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Cansadas de ver a moradia virar luxo, duas estudantes de engenharia ergueram sobre um reboque uma microcasa off-grid do tamanho de um ônibus escolar com captação de chuva, turbina eólica e painel solar e vão publicar o passo a passo de graça

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 03/07/2026 às 23:27 Atualizado em 03/07/2026 às 23:29
Estudantes da UBC, no Canadá, constroem uma microcasa off-grid do tamanho de um ônibus escolar contra a crise de moradia, e vão publicar o projeto de graça.
Estudantes da UBC, no Canadá, constroem uma microcasa off-grid do tamanho de um ônibus escolar contra a crise de moradia, e vão publicar o projeto de graça.
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Diante da crise de moradia, o time de estudantes da UBC, no Canadá, liderado pelas engenheiras Isabella Ma e Veronica Ehrensperger, constrói sobre um reboque uma microcasa off-grid do tamanho de um ônibus escolar, com captação de chuva, turbina eólica e painel solar. E prometem publicar o passo a passo de graça.

Um grupo de universitários resolveu enfrentar a crise habitacional com engenharia e generosidade. Na UBC, a Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, um time de estudantes está erguendo uma microcasa off-grid sobre um reboque, capaz de se abastecer sozinha de água e energia. O caso foi divulgado pela rede CBC.

O projeto se chama SMRT e tem uma missão ousada. A ideia é criar uma moradia compacta, sustentável e barata, do tamanho de um ônibus escolar, que qualquer comunidade possa copiar. Para isso, o grupo pretende publicar de graça o passo a passo da construção, num blueprint aberto a todos.

Por trás da iniciativa está uma inquietação: ver o teto virar artigo de luxo. Cansadas de acompanhar a alta dos aluguéis e a dificuldade de comprar casa, as engenheiras à frente do time apostam numa microcasa acessível como resposta possível. A seguir, veja quem são elas e como a casa funciona.

Quem está por trás da microcasa: o time da UBC

Os membros da Sustaingineering são estudantes da UBC de diferentes áreas. Fileira de trás (da esquerda para a direita): Ellie Smith, Johan Gavin, Isabella Ma, Cara Chapman. Fileira da frente (da esquerda para a direita): Talia Lemieux, Josephine Sopotiuk, Kyle Wong, Veronica Ehrensperger. (Dannielle Piper/CBC)
Os membros da Sustaingineering são estudantes da UBC de diferentes áreas. Fileira de trás (da esquerda para a direita): Ellie Smith, Johan Gavin, Isabella Ma, Cara Chapman. Fileira da frente (da esquerda para a direita): Talia Lemieux, Josephine Sopotiuk, Kyle Wong, Veronica Ehrensperger. 
(Dannielle Piper/CBC)

Ao contrário do que pode parecer, não se trata de duas pessoas trabalhando sozinhas. A microcasa é obra da UBC Sustaingineering, uma equipe de tecnologia de energia limpa formada por dezenas de estudantes de diferentes áreas da universidade. O grupo chega a reunir entre 40 e 60 integrantes.

À frente do time estão duas engenheiras. Isabella Ma e Veronica Ehrensperger atuam como co-capitãs da Sustaingineering e ajudam a coordenar o projeto, com apoio do professor orientador Martin Ordonez. É esse conjunto de mãos e cabeças que faz a moradia sair do papel.

A motivação do grupo é bem concreta. Segundo a CBC, o projeto responde às crises do clima e da moradia, propondo uma opção habitacional acessível e modular. Em um cenário de aluguéis caros e casas fora do alcance, a microcasa off-grid surge como uma tentativa de solução.

Trabalhar em equipe também é parte do aprendizado. Reunir tantos estudantes de cursos distintos, da engenharia elétrica à mecânica, transforma a microcasa em um grande laboratório prático. Cada etapa vira uma aula de como aplicar teoria na construção de algo real e útil.

Times de projeto como esse são comuns em grandes universidades. Reunindo estudantes voluntários em torno de um objetivo real, eles funcionam como pequenas empresas de engenharia dentro do campus. Na UBC, a Sustaingineering usa a microcasa para formar futuros profissionais em energia limpa e construção sustentável.

