Um levantamento que avaliou mais de 544 mil amostras revelou um fenótipo raríssimo no sistema ABO, identificado apenas em três pessoas, evidenciando mutações inéditas e a necessidade de atenção redobrada em casos de incompatibilidade laboratorial
A análise de mais de meio milhão de amostras revelou um tipo sanguíneo desconhecido. O achado foi feito por pesquisadores da Universidade Mahidol, na Tailândia, que investigavam discrepâncias no sistema ABO. O resultado apareceu em três pessoas entre 544 mil exames e foi detalhado na revista Transfusion and Apheresis Science.
Uma anomalia que surgiu por acaso
A equipe não buscava um novo fenótipo. O foco inicial era entender por que aparecem incompatibilidades entre testes diretos e reversos.
Essas situações ocorrem quando a tipagem das hemácias não combina com a tipagem do soro. E isso preocupa médicos porque pode gerar risco nas transfusões.
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A pesquisa envolveu 285.450 amostras de doadores e 258.780 de pacientes. Os especialistas do Hospital Siriraj analisaram cada caso para identificar a origem das divergências e observaram que elas eram incomuns.
O grupo chefiado por Janejira Kittivorapart registrou apenas 396 discrepâncias entre mais de 544 mil testes. Isso equivale a 0,15% do total. Esses números já mostravam o quanto o problema é raro.
Após retirar as amostras que poderiam estar relacionadas a transplantes de células-tronco, sobraram 198 casos realmente conflitantes.
Entre eles, apenas um apresentou o fenótipo B(A). E, no conjunto dos doadores, a taxa de discrepância foi ainda menor, de 0,03%.
Além disso, apenas duas pessoas desse grupo exibiram a mesma variação.
Novo tipo sanguíneo? Como funciona o fenótipo B(A)
O B(A) é uma alteração muito específica dentro do sistema ABO. O sangue é classificado como tipo B. Porém, mutações influenciam a ação da enzima que adiciona antígenos às hemácias.
Por causa dessas mudanças, a atividade se assemelha à do tipo A, mesmo que em intensidade baixa.
Nos três casos observados, os cientistas encontraram quatro mutações inéditas no gene ABO. Essas mutações nunca haviam sido mencionadas antes e modificam o comportamento da enzima.
Os testes convencionais podem não detectar o pequeno nível de antígeno A presente.
Portanto, o estudo serve como alerta para profissionais da saúde. A tipagem padrão pode falhar em circunstâncias excepcionais, e análises genéticas tornam-se importantes quando os resultados laboratoriais não batem.
O que o achado do tipo sanguíneo representa
A raridade do fenótipo não diminui seu impacto. Pelo contrário, reforça que o sangue humano vai além das classificações mais difundidas.
A compreensão dessas pequenas variações ajuda a evitar incompatibilidades transfusionais e oferece suporte em situações clínicas complexas.
Além disso, o estudo destaca que o campo da hematologia é vasto. Para além das divisões ABO e Rh, existem mais de 45 grupos sanguíneos reconhecidos.
Cada um deles apresenta características distintas que influenciam a forma como o sangue é classificado.
Outras descobertas recentes confirmam esse cenário. Em 2024, pesquisadores solucionaram uma dúvida de cinco décadas ao identificar um novo sistema de grupos sanguíneos em uma amostra de 1972.
Já em 2025, especialistas franceses anunciaram o “Gwada-negativo”, considerado o tipo mais raro já registrado e presente apenas em uma mulher da ilha de Guadalupe.
Ela é a única pessoa compatível consigo mesma.
Esses achados mostram como ainda há questões abertas nesse campo. Estudos futuros devem explicar como as mutações recém-identificadas interferem na estrutura da enzima envolvida no sistema ABO.
Com informações de Revista Galileu.

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