconhecimento facial podem ser usados para monitoramento no país. (Imagem: Ilustrativa)
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Sistema exposto revela como dados de jornalistas estrangeiros, viagens e registros pessoais podem ser integrados em plataformas de vigilância na China, em um caso que levanta dúvidas sobre monitoramento e transparência.

Um sistema de vigilância ligado a estruturas de segurança pública da China reuniu dados pessoais de jornalistas estrangeiros e mostrou como autoridades locais podem cruzar registros de viagem, imagens de reconhecimento facial, informações de vistos, consumo e contatos pessoais para acompanhar estrangeiros no país.

A plataforma foi identificada pelo pesquisador de cibersegurança conhecido pelo pseudônimo NetAskari, que relatou o caso à DW após acessar um painel chinês sem proteção adequada.

A página tinha uma área chamada “consulta de arquivos de jornalistas”.

Ao entrar nela, NetAskari afirmou que esperava encontrar dados fictícios, comuns em versões de demonstração.

No entanto, segundo o pesquisador, a base exibia informações reais de quase todos os correspondentes estrangeiros registrados em Pequim por volta de 2021, como fotos usadas em documentos oficiais, números de celular, dados de visto, datas de nascimento e outros registros pessoais.

O próprio pesquisador disse ter encontrado seus dados na plataforma.

À DW, ele afirmou que a descoberta foi “mais interessante do que chocante”.

De acordo com NetAskari, jornalistas que trabalham na China costumam partir do pressuposto de que são monitorados, mas a facilidade de acesso a um sistema com informações sensíveis chamou sua atenção.

Sistema de vigilância em Zhangjiakou reunia dados de estrangeiros

O painel acessado por NetAskari seria uma versão de demonstração de um sistema de rastreamento remoto desenvolvido para o Departamento de Segurança Pública de Zhangjiakou, na província de Hebei.

A cidade recebeu competições dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2022 e é uma região associada a esportes de inverno.

Embora a plataforma aparecesse como ambiente de teste, a base continha dados reais, segundo o pesquisador.

O material analisado indica que o sistema foi desenhado para organizar informações individuais em perfis detalhados, com registros de circulação, identificação, comportamento e vínculos pessoais.

Esse tipo de ferramenta é descrito em documentos e análises como parte de um modelo de “perfis holográficos”.

Na prática, a plataforma não se limita a imagens de câmeras instaladas em ruas ou estações.

Ela também cruza dados de transporte, hospedagem, reconhecimento facial, entradas em locais específicos e registros administrativos.

No painel de Zhangjiakou, era possível consultar viagens de estrangeiros de trem a partir de cidades como Pequim e Xangai, com indicação de vagão e assento.

Também havia registros ligados a hotéis, hospitais, endereço de residência, empregador, situação de visto e número de vezes em que uma pessoa havia sido detectada por câmeras de reconhecimento facial.

A plataforma ainda incluía informações originadas em sistemas instalados em áreas de lazer.

Segundo NetAskari, imagens feitas por catracas com reconhecimento facial em estações de esqui locais eram incorporadas ao mecanismo de rastreamento.

O pesquisador afirmou que a lógica do sistema é processar o maior volume possível de dados, a partir do maior número possível de sensores, em tempo real.

Jornalistas estrangeiros aparecem como grupo de interesse

Os registros analisados mostram que jornalistas estrangeiros eram tratados como um grupo específico dentro da plataforma.

Alguns nomes recebiam marcações que permitiam acionar funções de rastreamento, inclusive alertas quando a pessoa entrasse em determinada jurisdição.

Para correspondentes internacionais, esse tipo de monitoramento pode reduzir a dependência de vigilância presencial.

Em vez de acompanhar fisicamente cada deslocamento, as autoridades conseguem, segundo a descrição do sistema, receber avisos automáticos e consultar registros já integrados à base de dados.

O painel também gerava relatórios sobre estrangeiros em Zhangjiakou e destacava cidadãos dos países que integram a aliança de inteligência conhecida como Five Eyes: Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia.

NetAskari interpretou esse recorte como um sinal de atenção especial das agências chinesas de segurança a cidadãos desses países.

O material analisado, porém, não detalha os critérios oficiais usados para essa classificação.

No caso de jornalistas, a combinação de passagens, pagamentos, redes sociais, hospedagens e imagens pode permitir a reconstrução de trajetos de apuração e a identificação de possíveis fontes.

Essa avaliação foi feita por NetAskari e por organizações que monitoram restrições à imprensa na China, que já haviam registrado preocupação com ferramentas voltadas ao acompanhamento de repórteres.

Em regiões consideradas sensíveis pelo governo chinês, como Xinjiang, correspondentes estrangeiros já relataram acompanhamento por agentes à paisana, perseguições presenciais e abordagens durante viagens.

Com sistemas automatizados, parte desse controle pode ocorrer antes da chegada do jornalista ao local.

“Eles não precisam mais enviar dois ou três carros”, disse NetAskari à DW.

Reconhecimento facial e dados cotidianos entram no arquivo pessoal

A plataforma analisada por NetAskari também reunia dados sobre atividades do dia a dia.

Entre os campos identificados estavam locais de compras, consumo de gasolina, visitas frequentes e presença em áreas associadas a petições, mecanismo usado na China para apresentar reclamações ou reivindicações a autoridades.

Esses registros ajudam a compor um arquivo individual com dados de rotina.