O que é a SMRT, a microcasa off-grid sobre um reboque

A mini casa da SMRT será construída sobre a carroceria de um reboque para facilitar a mobilidade. (Dannielle Piper/CBC)
A mini casa da SMRT será construída sobre a carroceria de um reboque para facilitar a mobilidade. 
(Dannielle Piper/CBC)

O nome do projeto resume sua proposta. SMRT é a sigla em inglês para “banco de testes móvel e sustentável”, ou seja, uma microcasa pensada para funcionar como um protótipo que pode se deslocar. Por isso, ela é construída sobre a base de um reboque, e não sobre um terreno fixo.

As dimensões dão a medida da ousadia. A moradia ocupa uma área de cerca de 8 por 22 pés, o equivalente a mais ou menos 2,4 metros de largura por 6,7 metros de comprimento. Na prática, é o tamanho de um ônibus escolar curto, transformado em uma casa completa.

Ser montada sobre um reboque traz vantagens claras. A microcasa pode ser rebocada e instalada em diferentes locais, o que a torna flexível e ideal para testes em campo. Essa mobilidade é justamente o que a diferencia de uma construção tradicional presa ao chão.

O caráter modular também está no centro do projeto. A ideia é que a microcasa off-grid funcione como um modelo replicável, e não como uma peça única. Se der certo, o mesmo desenho poderá ser copiado e adaptado por outras pessoas em outros lugares.

Chamar o projeto de “banco de testes” não é por acaso. A microcasa serve para medir, na prática, o desempenho da captação de água e do sistema de energia em condições reais, algo que os estudantes só conseguem avaliar construindo de verdade. Cada dado coletado ajuda a aperfeiçoar o desenho antes de abri-lo ao público.

Chuva, vento e sol: a casa que se abastece sozinha

Imagem protótipo do projeto habitacional SMRT, econômico e sustentável, da Universidade da Colúmbia Britânica, desenvolvido pelo departamento de Sustainineering. 
(Enviado por Isabella Ma) imagem do site: CBC
Imagem protótipo do projeto habitacional SMRT, econômico e sustentável, da Universidade da Colúmbia Britânica, desenvolvido pelo departamento de Sustainineering. 
(Enviado por Isabella Ma) imagem do site: CBC&Magazine

O grande trunfo da microcasa é a independência. Sendo off-grid, ela foi pensada para funcionar sem depender da rede elétrica nem do encanamento público, gerando a própria energia e captando a própria água. É autossuficiência levada a sério.

A água vem do céu. A microcasa conta com um sistema de captação de água da chuva, que recolhe e armazena o que cai sobre a estrutura para uso doméstico. Em vez de depender de tubulação externa, a casa aproveita um recurso natural e gratuito.

A energia combina duas fontes limpas. O projeto usa um sistema híbrido de energia renovável, que reúne uma turbina eólica e painéis solares para gerar e armazenar eletricidade. Assim, tanto o vento quanto o sol ajudam a manter a microcasa funcionando ao longo do dia e da noite.

Essa eletricidade dá conta do essencial. Com a energia gerada, a moradia consegue alimentar itens básicos do dia a dia, como uma pequena geladeira e um fogão elétrico simples. Não é para grandes luxos, mas para garantir o conforto necessário em uma casa compacta e sustentável.

Combinar vento e sol em uma casa pequena é um baita desafio técnico. As duas fontes nem sempre estão disponíveis ao mesmo tempo, então o sistema off-grid precisa armazenar bem a energia em baterias e equilibrar a geração. É aí que entra o conhecimento de engenharia elétrica do time da UBC.

Do tamanho de um ônibus escolar: como é o projeto

Apesar de pequena, a microcasa foi planejada para ser funcional. No espaço enxuto, o ambiente principal reúne sala e cozinha em uma área integrada, com lugar para uma cama. Tudo é pensado para aproveitar cada centímetro da estrutura sobre o reboque.

A lógica é fazer muito com pouco. Em vez de cômodos separados, a moradia aposta em um espaço multiuso, típico das chamadas tiny houses, as minicasas que viraram tendência mundial. O desafio de engenharia é encaixar conforto e utilidade em poucos metros quadrados.

A mobilidade amplia as possibilidades de uso. Por caber em um reboque, a microcasa off-grid pode servir como moradia temporária, abrigo em emergências ou até espaço de trabalho remoto em áreas isoladas. A mesma estrutura ganha várias funções conforme a necessidade.

