Araguari já teve 130 produtores de maracujá no ano 2000, mas hoje restam apenas 15 lutando contra a falta de mão de obra no campo, a fusariose que dizima plantações inteiras e os custos de uma fruticultura que exige colheita manual fruto a fruto, mesmo sendo o Brasil o maior produtor mundial com 736 mil toneladas colhidas em 2024 segundo o IBGE.
O maracujá já foi uma das culturas mais fortes do município de Araguari, em Minas Gerais. Há 26 anos, centenas de produtores investiam no cultivo da fruta na região. Hoje a realidade é outra: segundo dados da Emater, o número de produtores de maracujá em Araguari caiu de 130 no ano 2000 para apenas 15. A queda é de quase 90% em duas décadas e meia, e a principal razão não é falta de mercado é falta de gente disposta a trabalhar no campo.
O paradoxo é evidente. O Brasil é o maior produtor de maracujá do mundo, com 736 mil toneladas colhidas em 2024 segundo o IBGE. A fruta tem demanda interna e externa, é exportada para Estados Unidos, França, Argentina e Portugal, e movimenta mais de R$ 1 bilhão na fruticultura nacional. Mas em Araguari, onde a tradição do maracujá tem décadas, os produtores que restam precisam enfrentar escassez de mão de obra, doenças como a fusariose e um cultivo que exige atenção manual constante desafios que fizeram a maioria desistir e migrar para outras culturas.
Por que a mão de obra sumiu dos pomares de maracujá em Araguari

José Rafael, produtor com mais de 40 anos de experiência na fruticultura do maracujá em Araguari, viveu a transformação de perto. “Há 40 anos, a mão de obra era abundante. Você conseguia quantas pessoas fosse necessário”, conta. Hoje, encontrar trabalhadores dispostos a atuar na lavoura se tornou o maior gargalo da atividade.
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O problema se intensificou nos últimos oito a nove anos. A mão de obra rural exige que o trabalhador, em muitos casos, resida na propriedade algo cada vez mais difícil quando filhos precisam ir à escola e adultos querem estudar à noite para se qualificar. “Todo mundo quer se desenvolver. A pessoa precisa estudar, tem filho na escola.
Mesmo oferecendo boas condições e salário adequado, não é fácil”, explica José Rafael. O trabalho no campo de maracujá é diferente de uma rotina urbana: há poeira quando não chove, barro quando chove, e uma exigência física constante.
Para os produtores que restam em Araguari, a escassez de mão de obra não é apenas um inconveniente é uma ameaça existencial. O maracujá é uma fruta que exige colheita manual, fruto a fruto, diretamente do chão. Se a colheita atrasa, o maracujá apodrece.
Se não há gente suficiente para cuidar do pomar, a produção cai. E quando a conta não fecha, o produtor abandona a cultura.
A fusariose: a doença que expulsou produtores de maracujá da atividade
A falta de mão de obra não é o único vilão. A fusariose doença causada pelo fungo Fusarium que ataca o sistema vascular da planta é outro fator que reduziu drasticamente o número de produtores de maracujá em Araguari.
Quando a fusariose chega a uma área de cultivo, não existe controle químico ou biológico que resolva o problema de forma definitiva. A doença permanece no solo e volta a atacar novas plantações feitas no mesmo local.
Segundo José Rafael, a fusariose foi um dos motivos que mais afastou produtores da fruticultura do maracujá na região. A solução encontrada por quem insistiu na atividade é a enxertia: usar mudas de uma variedade resistente como porta-enxerto, permitindo que o maracujá produtivo cresça em uma base que tolera o fungo.
A técnica é amplamente usada em outras frutíferas abacate, laranja, manga e agora vem sendo aplicada ao maracujá com resultados promissores.
A variedade Pérola do Cerrado, cultivada por José Rafael em seus 2 hectares de pomar, tem uma vantagem adicional: não precisa de polinização manual, que demandaria ainda mais mão de obra especializada.
A combinação de resistência a pragas e doenças com menor exigência de trabalho humano é o que permite que produtores como ele continuem na atividade mas é uma solução que poucos adotaram a tempo.
