A Associação Amigos de Nova Roma do Sul ergueu a ponte Nossa Senhora de Caravaggio com Pix, festas de capela, rifa dos vereadores e doações de empresas, gastando R$ 5,72 milhões de um orçamento de R$ 6 milhões
Enquanto obras públicas se arrastam por anos, uma cidade da Serra Gaúcha resolveu o próprio problema em 138 dias e com dinheiro de vaquinha. Segundo o Gaúcha, em entrevista de 22 de janeiro de 2024 no programa Gaúcha Atualidade, a comunidade de Nova Roma do Sul arrecadou mais de R$ 7 milhões e entregou a ponte Nossa Senhora de Caravaggio, reconstruída no lugar da estrutura centenária que as águas levaram em 4 de setembro de 2023.
O espírito da empreitada coube numa frase do presidente da associação, Tranquilo Tessaro. Se a geração atual não tivesse coragem de construir a ponte, seria covarde, porque 93 anos antes os antepassados ergueram uma sem nenhum dos recursos de hoje, conforme o Gaúcha registra. A obra foi entregue num sábado de festa, abaixo do orçamento e antes de qualquer previsão oficial.
A queda em 4 de setembro e a decisão de não esperar
A ponte não era um luxo, era a artéria da cidade. Segundo a ULBRA TV, em reportagem do programa Fala Rio Grande de 23 de janeiro de 2024, a estrutura sobre o Rio das Antas, na RS-448, liga a cidade a Farroupilha, município que é referência de saúde para os moradores, e o trânsito ficou bloqueado pelos mesmos 138 dias que separaram a queda da inauguração.
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A reação começou no dia seguinte ao desastre. As lideranças do município passaram a se reunir imediatamente, e duas semanas depois da queda nasceu a associação de amigos da cidade, conforme a ULBRA TV, com uma missão declarada: refazer no menor prazo possível a ligação da qual dependiam a economia local e o acesso à saúde. Na entrevista ao Gaúcha, o presidente resumiu: a cidade não se imaginava vivendo 6 meses ou 1 ano sem a ponte.
As 4 metas: Pix, festas de capela, rifa e empresas

A arrecadação virou um plano com metas de empresa. Segundo a ULBRA TV, o tesoureiro Heleno detalhou as quatro frentes: a conta Pix divulgada para o Brasil inteiro, com meta de R$ 1 milhão, fechou em cerca de R$ 820 mil, somando até rifas improvisadas por donos de bar; as festas de capela, tradição da cidade católica, passaram a destinar 100% do lucro à ponte e renderam cerca de R$ 620 mil, com festas que saltaram de 300 para 800 participantes.
As frentes maiores vieram do setor produtivo e de uma surpresa. A rifa organizada pelos 9 vereadores vendeu 1.900 dos 10 mil números a R$ 1.000 cada até a véspera da inauguração, e a meta de R$ 2 milhões em doações de empresas passou de R$ 3 milhões, conforme a ULBRA TV, completada pelo aporte de R$ 300 mil da cooperativa Sicredi, o empurrão surpresa que ajudou a fechar a conta, como o presidente contou ao Gaúcha. Os depósitos pequenos também contaram: houve Pix de R$ 10 e até de centavos, todos agradecidos um a um.
R$ 5,72 milhões gastos de um orçamento de R$ 6 milhões
O resultado financeiro envergonharia muita licitação. Segundo o Gaúcha, a associação estipulou a obra em R$ 6 milhões e fechou a conta em R$ 5,72 milhões, mesmo tendo feito mais do que o combinado: cabeceiras, entradas, concretagem completa e as proteções externas da ponte, itens que nem estavam no orçamento original.
A arrecadação, por sua vez, superou tudo. Com as últimas doações de empresas sinalizadas, o total deve chegar perto de R$ 8,7 milhões, cerca de R$ 3 milhões acima do custo da obra, conforme a ULBRA TV. É a inversão completa do roteiro clássico das obras brasileiras: na serra, sobrou dinheiro e faltou burocracia.
