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Coreia do Norte enfrenta congestionamentos pela primeira vez na história e moradores de Pyongyang já têm dificuldade para estacionar, com placas amarelas de carros particulares por toda parte e analistas estimando que o número de veículos privados pode passar de 20 mil no próximo ano

Publicado em 14/05/2026 às 01:32
Atualizado em 14/05/2026 às 01:34
Assista o vídeoA Coreia do Norte enfrenta congestionamentos pela primeira vez em Pyongyang, com placas amarelas de carros particulares por toda parte. Analistas estimam que os veículos privados podem passar de 20 mil no próximo ano. A maioria vem da China.
A Coreia do Norte enfrenta congestionamentos pela primeira vez em Pyongyang, com placas amarelas de carros particulares por toda parte. Analistas estimam que os veículos privados podem passar de 20 mil no próximo ano. A maioria vem da China.
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A Coreia do Norte está enfrentando congestionamentos pela primeira vez nas ruas de Pyongyang, com carros particulares identificados por placas amarelas se multiplicando pela capital. Analistas estimam que o número de veículos privados pode ultrapassar 20 mil no próximo ano, e a maioria dos automóveis vem da China por canais informais ao longo dos 1.400 quilômetros de fronteira entre os dois países, apesar das sanções da ONU.

A Coreia do Norte, um dos países mais isolados e sancionados do planeta, está vivendo algo que poucos analistas previram: uma revolução automobilística. Segundo a Reuters, as ruas de Pyongyang, que até recentemente eram reconhecidas internacionalmente por estarem praticamente desertas, agora registram congestionamentos nos principais cruzamentos, com carros estacionados em frente a hotéis, mercados e centros de entretenimento. Visitantes recentes relatam dificuldade para encontrar vaga no centro da capital, e imagens de satélite analisadas pela Reuters confirmam o aumento visível do tráfego e do número de veículos ao redor de locais como o Hotel Taedonggang e o Mercado Rakrang.

O fotógrafo singapuriano Aram Pan, que administra uma conta no Instagram focada na Coreia do Norte e já visitou o país 20 vezes, disse ter ficado surpreso ao se ver preso em um engarrafamento em Pyongyang durante sua visita em outubro. “As principais vias se tornaram pontos de congestionamento simplesmente porque agora há carros demais”, afirmou Pan, que relatou ter visto mais de cem veículos com placas amarelas, a identificação destinada a carros de propriedade privada. Tradicionalmente, as placas em Pyongyang eram azuis ou pretas, indicando veículos estatais ou militares. As amarelas, agora onipresentes, sinalizam uma mudança que vai além do trânsito.

Placas amarelas por toda parte: o que mudou na Coreia do Norte

Muitos dos carros que congestionam as ruas de Pyongyang são de marcas chinesas. Uma captura de tela de um vídeo divulgado nas redes sociais em março (à esquerda), e verificada pela Reuters, mostra um SUV Li Auto L9 com uma placa amarela de cinco dígitos, indicando propriedade privada.

O crescimento do número de carros particulares na Coreia do Norte está ligado a mudanças na legislação promovidas nos últimos dois anos. O governo formalizou a propriedade de carros particulares, permitindo que motoristas habilitados comprem um veículo por família por meio de concessionárias certificadas pelo Estado. A medida transformou o que antes era um comércio clandestino em uma atividade regulamentada, com veículos vendidos por empresas estatais, manutenção realizada por prestadores credenciados e abastecimento em postos oficiais.

Não era difícil encontrar estacionamento perto do Hotel Taedonggang em Pyongyang em 5 de janeiro de 2024 (esquerda), como mostram imagens de satélite. Mas em 28 de janeiro deste ano (direita), seria mais difícil encontrar uma vaga – e o trânsito nas ruas ao redor estava visivelmente mais intenso. Planet Labs PBC/Divulgação via REUTERS

Peter Ward, pesquisador do Instituto Sejong em Seul, afirma que a política automotiva de Kim Jong Un faz parte de um esforço mais amplo para colocar a atividade econômica privada sob controle estatal. “Dessa forma, estimula o consumo e também regulariza o que antes era um comércio ilegal em expansão”, explicou Ward à Reuters. Possuir um carro ainda é privilégio da elite e da classe empreendedora conhecida como donju, mas as placas amarelas com números na casa das dezenas de milhares indicam que o acesso está se expandindo.

De onde vêm os carros que congestionam Pyongyang

As sanções da ONU proíbem a exportação de veículos para a Coreia do Norte desde dezembro de 2017. Oficialmente, a China exportou apenas dois veículos para o país no ano passado, segundo dados alfandegários, contra mais de 3.200 no ano em que a proibição entrou em vigor. Mas as ruas de Pyongyang contam uma história diferente: imagens verificadas pela Reuters mostram veículos das marcas chinesas Changan, Chery e Geely, além de modelos europeus como BMW e Audi, estacionados em frente a oficinas mecânicas e circulando pela capital.

