Projeto em Ulleungdo mobiliza estruturas colossais de concreto lançadas ao mar para criar a fundação de um aeroporto construído sobre área aterrada, em uma das operações marítimas mais complexas já realizadas pela engenharia sul-coreana em águas profundas e sujeitas a ondas extremas.
A instalação de 30 caixões gigantes de concreto no mar marcou uma nova etapa da construção do Aeroporto de Ulleung, projeto que transformou a engenharia costeira em peça central para viabilizar uma pista em uma ilha sem áreas planas suficientes para receber esse tipo de estrutura.
Localizada no leste da Coreia do Sul, Ulleungdo depende historicamente de conexões marítimas e possui relevo montanhoso, condição que levou os engenheiros a avançarem sobre o mar para criar uma área aterrada capaz de acomodar uma pista de 1.200 metros.
De acordo com a DL E&C, responsável pelo empreendimento, o último caixão foi instalado em 8 de maio de 2025, encerrando uma sequência de operações iniciada em maio de 2022, quando a primeira estrutura começou a ser posicionada na área da obra.
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Como a Coreia do Sul criou a base do aeroporto no mar

Tradicionalmente empregados em quebra-mares e estruturas portuárias, os caixões funcionam como enormes blocos de concreto armado criados para conter o avanço da água e permitir a recuperação de áreas marítimas destinadas à construção pesada.
No projeto de Ulleung, essas estruturas passaram a formar a base da futura pista do aeroporto, permitindo o preenchimento interno da área aterrada em uma região cercada por águas profundas e condições oceânicas consideradas severas.
Entre os modelos utilizados na obra, o maior deles alcança 28 metros de altura, 32 metros de largura e 38 metros de comprimento, além de atingir peso máximo de 16.400 toneladas, dimensão incomum até mesmo para grandes projetos marítimos sul-coreanos.
Como a instalação ocorreu em águas com aproximadamente 30 metros de profundidade, cada etapa exigiu alinhamento preciso das peças e controle técnico constante para evitar deslocamentos durante o posicionamento definitivo no fundo do mar.
Antes do afundamento controlado dos caixões, a equipe responsável pela obra preparou o leito submarino com cerca de 60 mil toneladas de rochas, criando uma camada de estabilização capaz de suportar o peso das estruturas de concreto.
Como as pedras apresentavam formatos irregulares, mergulhadores trabalharam no preenchimento manual dos espaços vazios entre os materiais, etapa considerada essencial para aumentar a estabilidade da fundação e reduzir riscos de acomodação futura no terreno submerso.
Transporte dos caixões exigiu operação inédita

Fabricados no porto de Yeongilman, na cidade de Pohang, os caixões foram transportados individualmente por mar até Ulleungdo em uma rota de aproximadamente 210 quilômetros, considerada a mais longa já utilizada nesse tipo de operação na Coreia do Sul.
Segundo a DL E&C, as viagens acumuladas chegaram a cerca de 6.300 quilômetros, refletindo o peso logístico de deslocar estruturas desse porte em uma região sujeita a mudanças frequentes nas condições marítimas.
Além da distância, o transporte dependia de uma combinação rara de estabilidade climática e baixo nível de agitação marítima, já que as ondas precisavam permanecer abaixo de 1,5 metro durante pelo menos cinco dias consecutivos para garantir segurança à operação.
As condições naturais de Ulleungdo também influenciaram diretamente o desenho das estruturas utilizadas na obra, levando a empresa a desenvolver um modelo inspirado em favos capaz de dissipar parte da energia das ondas.
Enquanto os espaços internos ajudam a reduzir o impacto da força marítima, o formato curvo adotado nos blocos aumenta a resistência contra a pressão exercida pelo mar em períodos de instabilidade climática mais intensa.
De acordo com a DL E&C, o sistema foi projetado para suportar ondas de até 22,6 metros, índice associado a cenários extremos considerados raros para a região, mas possíveis dentro dos parâmetros de segurança utilizados no projeto.
Aeroporto de Ulleung deve reduzir viagem para uma hora
Com área total prevista de 430.455 metros quadrados, o Aeroporto de Ulleung foi contratado no modelo turnkey, formato em que a mesma empresa concentra responsabilidades ligadas ao projeto, fornecimento de materiais e execução das obras.
As obras começaram em julho de 2020 e já haviam alcançado 61% de execução quando a instalação do último caixão foi concluída, abrindo caminho para as próximas etapas de aterro marítimo e consolidação da pista.

A expectativa da DL E&C é finalizar o empreendimento em 2028, depois da conclusão das fases de recuperação de terreno, construção operacional da pista e implantação das demais estruturas ligadas ao terminal.
Quando entrar em operação, o aeroporto deverá reduzir o tempo de deslocamento entre Seul e Ulleungdo de aproximadamente sete horas para cerca de uma hora, alterando de forma significativa a logística de acesso à ilha.
A nova infraestrutura tende a impactar o transporte de moradores, a circulação turística e o acesso regional a serviços, especialmente porque Ulleungdo depende historicamente de conexões marítimas sujeitas às condições climáticas.
Embora o impacto regional seja um dos principais objetivos do projeto, o aspecto que mais despertou atenção internacional foi justamente o uso de estruturas marítimas gigantescas para criar uma pista em uma área onde praticamente não existia espaço disponível para construção.
Engenharia marítima virou destaque internacional
Sem recorrer à ampliação de pistas já existentes ou à ocupação de áreas naturalmente planas, o projeto sul-coreano avançou sobre o mar para criar sua própria base estrutural a partir de uma sequência de caixões gigantes instalados no fundo oceânico.
Ao reunir técnicas de engenharia costeira, fundações marítimas e recuperação artificial de terreno em uma única operação, a obra passou a ser tratada como um dos exemplos mais incomuns de adaptação geográfica aplicada à infraestrutura aeroportuária recente.

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