O içamento na noite de Natal, com turnos de 36 horas

O cronograma físico foi uma corrida contra o rio. Segundo a ULBRA TV, as primeiras estruturas metálicas chegaram em 15 de novembro, e o canteiro conviveu com um risco permanente: em 17 de novembro, uma cheia igual à que derrubou a ponte voltou a passar pelo Rio das Antas, e chegou a levar o vestiário e os banheiros dos trabalhadores montados na margem.
O momento decisivo tinha data simbólica. O içamento começou em 23 de dezembro com dois guindastes, um deles posicionado quase no nível do rio, e a ponte foi erguida na noite de Natal, com trabalhadores emendando turnos de 36 horas, conforme a ULBRA TV relata. A pressa tinha justificativa financeira além da urgência: qualquer chuva poderia alcançar um guindaste avaliado em R$ 20 milhões estacionado na cota baixa do rio.
A sobra milionária que os 200 associados vão decidir
O destino do excedente já tem dono: a própria comunidade. Segundo a ULBRA TV, a associação tem cerca de 200 associados, todos obrigatoriamente moradores da cidade, e são eles que vão votar em assembleia onde aplicar a sobra, em obras comunitárias que a diretoria vai propor.
A regra de pertencimento é levada a sério. Quem não reside na cidade não pode se associar, e a associação promete continuar viva depois da ponte, conforme a ULBRA TV registrou na entrevista com o tesoureiro. Ao Gaúcha, o presidente confirmou o mesmo desenho: reuniões com a comunidade decidirão onde cada real restante será aplicado.
O que o poder público fez, e o recado dos organizadores
A associação faz questão de registrar que não trabalhou contra o Estado. Segundo a ULBRA TV, o governo estadual destinou a ponte ao município, que a repassou à associação, e a Fepam emitiu portaria dispensando por um ano a licença ambiental para reconstrução de pontes levadas pela enchente de 4 de setembro, o que destravou o cronograma.
O contraste, porém, virou discurso de inauguração. O mesmo projeto de uma ponte ligando Nova Roma a Veranópolis espera há mais de 300 dias só a emissão da licença ambiental, e o governo prometia a reconstrução estatal apenas para 31 de dezembro de 2024, conforme a ULBRA TV registrou na fala da inauguração, que terminou com o recado aos parlamentares: fica o exemplo, o Brasil tem jeito, e a mudança começa por nós.
Por que a ponte comunitária virou símbolo
O caso de Nova Roma do Sul reúne os ingredientes que transformam obra em história: um desastre com data, uma comunidade pequena com cultura associativa forte, metas públicas de arrecadação e um cronograma que não dependia de orçamento público. A engenharia ajudou, mas o diferencial foi de gestão: cada frente de arrecadação tinha responsável, meta e prestação de contas no dia da entrega.
Há também um alerta embutido que os próprios organizadores fazem. O modelo funcionou porque a Fepam dispensou a licença e porque o Estado repassou a titularidade da obra; sem esses destravamentos, nem toda a coragem da serra ergueria a ponte em 138 dias. A vaquinha não substitui o poder público, ela expõe o tamanho da distância entre o ritmo da comunidade e o ritmo da máquina estatal.
Assista às entrevistas da ponte comunitária
Os dois vídeos contam a história completa: a entrevista de Tranquilo Tessaro ao Gaúcha Atualidade e a reportagem da inauguração com o tesoureiro Heleno no Fala Rio Grande.
A ponte Nossa Senhora de Caravaggio ficou pronta com dinheiro de Pix de centavos, festa de capela e rifa de vereador, e entrou para a lista das obras mais rápidas do Rio Grande do Sul pós-enchente. Conta pra gente nos comentários: a tua cidade toparia construir uma ponte no braço como Nova Roma do Sul fez?