A explicação está nos canais informais ao longo dos 1.400 quilômetros de fronteira entre a Coreia do Norte e a China. Segundo fontes ouvidas pela Reuters, carros passam por várias mãos antes de cruzar a fronteira, com contrabandistas experientes cuidando da entrega final. Lu Ming, vendedor de carros usados na província de Jilin, no nordeste chinês, confirmou que alguns veículos que vendeu acabaram na Coreia do Norte, embora ele não negocie diretamente com os importadores. Os preços variam entre US$ 5.000 e US$ 30.000, conforme o modelo e a condição do veículo.

Os dados que revelam a demanda invisível

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Embora a exportação de carros seja proibida, os dados alfandegários chineses revelam um aumento expressivo nas remessas de produtos relacionados a automóveis para a Coreia do Norte. Os embarques de pneus novos para carros de passeio subiram para quase 193 mil unidades em 2025, alta de 88% em relação às médias anteriores à pandemia. As exportações de espelhos retrovisores quase quadruplicaram e os embarques de óleo lubrificante e graxa aumentaram mais de 150%.

Esses números funcionam como indicadores indiretos de uma frota em crescimento. Pneus se desgastam, espelhos quebram e motores precisam de lubrificação. O volume de peças e insumos exportados pela China para a Coreia do Norte é proporcional à quantidade de veículos em circulação, e a escalada nesses números desde 2024 confirma que o boom automobilístico em Pyongyang não é impressão de visitantes, mas uma tendência mensurável.

Kim Jong Un na oficina mecânica

O próprio líder da Coreia do Norte sinalizou seu apoio à cultura automobilística emergente. Em abril, Kim Jong Un visitou uma oficina mecânica em Pyongyang, onde inspecionou vários veículos cujas marcas e modelos estavam discretamente cobertos por um pano prateado. A visita, registrada pela agência estatal KCNA, funciona como endosso oficial a um setor que até recentemente operava na informalidade.

O gesto de cobrir as marcas dos carros durante a inspeção de Kim é revelador. Mostra que o governo está ciente de que os veículos são importados de forma irregular e que exibi-los abertamente criaria um constrangimento diplomático com a China e com o Conselho de Segurança da ONU. Mas a presença de Kim na oficina, acompanhado da filha Kim Ju Ae, também sinaliza que o governo não pretende reprimir a tendência: pelo contrário, quer institucionalizá-la.

Estacionamento subterrâneo e estações de recarga

A infraestrutura urbana de Pyongyang está se adaptando ao aumento de veículos na Coreia do Norte. A mídia estatal mostrou Kim visitando um novo hospital que possui estacionamento subterrâneo, uma característica incomum na capital, segundo um empresário estrangeiro que visita o país regularmente. Estacionar no centro de Pyongyang já se tornou difícil, com vagas sendo administradas informalmente por pessoas que cobram taxas.

Estações de recarga para veículos elétricos também começaram a surgir, inicialmente para atender táxis elétricos. A presença de infraestrutura para veículos elétricos em um dos países mais isolados do mundo indica que parte dos carros que entram na Coreia do Norte são modelos eletrificados chineses, que dominam o mercado global de veículos elétricos de baixo custo. Para a Coreia do Norte, que enfrenta escassez crônica de combustíveis fósseis, veículos elétricos podem ser uma alternativa mais viável do que carros a gasolina.

A dependência chinesa que cresce com cada carro novo

O boom automobilístico na Coreia do Norte aprofunda a dependência do país em relação à China. A maioria dos veículos que circulam em Pyongyang são de marcas chinesas, as peças de reposição vêm da China e a fronteira de 1.400 quilômetros é o corredor por onde tudo entra. Cada carro a mais nas ruas da capital é um vínculo a mais com Pequim, uma dinâmica que analistas consideram estrategicamente significativa em um momento de intensificação da aliança militar e política entre os dois países.

A Coreia do Norte enfrenta congestionamentos, tem dificuldade para estacionar e vê placas amarelas se espalharem por Pyongyang como símbolo de uma classe que pode comprar o que antes era exclusividade do Estado. Analistas estimam que o número de veículos privados pode ultrapassar 20 mil no próximo ano. Para um país que até ontem era sinônimo de ruas vazias, a revolução automobilística de Kim Jong Un é tão surpreendente quanto reveladora.

Você imaginava que a Coreia do Norte enfrentaria congestionamentos e problemas de estacionamento? Conte nos comentários o que achou dessa transformação, como avalia o papel da China no boom automobilístico de Pyongyang e se acredita que as sanções da ONU são eficazes quando as ruas dizem o contrário. Queremos ouvir a sua análise.

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LLSoares
LLSoares
16/05/2026 02:10

Vale salientar que esse mercado é restrito à classe abastada do país que é minoria. A imagem de ruas congestionadas com carros modernos e elétricos, contribui para a imagem de certa “saúde” econômica e acesso à bens pela população que o governo quer passar; no entanto, a esmagadora maioria da população passa fome e tem dificuldade de acesso até a energia elétrica.

J. Barros
J. Barros
14/05/2026 20:48

O processo ê de evolução, um país não pode se manter sem os mercados globais, mas antes de evoluir comerciante, precisa acabar com essa doença chamada de **** e tirania por parte do seu mandatário

Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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