Com ácido biológico capaz de perfurar rochas, o Lithophaga lithophaga (dátil-do-mar) escava costões, cria labirintos submersos e levou países a proibir a pesca para evitar colapsos costeiros.
Quando os mergulhadores voltaram da água com blocos calcários completamente vazados, muitos pensaram se tratar de erosão comum. Só depois pesquisadores confirmaram: não era obra da maré, mas de um molusco bivalve chamado dátil-do-mar (Lithophaga lithophaga), capaz de escavar rochas inteiras usando química biológica.
Discreto, raramente visto vivo e protegido por sua própria arquitetura subaquática, o dátil-do-mar tornou-se um dos organismos mais impressionantes do Mediterrâneo — não pelo tamanho, mas pela capacidade de remodelar ecossistemas ao longo de décadas.
Como funciona o “ácido biológico” que corrói rochas
O dátil-do-mar vive dentro de rochas calcárias (carbonato de cálcio), principalmente em costões mediterrâneos. Para escavar seu túnel, ele secreta substâncias ácidas que dissolvem progressivamente o carbonato, abrindo espaço para o crescimento do animal. Fontes como NOAA, IUCN, Marine Biology e institutos do Mediterrâneo descrevem o processo como uma combinação de:
-
Cientistas misturaram hidrocarbonetos com uma folha de ouro, submeteram a pressão maior que a do manto terrestre e calor acima de 1.900 °C, e acabaram descobrindo por acaso um composto inédito de ouro e hidrogênio
-
Cientistas descobrem crocodilo gigante que viveu a milhões de anos de mais de 8 metros que reinava nos rios do antigo Quênia e podia caçar os primeiros humanos perto da água
-
Depois de quatro anos sob investigação do Cade, a Apple sinaliza que aceita negociar um acordo para liberar o Pix por aproximação sem cobrança nos iPhones, conforme revelou a coluna de Lauro Jardim no jornal O Globo nesta disputa por concorrência
-
Anvisa manda recolher suplemento popular de magnésio em todo o Brasil e determina suspensão imediata após identificar composto não autorizado pela legislação sanitária
- Secreção ácida para dissolução química
- Microabrasão mecânica (raspagem) para ampliar o túnel
- Fixação permanente, pois ele não sai do buraco onde cresce

O resultado são paredes cheias de orifícios cilíndricos que, quando expostos, lembram favos de abelha — só que em rocha.
Em muitos trechos da costa croata, grega e italiana, o trabalho contínuo desses moluscos ao longo de décadas a séculos transforma paredões em estruturas altamente perfuradas, alterando a rugosidade e a hidrodinâmica costeira.
Impactos ecológicos: quando a bioengenharia vira um problema
A transformação do substrato rochoso não é neutra. Em biologia marinha, substrato é destino: quem vive ali depende da textura, dureza e troca de água. Costões perfurados acumulam sedimentos, mudam a circulação de nutrientes, aumentam micro-habitats para certas espécies e expulsam organismos que dependem de superfície lisa.
Esse processo pode favorecer espécies adaptadas a ambientes cripticos, reduzir macroalgas calcárias e outras que necessitam de base sólida, e até mesmo alterar cadeias tróficas locais. É um ajuste demorado e difícil de reverter — e o problema é amplificado pela pesca humana.
Por que a pesca do dátil-do-mar é tão destrutiva
Para coletar o dátil-do-mar, não se raspa a rocha: se destrói a rocha. Tradicionalmente, pescadores mediterrâneos quebravam costões com martelo, arrancavam blocos inteiro e expunham colônias que levaram décadas ou séculos para se formar.

O resultado: erosão acelerada, perda de biodiversidade, desfiguração costeira e diminuição de produtores primários, já que algas e corais moles dependem de rocha íntegra.
Estudos italianos e croatas mostram que um metro quadrado de rocha destruído pode levar mais de 50 anos para recuperar cobertura biológica, e a recomposição geológica é essencialmente irreversível na escala humana.
O colapso da costa levou países a proibir o consumo
Diante do dano evidente, vários governos do Mediterrâneo proibiram a pesca e o comércio do dátil-do-mar:
- Itália — proibido desde a Lei nº 963/1965 e reforçado por normas posteriores;
- Croácia — consumo e extração criminalizados;
- Espanha — protegido em águas mediterrâneas, com fiscalização costeira;
- Grécia — extração considerada destrutiva e ilegal.
Em alguns lugares, vender ou servir dátil-do-mar em restaurantes pode resultar em multas elevadas, fechamento de estabelecimentos, e até mesmo em processos ambientais. A União Europeia também o classifica como espécie de interesse de conservação, dada a vulnerabilidade dos costões calcários mediterrâneos.
O papel da ciência: o Mediterrâneo como laboratório de bioengenharia
Pesquisas italianas, croatas, espanholas e da Marine Biology Journal analisam o dátil-do-mar como modelo de bioerosão química, interação rocha-organismo e engenharia ecológica de longo prazo.

Laboratórios de zoologia e geologia marinha tratam o molusco como um engenheiro do ecossistema, na mesma categoria conceitual de castores, formigas cortadeiras e anfípodes construtores de tubos — com a diferença que este engenheiro trabalha com ácido.
O paradoxo do dátil-do-mar
- Biologicamente, é uma obra-prima evolutiva: um molusco capaz de viver escondido, protegido e estável por décadas;
- Ecologicamente, é um agente de transformação: perfura substratos, cria micro-habitats e altera paisagens submersas;
- Culturalmente, tornou-se uma iguaria que destrói o ambiente quando coletada.
Esse paradoxo — biologia fascinante + impacto humano destrutivo — fez o dátil-do-mar se tornar um símbolo ambiental em países mediterrâneos.

Não tem como criar em laboratórios ou fazendas marinhas como se faz com mexilhões?