Descoberta na Torre de Davi revela muralha hasmoneia de 40 metros, enterrada intencionalmente, ligando Antíoco VII, Herodes e disputas que moldaram Jerusalém entre os séculos 2 a.C. e 1 a.C.
Uma das maiores seções preservadas da antiga muralha de Jerusalém, com cerca de 2.100 anos, foi identificada no complexo da Torre de Davi, na Cidade Velha, durante obras recentes, reacendendo o debate histórico sobre quem ordenou sua destruição sistemática e por que isso importa para a compreensão do poder na Judeia antiga.
O achado foi anunciado na segunda-feira (8) pela Autoridade de Antiguidades de Israel (IAA), durante intervenções para instalação da nova Ala Schulich de Arqueologia, Arte e Inovação, no complexo de Kishle, área que funcionou como prisão no período do Mandato Britânico.
Segundo os arqueólogos Amit Re’im e Marion Zindel, a estrutura descoberta possui mais de 40 metros de comprimento, cerca de 5 metros de largura e pedras talhadas com relevo típico da arquitetura hasmoneia, com estimativa de altura original superior a dez metros.
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Apesar da imponência original, apenas o toco da muralha permanece preservado, resultado de uma destruição deliberada identificada pelas camadas arqueológicas, que indicam remoção cuidadosa da fortificação até o nível do solo, afastando hipóteses de colapso natural.
A muralha corresponde ao traçado da chamada Primeira Muralha, descrita por Flávio Josefo, principal fonte histórica do período do Segundo Templo, como uma fortificação inexpugnável que circundava Jerusalém e incluía a região do Monte Sião.
Josefo relata que a Primeira Muralha era reforçada por dezenas de torres e portões, desempenhando papel central na defesa urbana da cidade durante o período hasmoneu, antes das transformações políticas e arquitetônicas subsequentes.
Duas hipóteses para a destruição
As evidências de destruição intencional levaram os pesquisadores a considerar duas explicações principais para o desaparecimento da muralha, ambas associadas a momentos decisivos da história política de Jerusalém no século 2 a.C. e nas décadas seguintes.
A primeira hipótese remete ao cerco imposto por Antíoco VII Sidetes entre 134 e 132 a.C., quando João Hircano I teria aceitado desmontar as defesas da cidade como parte de um acordo militar, incluindo o pagamento de 3.000 talentos de ouro.
Segundo essa interpretação, a destruição documentada corresponderia ao cumprimento literal desse acordo, considerado humilhante, no qual os hasmoneus teriam removido suas próprias fortificações para garantir a sobrevivência política imediata.
A segunda hipótese envolve Herodes, que décadas depois construiu seu palácio exatamente sobre o local da muralha, possivelmente enterrando deliberadamente a estrutura como gesto político de apagamento simbólico da dinastia hasmoneia.
De acordo com Amit Re’em, em entrevista ao jornal The Times of Israel, a destruição não foi aleatória, indicando uma ação planejada com objetivo claro, reforçando a tese de que o soterramento pode ter sido parte de uma estratégia de legitimação do poder.
Elo visível com a Jerusalém antiga
A descoberta dialoga com escavações realizadas na década de 1980 por Renée Sivan e Giora Solar, que identificaram centenas de projéteis helenísticos acumulados ao pé da muralha, incluindo pedras de catapulta e balas de funda.
Naquele momento, os artefatos foram interpretados como vestígios do cerco de Antíoco VII, sugerindo que a fortificação resistiu aos ataques, permitindo o acúmulo das armas na base, parte das quais integra hoje o acervo do Museu da Torre de Davi.
A nova exposição da muralha também permite acesso à sua face interna, condição rara em Jerusalém, além de fragmentos de cerâmica e moedas que reforçam a datação hasmoneia, apesar da ausência de argamassa impedir análises por radiocarbono.
A técnica construtiva observada, com grandes blocos assentados a seco, corresponde ao padrão das fortificações dos Macabeus, fortalecendo a atribuição cronológica, mesmo com pequenas incertezs ainda em análise.
Durante as escavações, foram identificados vestígios de uma muralha ainda mais antiga, possivelmente do período do Primeiro Templo, entre os séculos 10 e 6 a.C., cujas amostras seguem em estudo.
Para Eilat Lieber, diretora do Museu da Torre de Davi, a nova ala permitirá que visitantes caminhem sobre piso transparente instalado acima da muralha, integrando arqueologia, tecnologia e arte contemporânea na leitura da história urbana.
O ministro do Patrimônio de Israel, Rabino Amichai Eliyahu, destacou no comunicado da IAA o simbolismo da descoberta durante o período de Hanucá, afirmando que a estrutura evidencia o poder e a importância de Jerusalém no período hasmoneu.
Com informações de Revista Galileu.


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