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Com ácido biológico capaz de furar rochas, o dátil-do-mar transforma costões em labirintos submersos e obriga países a proibir sua pesca para evitar colapsos costeiros

Escrito por Débora Araújo
Publicado em 19/01/2026 às 22:32
Com ácido biológico capaz de furar rochas, o dátil-do-mar transforma costões em labirintos submersos e obriga países a proibir sua pesca para evitar colapsos costeiros
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Com ácido biológico capaz de perfurar rochas, o Lithophaga lithophaga (dátil-do-mar) escava costões, cria labirintos submersos e levou países a proibir a pesca para evitar colapsos costeiros.

Quando os mergulhadores voltaram da água com blocos calcários completamente vazados, muitos pensaram se tratar de erosão comum. Só depois pesquisadores confirmaram: não era obra da maré, mas de um molusco bivalve chamado dátil-do-mar (Lithophaga lithophaga), capaz de escavar rochas inteiras usando química biológica.

Discreto, raramente visto vivo e protegido por sua própria arquitetura subaquática, o dátil-do-mar tornou-se um dos organismos mais impressionantes do Mediterrâneo — não pelo tamanho, mas pela capacidade de remodelar ecossistemas ao longo de décadas.

Como funciona o “ácido biológico” que corrói rochas

O dátil-do-mar vive dentro de rochas calcárias (carbonato de cálcio), principalmente em costões mediterrâneos. Para escavar seu túnel, ele secreta substâncias ácidas que dissolvem progressivamente o carbonato, abrindo espaço para o crescimento do animal. Fontes como NOAA, IUCN, Marine Biology e institutos do Mediterrâneo descrevem o processo como uma combinação de:

  • Secreção ácida para dissolução química
  • Microabrasão mecânica (raspagem) para ampliar o túnel
  • Fixação permanente, pois ele não sai do buraco onde cresce

O resultado são paredes cheias de orifícios cilíndricos que, quando expostos, lembram favos de abelha — só que em rocha.

Em muitos trechos da costa croata, grega e italiana, o trabalho contínuo desses moluscos ao longo de décadas a séculos transforma paredões em estruturas altamente perfuradas, alterando a rugosidade e a hidrodinâmica costeira.

Impactos ecológicos: quando a bioengenharia vira um problema

A transformação do substrato rochoso não é neutra. Em biologia marinha, substrato é destino: quem vive ali depende da textura, dureza e troca de água. Costões perfurados acumulam sedimentos, mudam a circulação de nutrientes, aumentam micro-habitats para certas espécies e expulsam organismos que dependem de superfície lisa.

Esse processo pode favorecer espécies adaptadas a ambientes cripticos, reduzir macroalgas calcárias e outras que necessitam de base sólida, e até mesmo alterar cadeias tróficas locais. É um ajuste demorado e difícil de reverter — e o problema é amplificado pela pesca humana.

Por que a pesca do dátil-do-mar é tão destrutiva

Para coletar o dátil-do-mar, não se raspa a rocha: se destrói a rocha. Tradicionalmente, pescadores mediterrâneos quebravam costões com martelo, arrancavam blocos inteiro e expunham colônias que levaram décadas ou séculos para se formar.

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O resultado: erosão acelerada, perda de biodiversidade, desfiguração costeira e diminuição de produtores primários, já que algas e corais moles dependem de rocha íntegra.

Estudos italianos e croatas mostram que um metro quadrado de rocha destruído pode levar mais de 50 anos para recuperar cobertura biológica, e a recomposição geológica é essencialmente irreversível na escala humana.

O colapso da costa levou países a proibir o consumo

Diante do dano evidente, vários governos do Mediterrâneo proibiram a pesca e o comércio do dátil-do-mar:

  • Itália — proibido desde a Lei nº 963/1965 e reforçado por normas posteriores;
  • Croácia — consumo e extração criminalizados;
  • Espanha — protegido em águas mediterrâneas, com fiscalização costeira;
  • Grécia — extração considerada destrutiva e ilegal.

Em alguns lugares, vender ou servir dátil-do-mar em restaurantes pode resultar em multas elevadas, fechamento de estabelecimentos, e até mesmo em processos ambientais. A União Europeia também o classifica como espécie de interesse de conservação, dada a vulnerabilidade dos costões calcários mediterrâneos.

O papel da ciência: o Mediterrâneo como laboratório de bioengenharia

Pesquisas italianas, croatas, espanholas e da Marine Biology Journal analisam o dátil-do-mar como modelo de bioerosão química, interação rocha-organismo e engenharia ecológica de longo prazo.

Com ácido biológico capaz de furar rochas, o dátil-do-mar transforma costões em labirintos submersos e obriga países a proibir sua pesca para evitar colapsos costeiros

Laboratórios de zoologia e geologia marinha tratam o molusco como um engenheiro do ecossistema, na mesma categoria conceitual de castores, formigas cortadeiras e anfípodes construtores de tubos — com a diferença que este engenheiro trabalha com ácido.

O paradoxo do dátil-do-mar

  • Biologicamente, é uma obra-prima evolutiva: um molusco capaz de viver escondido, protegido e estável por décadas;
  • Ecologicamente, é um agente de transformação: perfura substratos, cria micro-habitats e altera paisagens submersas;
  • Culturalmente, tornou-se uma iguaria que destrói o ambiente quando coletada.

Esse paradoxo — biologia fascinante + impacto humano destrutivo — fez o dátil-do-mar se tornar um símbolo ambiental em países mediterrâneos.

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José Carlos do Amaral Sampaio
José Carlos do Amaral Sampaio
21/01/2026 20:25

Não tem como criar em laboratórios ou fazendas marinhas como se faz com mexilhões?

Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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