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Uma floresta tropical quase três vezes maior que Paris foi devastada para abastecer uma cadeia de embalagens rotuladas como “carbono neutro”, enquanto uma investigação internacional rastreou a madeira desde áreas desmatadas em Bornéu até fábricas de celulose e produção de caixas usadas por grandes marcas do setor de saúde

Escrito por Caio Aviz
Publicado em 11/06/2026 às 18:38
Atualizado em 11/06/2026 às 18:40
Orangotango em árvore ao lado de área desmatada, caminhões com toras, máquinas de extração e fábrica de celulose ao fundo.
Imagem ilustrativa mostra floresta tropical devastada, transporte de madeira e fábrica de celulose, elementos associados à investigação sobre embalagens “neutras em carbono”.
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Investigação da AFP e do The Gecko Project identificou quase 30 mil hectares de floresta derrubados entre 2016 e 2024 e ligou a produção de embalagens “neutras em carbono” a áreas desmatadas na Indonésia, ampliando o debate sobre sustentabilidade, biodiversidade, impactos sociais e possíveis práticas de greenwashing

Uma investigação da AFP e do The Gecko Project revelou que empresas derrubaram áreas de floresta tropical na Indonésia para abastecer uma cadeia ligada à produção de embalagens anunciadas como “neutras em carbono”. O caso envolve plantações em Bornéu, a fábrica indonésia Phoenix Resources International, unidades da Asia Symbol na China e embalagens usadas pela subsidiária chinesa da Haleon, dona de marcas como Panadol e Sensodyne.

De acordo com a apuração, as áreas conectadas à cadeia de fornecimento perderam quase 30 mil hectares de floresta entre 2016 e 2024. A madeira saiu de concessões em Kalimantan, passou pela Phoenix Resources International e seguiu para instalações da Asia Symbol nas províncias chinesas de Jiangsu e Shandong.

A investigação cruzou imagens de satélite, auditorias governamentais, registros comerciais e dados de rastreamento de navios para acompanhar a rota da celulose. Após a divulgação do caso, a Haleon encerrou sua relação comercial com a Asia Symbol.

Imagem aérea de floresta tropical na Indonésia ao lado de áreas desmatadas e convertidas em plantações, ilustrando os impactos ambientais associados à produção de celulose para embalagens.
Vista aérea mostra o contraste entre áreas preservadas de floresta tropical e regiões convertidas em plantações, cenário que ganhou destaque na investigação sobre a cadeia de fornecimento ligada à produção de embalagens “carbono neutro” na Indonésia.

Desmatamento em Bornéu abasteceu cadeia ligada a embalagens “neutras em carbono”

As áreas analisadas ficam em uma das regiões mais biodiversas do planeta. Especialistas apontam esses territórios como habitat de orangotangos ameaçados de extinção.

Ao longo dos anos, empresas substituíram parte da floresta por extensas plantações de acácias e eucaliptos. Essas árvores de crescimento rápido abastecem a produção de celulose.

Em 2023, a Asia Symbol informou que deixaria de usar madeira proveniente de uma dessas concessões. Entretanto, a investigação rastreou materiais dessas áreas até a Phoenix Resources International, fornecedora da cadeia que abastece operações da empresa na China.

Segundo os investigadores, essa estrutura industrial alimentava a produção de embalagens classificadas como “carbono neutro”. Parte dessas caixas seguia para medicamentos comercializados pela subsidiária chinesa da Haleon.

Terreno desmatado na Indonésia com restos de árvores e placa de concessão florestal industrial, ilustrando a conversão de floresta tropical em áreas destinadas à produção de celulose.
Área de floresta derrubada em Kalimantan, na Indonésia, onde plantações industriais avançaram sobre a vegetação nativa citada na investigação da AFP e do The Gecko Project.

Moradores relatam enchentes, perda de terras e desaparecimento da fauna

Enquanto a produção avançava, moradores de comunidades próximas passaram a relatar mudanças significativas no ambiente. Em Humbang Raya, Agau afirmou que a floresta, antes essencial para sustentar a população local, praticamente desapareceu.

Segundo ele, animais e aves deixaram a região. Além disso, muitas famílias buscaram trabalho em outros lugares após a perda dos recursos da floresta.

Em Sei Gawing, dentro da mesma área de concessão, moradores disseram que evitam consumir água dos rios próximos. Eles também relataram enchentes mais frequentes e intensas após a redução da cobertura florestal.

A líder comunitária Dodie Kristiawan afirmou que as inundações passaram a atingir residências. Segundo ela, esse cenário não ocorria com a mesma intensidade anos atrás.

Asia Symbol e Royal Golden Eagle voltam ao centro das críticas ambientais

A Asia Symbol declarou à AFP que mantém o compromisso de não usar madeira de florestas naturais ou áreas convertidas recentemente em plantações. Ainda assim, a investigação apontou conexões entre fornecedores da empresa e regiões com perda significativa de cobertura florestal.

A apuração também pressionou a Royal Golden Eagle (RGE), controladora da Asia Symbol. Em 2015, o conglomerado assumiu o compromisso de eliminar o desmatamento de sua cadeia de suprimentos.

Em 2024, a empresa obteve um financiamento de US$ 1 bilhão vinculado a metas de sustentabilidade. Apesar disso, organizações ambientais afirmam que a investigação levanta dúvidas sobre a efetividade desses compromissos.

Representantes da Rainforest Action Network e do Greenpeace Internacional disseram que o caso reacende questionamentos sobre possíveis práticas de greenwashing. O termo define estratégias de marketing ambiental que não refletem integralmente a realidade operacional das empresas.

Certificação florestal, sustentabilidade e pressão internacional entram no debate

O Forest Stewardship Council (FSC) informou que a suspensão envolvendo a Royal Golden Eagle continua em vigor. A entidade já havia retirado a certificação do grupo após denúncias relacionadas ao desmatamento.

Além disso, a investigação mostrou que relatórios governamentais identificaram fornecimento de madeira para a Phoenix Resources International por meio de diversas concessões florestais. Imagens de satélite analisadas pelos investigadores registraram desmatamento em parte dessas áreas.

Dados comerciais e informações de navegação também ajudaram a acompanhar carregamentos de celulose enviados da Indonésia para portos chineses usados pela Asia Symbol.

Segundo o Global Forest Watch, a Indonésia permanece entre os países com maior perda de cobertura florestal do mundo. Para moradores afetados pela expansão das plantações, o avanço do desmatamento ameaça diretamente os meios de subsistência, a biodiversidade e as florestas remanescentes.

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Caio Aviz

Escrevo sobre o mercado offshore, petróleo e gás, vagas de emprego, energias renováveis, mineração, economia, inovação e curiosidades, tecnologia, geopolítica, governo, entre outros temas. Buscando sempre atualizações diárias e assuntos relevantes, exponho um conteúdo rico, considerável e significativo. Para sugestões de pauta e feedbacks, faça contato no e-mail: avizzcaio12@gmail.com.

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