A estrela tem metade dos elementos pesados do recorde anterior, é feita quase inteiramente de hidrogênio e hélio, nasceu fora da nossa galáxia e o estudo foi aceito pela Nature Astronomy, uma das revistas científicas mais prestigiadas do mundo
Era pra ser um dever de casa. Dez estudantes de graduação da Universidade de Chicago se matricularam numa disciplina chamada “Curso de Campo em Astrofísica”, ministrada pelo professor Alex Ji. A tarefa era simples na teoria: vasculhar uma montanha de dados astronômicos do Sloan Digital Sky Survey, um dos maiores bancos de dados do céu já criados, com 25 anos de operação e milhões de objetos catalogados.
Ninguém esperava que um grupo de estudantes fosse encontrar ali a estrela mais primitiva já registrada na história da astronomia.
A estrela se chama SDSS J0715-7334. Ela fica a 80 mil anos-luz da Terra. E o que a torna extraordinária não é o tamanho nem o brilho, mas o que ela NÃO tem dentro dela.
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O que faz uma estrela ser “a mais antiga do universo”?

Logo depois do Big Bang, há cerca de 13,7 bilhões de anos, o universo era feito basicamente de dois ingredientes: hidrogênio e hélio. As primeiras estrelas nasceram desse material puro, queimaram rápido, morreram jovens e explodiram. Dentro dos seus núcleos, a fusão nuclear criou elementos mais pesados. Quando explodiram, espalharam esses elementos pelo espaço. A geração seguinte de estrelas se formou a partir desses restos.
Cada nova geração de estrelas carrega mais “metais” (como astrônomos chamam qualquer elemento mais pesado que hélio) do que a anterior. É como uma assinatura de nascimento. Quanto menos metais uma estrela tem, mais perto ela está do início de tudo.
A SDSS J0715-7334 tem metade da quantidade de elementos pesados do recorde anterior. Isso significa que ela é, de longe, a estrela quimicamente mais primitiva já encontrada. Quase pura. Quase original. Uma cápsula do tempo do começo do universo.
Como estudantes de graduação acharam o que cientistas profissionais não acharam?
Os dados já estavam lá. O Sloan Digital Sky Survey é público, aberto, acessível. Milhares de astrônomos profissionais já tinham vasculhado os mesmos catálogos. Mas os dez estudantes, orientados pelo professor Ji e pelos assistentes de pós-graduação Hillary Andales e Pierre Thibodeaux, estavam olhando com olhos novos.
Eles identificaram que a composição química daquela estrela era anormalmente limpa. Quase nenhum metal. Quase nenhum rastro das gerações anteriores. Era como encontrar uma garrafa de água cristalina no meio de um oceano de água salgada.
“Essas estrelas primitivas são janelas para o amanhecer das estrelas e galáxias no universo”, disse o professor Alex Ji, primeiro autor do estudo. E completou: “Eu esperava grandes coisas dos estudantes, mas isso superou todas as expectativas.”
Os dez alunos de graduação foram incluídos como coautores no artigo científico, publicado em 3 de abril de 2026 na Nature Astronomy, uma das revistas mais prestigiadas do mundo em ciências espaciais.
A estrela não é daqui
Além de ser a mais primitiva, a SDSS J0715-7334 tem outro detalhe que prendeu a atenção dos pesquisadores: ela não nasceu na Via Láctea.
Usando dados da missão Gaia, da Agência Espacial Europeia, a equipe rastreou a trajetória da estrela e concluiu que ela se formou fora da nossa galáxia, provavelmente na Grande Nuvem de Magalhães ou em suas proximidades. Com o tempo, a gravidade da Via Láctea foi puxando essa estrela pra dentro.
É uma imigrante cósmica. Nasceu em outro lugar, viajou bilhões de anos pelo espaço e agora está sendo absorvida pela nossa galáxia. Os pesquisadores a apelidaram de “Imigrante Antiga” (Ancient Immigrant).
Esse detalhe é cientificamente crucial. Significa que essa estrela carrega informações não só sobre o início do universo, mas sobre como outras galáxias se formaram e evoluíram nos primeiros bilhões de anos.
Por que isso muda o que sabíamos sobre a formação de estrelas?
Uma das grandes perguntas da astrofísica é: como as estrelas passaram de gigantes monstruosas (as primeiras) para menores e mais duráveis (como o Sol)? Havia duas teorias: a presença de elementos pesados ou a existência de poeira cósmica que fragmentava o gás em pedaços menores.
A composição da SDSS J0715-7334 aponta para a segunda hipótese. Como ela tem tão poucos metais mas já é uma estrela de segunda geração, a poeira cósmica provavelmente já existia naquela época, fragmentando as nuvens de gás e permitindo que estrelas menores se formassem.
“A poeira está em todo lugar no universo agora, mas não tínhamos certeza se ela existia naquela época”, explicou Pierre Thibodeaux, estudante de pós-graduação e coautor do estudo. “Se havia poeira, isso fragmentaria o gás em aglomerados menores, e aí você ganha várias estrelas pequenas em vez de uma gigante.”
O que fica disso tudo?
Dez estudantes de graduação, numa sala de aula de Chicago, com um computador e um banco de dados público, encontraram a estrela mais antiga já registrada na história da ciência. Uma estrela que não é da nossa galáxia. Uma estrela que carrega a assinatura química do início do universo. Uma estrela que ajuda a resolver uma das maiores questões da astrofísica.
Não teve telescópio exclusivo. Não teve missão de bilhões de dólares. Não teve equipe de 200 cientistas seniores. Teve dez alunos, um professor, curiosidade e dados abertos.
A próxima grande descoberta do universo talvez não saia de um laboratório da NASA. Talvez saia de uma sala de aula.
Com informações da Universidade de Chicago e ScienceDaily. Estudo publicado na Nature Astronomy (DOI: 10.1038/s41550-026-02816-7).