Como os 15 produtores que restam conseguem manter a produção
Os produtores de maracujá que sobreviveram em Araguari adotaram um conjunto de técnicas que tornam a atividade viável mesmo com todos os desafios. O sistema de irrigação por microaspersão mantém as plantas desenvolvidas durante os períodos secos.
As mudas são produzidas em tubetes e depois transplantadas para o campo, onde crescem em espaldeira estrutura de arames que organiza o crescimento da planta.
O maracujá começa a produzir a partir de seis meses após o plantio e tem vida útil média de três anos. Depois que a planta atinge o arame da espaldeira, é feita uma poda para que os galhos cresçam para os lados, formando uma cortina de folhas e frutos.
A produção de José Rafael, em apenas 2 hectares, chega a 50 toneladas por ano um rendimento expressivo que demonstra o potencial da cultura quando bem manejada.
A técnica de porta-enxerto com uma variedade de maracujá menor e resistente é outro diferencial. A semente da variedade produtiva é colocada dentro do fruto da espécie resistente, ficando protegida de possíveis pragas desde o início.
Estudos conduzidos ao longo de anos confirmaram que a variedade não altera a produtividade do maracujá e oferece tolerância à fusariose uma combinação que viabiliza o cultivo em áreas que já foram contaminadas pelo fungo.
O Brasil produz 736 mil toneladas, mas a base de produtores encolhe
O contraste entre os números nacionais e a realidade local de Araguari é revelador. O Brasil colheu 736 mil toneladas de maracujá em 2024, segundo dados do IBGE 22 mil toneladas a mais que em 2023. A área plantada se manteve praticamente estável nos últimos anos, em torno de 46 mil hectares. A fruticultura do maracujá movimenta mais de R$ 1 bilhão por ano e exporta para Estados Unidos, França, Argentina e Portugal.
Minas Gerais é o quinto estado que mais produz maracujá no Brasil, com destaque para Santo Hipólito, seguido por Araguari, Presidente Olegário, Carmo do Paranaíba e Jaíba. Mas o fato de Araguari ter perdido quase 90% dos seus produtores em 25 anos levanta uma pergunta que vale para todo o país: se a base produtiva continua encolhendo, até quando o volume total se sustenta?
O maracujá pertence ao gênero Passiflora, que reúne mais de 500 espécies. A variedade mais plantada no Brasil é o maracujá amarelo ou azedo (Passiflora edulis), responsável por 96% da área cultivada no país.
As demais variedades como o Pérola do Cerrado, o maracujá roxo e espécies ornamentais ocupam nichos menores, mas vêm ganhando espaço em mercados que buscam produtos diferenciados e de maior valor agregado.
O que a história de Araguari ensina sobre a fruticultura brasileira
A queda de 130 para 15 produtores de maracujá em Araguari não é um caso isolado. A falta de mão de obra no campo brasileiro atinge praticamente todas as culturas que dependem de trabalho manual intensivo.
Café, frutas, hortaliças setores inteiros enfrentam a mesma dificuldade de encontrar pessoas dispostas a trabalhar na zona rural, especialmente as gerações mais jovens que buscam oportunidades urbanas.
Para o maracujá, a situação é agravada pelas particularidades da fruta. A colheita é manual e diária: cada maracujá precisa ser recolhido do chão assim que cai. Se demorar, apodrece. Se faltar gente para colher, a produção se perde. Não existe, até o momento, mecanização viável para essa etapa — o que torna a cultura inteiramente dependente de braços humanos disponíveis e dispostos.
Iniciativas como a de José Rafael mostram que com manejo adequado, tecnologia de enxertia e variedades adaptadas, o maracujá ainda pode ser viável e lucrativo.
Mas enquanto a questão da mão de obra no campo não for enfrentada de forma estrutural com políticas públicas, qualificação e condições que tornem o trabalho rural atrativo, a tendência é que mais produtores desistam e que tradições agrícolas como a de Araguari continuem desaparecendo.
Você é produtor de maracujá ou conhece alguém que desistiu da fruticultura por falta de mão de obra? Acha que a mecanização pode resolver esse problema ou o trabalho manual é insubstituível em culturas como essa? Conta nos comentários esse debate sobre o futuro da fruticultura brasileira precisa de quem vive a realidade do campo.


Bolsa família , curral eleitoral do lula transformou trabalhador em ****,sem falar na CLT