Em vez de reunir apenas informações cadastrais, o sistema organiza deslocamentos, hábitos de consumo e pontos de passagem.

A partir desse cruzamento, operadores podem consultar padrões atribuídos a uma pessoa específica.

Outro campo relevante era o de classificação de risco.

No ambiente observado, diferentes registros exibiam o mesmo percentual, o que sugere um valor provisório ou usado apenas na demonstração.

Ainda assim, a existência dessa categoria mostra que a plataforma foi desenhada para classificar indivíduos.

Não há confirmação pública segura sobre quais dados alimentariam esse cálculo nem sobre como essa pontuação seria usada pelas autoridades.

A China mantém há anos grandes redes de câmeras e projetos de integração de dados.

Um dos mais conhecidos é o Xueliang, ou “Olhos Brilhantes”, criado para ampliar a conexão entre sistemas de vigilância em diferentes regiões.

O painel de Zhangjiakou indica uma etapa voltada à integração de vídeo, registros oficiais, bases administrativas e informações associadas a serviços privados.

Relatórios de organizações especializadas em imprensa e tecnologia também apontam que autoridades chinesas têm buscado combinar ferramentas de inteligência artificial, câmeras, sensores e bancos de dados administrativos em sistemas de alerta e controle social.

Essas análises tratam o caso de Zhangjiakou como parte de uma tendência mais ampla de digitalização da segurança pública no país.

Monitoramento de relações pessoais amplia alcance do sistema

Além de acompanhar deslocamentos individuais, o painel tinha recursos para mapear vínculos entre pessoas.

A plataforma podia gerar gráficos a partir de interações captadas em vídeo e cruzar esses dados com informações como nacionalidade, trabalho, função e área de residência.

Com esse tipo de recurso, o sistema não acompanha apenas uma pessoa isolada.

Ele também permite visualizar contatos recorrentes, encontros e redes de relacionamento.

A avaliação de NetAskari é que esse modelo reduz o trabalho manual de observação e entrega ao operador uma estrutura já organizada de conexões pessoais.

O pesquisador relacionou esses recursos a modelos de “policiamento inteligente” descritos em patentes chinesas anteriores.

Uma patente da Hisense, registrada em 2019, tratava de uma estrutura de arquivo holográfico para pessoas de interesse com base em gráficos de conhecimento, incluindo deslocamentos, chamadas, veículos e outros dados.

A DW também citou um contrato de cerca de US$ 200 mil concedido em 2025 pelo Departamento de Segurança Pública de Putuo, em Xangai, para um sistema de arquivo holístico de pessoal.

A informação reforça que órgãos locais de segurança têm buscado ferramentas capazes de consolidar dados pessoais em plataformas de consulta.

Na prática, a proposta desses sistemas é organizar informações já coletadas e apresentar padrões a operadores de segurança pública.

Em vez de depender apenas de equipes em campo, a plataforma cruza registros e indica vínculos, deslocamentos e atividades consideradas relevantes pelos critérios internos do sistema.

Histórico de vigilância contra jornalistas na China

O caso de Zhangjiakou não é o primeiro registro público de ferramentas chinesas voltadas ao acompanhamento de jornalistas.

Em 2021, a Reuters revelou documentos de licitação da província de Henan que previam um sistema para rastrear jornalistas, estudantes estrangeiros e outros grupos classificados como pessoas de interesse.

Segundo a reportagem da Reuters, o projeto de Henan usaria 3 mil câmeras de reconhecimento facial conectadas a bases nacionais e regionais.

O sistema também previa alertas quando jornalistas entrassem na província, comprassem passagens ou fizessem check-in em hotéis.

Na época, a Federação Internacional de Jornalistas manifestou preocupação com a possibilidade de a tecnologia ampliar formas de intimidação contra profissionais da imprensa.

A organização afirmou que correspondentes locais e estrangeiros já enfrentavam vigilância, obstrução e assédio no exercício da atividade jornalística.

A Reuters informou que não conseguiu confirmar se o sistema de Henan entrou em operação.

Esse ponto é relevante porque documentos de licitação indicam intenção e contratação, mas nem sempre permitem comprovar o funcionamento efetivo de uma plataforma.

Transparência sobre vigilância digital segue limitada

Tecnologias de vigilância, reconhecimento facial e análise de dados também geram debates em democracias ocidentais, especialmente quando envolvem segurança pública, privacidade e atuação de empresas privadas.

A comparação, porém, depende do grau de transparência, fiscalização institucional e possibilidade de contestação pública em cada país.

NetAskari afirmou à DW que essa é uma diferença central no caso chinês.

Segundo ele, em democracias há discussões públicas e disputas institucionais sobre o uso dessas ferramentas.

Na China, disse o pesquisador, a polícia e o Ministério da Segurança do Estado atuam com pouca supervisão pública.

A descoberta não permite afirmar que todas as funções vistas no painel estejam em uso em escala nacional.

Parte da interface tinha características de ambiente em desenvolvimento, com campos incompletos e elementos de teste.

Ainda assim, a presença de dados reais de jornalistas e estrangeiros mostra que informações sensíveis foram incorporadas à plataforma.

Para estrangeiros que vivem, trabalham ou viajam pela China, o caso expõe um modelo de vigilância baseado na conexão entre diferentes registros.

Passagens, compras, check-ins, imagens faciais e contatos pessoais podem ser reunidos em uma mesma base operacional.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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