Cientistas encontraram goethita, hematita e magnetita dentro da pedra brasileira, ampliando as pistas sobre a circulação de água no manto profundo
Para quem observa um diamante, o brilho geralmente é o detalhe mais importante. Entretanto, dentro de uma pedra encontrada em Juína, no Mato Grosso, cientistas localizaram algo ainda mais valioso para a ciência.
O diamante preservava um mineral hidratado capaz de transportar água para o interior da Terra. Além disso, a descoberta ajuda a explicar como essa substância circula a centenas de quilômetros abaixo da superfície.
O estudo foi publicado em 11 de maio de 2026 na revista Scientific Reports, do grupo Nature. A pesquisa foi conduzida por cientistas do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, o CNPEM, e instituições parceiras.
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O diamante formado nas profundezas da Terra
A pedra pertence ao grupo dos chamados diamantes superprofundos, formados sob pressões e temperaturas extremas.
Nesse caso, esses diamantes podem surgir a até 800 quilômetros de profundidade. Além disso, são encontrados em poucos lugares do planeta.
Entre essas regiões, Juína é a principal área de ocorrência conhecida pelos pesquisadores.
Embora sejam diamantes, essas pedras apresentam pouco valor comercial como gemas. Por isso, geralmente são utilizadas em instrumentos de corte, lixas e materiais cirúrgicos ou de precisão.
Inicialmente, as amostras foram doadas por garimpeiros da região. Posteriormente, novos exemplares foram adquiridos com financiamento do Instituto Serrapilheira.

O mineral que pode carregar água ao manto
A descoberta estava escondida dentro da pedra.
Durante as análises, os pesquisadores identificaram uma inclusão de oxihidróxido de ferro, formada pela combinação de goethita, hematita e magnetita.
Consequentemente, essa mistura cria um material hidratado. Assim, o composto pode funcionar como um veículo para transportar água da superfície até regiões extremamente profundas.
A descoberta chama atenção porque as temperaturas do manto podem ultrapassar 2.000°C.
Nessas condições, minerais hidratados geralmente se tornam instáveis. Ainda assim, a inclusão manteve hidroxilas incorporadas à sua estrutura cristalina.
Sirius revelou o que estava preservado no diamante
Para analisar o material, os cientistas utilizaram a luz síncrotron do Sirius, acelerador de partículas de quarta geração instalado no CNPEM.
Além disso, foram utilizadas as linhas de pesquisa Mogno, Ema e Carnaúba.
Com essa estrutura, a composição do mineral foi observada em altíssima resolução. Portanto, os pesquisadores confirmaram que a inclusão estava totalmente isolada dentro do diamante.
Segundo Fernanda Gervasoni, pesquisadora da Universidade Federal de Pelotas e colaboradora do CNPEM, o material não veio de uma contaminação superficial.
Na verdade, a inclusão não possuía contato com fraturas nem com o ambiente externo.
Água profunda não significa oceano subterrâneo
Provavelmente, o mineral se originou em zonas de subducção, onde placas tectônicas mergulham no interior da Terra.
Durante esse processo, o material enfrentou pressões e temperaturas extremas. Consequentemente, teria liberado água e oxigênio no manto profundo.
Entretanto, isso não significa que existam oceanos subterrâneos.
Nesse ambiente, a água aparece como hidroxilas incorporadas aos minerais. Mesmo assim, ela pode alterar a fusão das rochas, a formação de magmas e os sismos profundos.
A descoberta que amplia o ciclo da água
O achado mostra que o ciclo da água não envolve apenas oceanos, rios e atmosfera.
Na prática, ele também alcança regiões profundas do planeta. Além disso, a transformação observada indica que o mineral provavelmente já havia liberado água dentro da Terra.
O estudo reuniu pesquisadores do CNPEM, da Universidade de Brasília, da Universidade Federal de Pelotas e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Finalmente, a pesquisa recebeu recursos da Fapesp, responsável por apoiar o pós-doutorado de Fernanda Gervasoni.
Assim, um pequeno material preservado dentro de um diamante brasileiro abriu uma nova janela para o interior do planeta. Afinal, a pedra pode ajudar a explicar como água e oxigênio alteram a dinâmica do manto terrestre.
E você, imaginava que um diamante encontrado no Brasil poderia guardar pistas sobre a circulação de água nas regiões mais profundas da Terra? Conte nos comentários.
