Uma antiga mina de estanho no Vale do Côa em Portugal passou de terreno industrial abandonado a zona húmida com biodiversidade surpreendente. A restauração ecológica do Parque Paul de Toirões já registrou mais de 200 espécies e virou referência de como paisagens destruídas podem renascer.
O Parque Paul de Toirões, no Vale do Côa, em Portugal, era até pouco tempo atrás uma cicatriz aberta na paisagem uma antiga pedreira de estanho, tungstênio e areia abandonada no início da década de 2010, com poços profundos, crateras e sistemas de drenagem artificiais que expulsavam a água do terreno. Hoje, a área de 300 hectares abriga um mosaico de lagos, lagoas e zonas húmidas onde a biodiversidade explodiu, com análises de DNA ambiental revelando a presença de mais de 200 espécies no local.
A transformação começou de forma espontânea, quando a água passou a se acumular nas depressões deixadas pela mineração, mas ganhou escala a partir de 2022 com a entrada da Rewilding Portugal na gestão do parque. O projeto de restauração ecológica demonstra algo que cientistas ambientais repetem há décadas: mesmo paisagens altamente degradadas podem se recuperar e se tornar refúgios de biodiversidade quando os processos naturais recebem espaço e um empurrão na direção certa.
O legado de destruição que a mineração deixou para trás

Durante décadas, o local que hoje é o Parque Paul de Toirões anteriormente conhecido como Quinta de Santa Margarida foi explorado para extração de estanho, tungstênio e areia. A atividade mineira remodelou drasticamente o terreno, criando uma paisagem de poços profundos, taludes íngremes e canais de drenagem artificial projetados para escoar a água o mais rápido possível para fora da área.
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Quando a mineração cessou, no início da década de 2010, o que restou foi um terreno baldio industrial. Mas o próprio formato da devastação continha, paradoxalmente, as sementes da recuperação.
A água começou a se acumular nas depressões escavadas, formando uma rede variada de habitats aquáticos interligados que mais tarde se mostrariam fundamentais para a biodiversidade.
Ainda assim, barreiras significativas persistiam: declives acentuados impediam o acesso da fauna, os canais de drenagem continuavam esvaziando as áreas naturalmente alagáveis e grandes extensões permaneciam dominadas por plantações de árvores exóticas.
Como a Rewilding Portugal acelerou a restauração ecológica

imagem: Marco Westberg
Os trabalhos práticos de restauração ecológica começaram em novembro de 2022, quando a equipe da Rewilding Portugal assumiu a gestão do parque com apoio financeiro da Mossy Earth. O objetivo era colocar o local no caminho para se tornar um ecossistema autossustentável, capaz de se manter e se diversificar com intervenção humana mínima ao longo do tempo.

Com máquinas pesadas, a equipe suavizou as margens dos corpos d’água, removeu sistemas de drenagem artificiais e construiu pequenas barreiras para reter a água por períodos mais longos.
Essas intervenções expandiram as zonas úmidas e criaram uma gama mais ampla de habitats de lagos profundos a áreas rasas sujeitas a inundações sazonais. Fileiras de ciprestes exóticos foram removidas para permitir a regeneração de espécies nativas como o carvalho-dos-pirenéus e a azinheira, o que ampliou a diversidade e a conectividade dos habitats disponíveis para a fauna e a flora.
Os números que comprovam a explosão de biodiversidade
Os resultados dos levantamentos realizados em 2023 e 2024 são expressivos. Foram registradas 94 espécies de plantas aquáticas, cobrindo desde margens arenosas até bosques de salgueiros inundados.
Entre as descobertas está a utricularia-do-sul, uma planta insetívora extremamente sensível à qualidade da água e com pouquíssimos registros no interior de Portugal um indicador de que o ecossistema está saudável.
A análise de DNA ambiental técnica que identifica espécies a partir de vestígios genéticos na água e no solo revelou a presença de mais de 200 espécies em todo o parque, confirmando a riqueza da biodiversidade que se instalou no local.
Levantamentos específicos de anfíbios e aves destacaram a importância crescente das lagoas temporárias e zonas úmidas como áreas de reprodução e alimentação.
Cegonhas-pretas, tartaranhões-ruivos, colhereiros, falcões-peregrinos e lontras estão entre as espécies documentadas, ao lado de uma população crescente de anfíbios que coloniza os charcos recém-formados.
O Vale do Côa ganha um corredor ecológico
A restauração ecológica de Paul de Toirões não beneficia apenas o parque em si. A revitalização do local impulsiona a conectividade ecológica em todo o Vale do Côa, criando uma ponte para espécies que se deslocam pela paisagem.
As zonas húmidas em expansão e as florestas em regeneração complementam outros projetos de restauração no vale, reforçando o trabalho da Rewilding Portugal para construir um corredor ecológico de grande escala.
“O renascimento de Paul de Toirões demonstra o notável poder da natureza de se curar quando lhe damos a oportunidade”, afirma André Couto, responsável de campo da Rewilding Portugal.
A biodiversidade que retornou ao local funciona como um termômetro da saúde ambiental da região, e cada nova espécie registrada indica que o ecossistema está ganhando complexidade e resiliência. O objetivo de longo prazo é que processos naturais assumam o protagonismo, com a equipe humana intervindo cada vez menos.
Turismo sustentável transforma biodiversidade em economia local
O renascimento da biodiversidade em Paul de Toirões também está gerando impacto econômico. O local se tornou um ponto focal de turismo sustentável no Vale do Côa, com visitas guiadas, oportunidades de observação da vida selvagem e estadias imersivas que conectam visitantes à paisagem recuperada.
Um observatório dedicado à vida selvagem permite encontros próximos com aves e outras espécies, enquanto o WilderCamp um acampamento móvel gerido pela Rewilding Portugal oferece uma experiência de hospedagem que coloca os hóspedes dentro do ecossistema restaurado.
Essas iniciativas criam oportunidades econômicas para comunidades locais e demonstram que restauração ecológica e desenvolvimento podem caminhar juntos, transformando biodiversidade em fonte de renda sustentável para a região.
Uma jornada que está longe de terminar
Embora a transformação de Paul de Toirões tenha sido rápida, o projeto ainda tem um longo caminho pela frente.
A Rewilding Portugal continuará monitorando as mudanças ecológicas e acompanhando o retorno da vida selvagem ao longo dos próximos anos, com levantamentos repetidos para medir a evolução da biodiversidade, da qualidade da água e do desenvolvimento dos habitats.
À medida que a vegetação amadurece e as cadeias alimentares se fortalecem, a expectativa é que o local evolua para um ecossistema cada vez mais vibrante.
O que antes era um terreno industrial devastado é hoje uma demonstração viva de restauração ecológica e um testemunho de que paisagens aparentemente irrecuperáveis podem se transformar em refúgios de biodiversidade bastando que alguém dê à natureza o espaço e o tempo de que ela precisa.
Com informações do portal rewildingeurope.
O que você acha dessa transformação? Acredita que projetos de restauração ecológica como esse podem ser replicados em larga escala ou dependem de condições muito específicas? Conte nos comentários.