Vale lembrar que se trata de um modelo de testes. Mais do que uma casa para morar de imediato, a SMRT é um protótipo que serve para estudar, na prática, o que funciona e o que precisa melhorar. As lições tiradas dali é que vão alimentar o projeto aberto ao público.

As minicasas viraram fenômeno mundial na última década. Impulsionadas pelo custo alto dos imóveis e pela busca por uma vida mais simples, elas provam que dá para morar bem em pouco espaço. A microcasa da UBC leva essa ideia adiante ao somar, ao tamanho reduzido, a autonomia off-grid.

O passo a passo de graça: o blueprint open source

O ponto mais generoso do projeto é o compromisso de compartilhar tudo. Quando a microcasa estiver pronta, o time da UBC pretende divulgar gratuitamente o blueprint, ou seja, as plantas e o passo a passo da construção, para que qualquer pessoa possa reproduzir a ideia.

A proposta é claramente inspirada na cultura livre. Segundo a CBC, os estudantes querem que outras comunidades copiem o desenho e construam suas próprias casas sustentáveis. Em vez de patentear e vender, o grupo aposta em espalhar o conhecimento sem cobrar por ele.

Esse modelo tem um potencial enorme de impacto. Um projeto aberto permite que grupos comunitários, ONGs e famílias de baixa renda em vários países adaptem a microcasa à sua realidade, usando materiais locais. A ideia deixa de ser exclusiva e vira patrimônio coletivo.

É essa filosofia que dá sentido ao esforço. Ao abrir o projeto, os estudantes transformam uma moradia universitária em uma ferramenta contra a crise habitacional global. O blueprint gratuito é, talvez, a parte mais valiosa de toda a invenção.

A lógica do código aberto já transformou a tecnologia. De softwares livres a projetos de hardware compartilhados, a ideia de abrir o conhecimento acelera a inovação no mundo todo. Aplicar isso à moradia, com o blueprint gratuito da microcasa, pode ter um efeito parecido na área da habitação.

Contra a moradia que virou luxo

O pano de fundo de tudo é a crise de habitação. Em muitas cidades do mundo, incluindo o Canadá, o preço dos aluguéis e das casas disparou, empurrando o sonho da moradia própria para longe de boa parte das pessoas. Foi essa realidade que motivou o time.

O Canadá vive uma das piores crises de moradia de sua história recente. Em cidades como Vancouver, onde fica a UBC, comprar ou alugar tornou-se proibitivo para muita gente, o que ajuda a explicar por que os estudantes decidiram atacar o problema com as próprias mãos.

A aposta é baratear ao máximo. Uma microcasa off-grid, feita para ser simples e replicável, tenta reduzir o custo da habitação, tanto na construção quanto no uso, já que dispensa contas de luz e água. Menos despesa fixa significa mais gente conseguindo um teto.

Sobre o preço, é preciso ter cuidado com os números. Segundo uma estimativa divulgada pela CBC em 2025, a construção da microcasa ficaria entre 20 mil e 30 mil dólares canadenses. É um valor que pode variar conforme materiais e mão de obra, e que deve ser encarado como referência, não como preço fechado.

Ainda assim, o recado é poderoso. Mostrar que dá para erguer uma moradia sustentável por uma fração do preço de uma casa comum já muda a conversa. A microcasa da UBC funciona como prova de conceito de que habitação digna não precisa ser sinônimo de luxo.

Vale notar que a ideia não interessa só a quem tem pouco. Uma microcasa off-grid também atrai quem busca um refúgio sustentável, um escritório extra ou uma segunda moradia barata, o que amplia o alcance do projeto para além da crise habitacional.

Um protótipo ainda em construção

É importante deixar claro que a casa ainda não está pronta. Trata-se de um projeto em andamento, tocado por estudantes que se dividem entre as aulas e a obra. A construção começou em novembro de 2024, com encontros que muitas vezes acontecem apenas uma vez por semana.

O ritmo reflete a rotina universitária. Por conta da agenda cheia de provas e trabalhos, o time avança aos poucos, sem a velocidade de uma empresa de construção. Mesmo assim, a microcasa vai ganhando forma etapa por etapa, do reboque à estrutura.

Segundo a UBC, em 2026 a equipe ainda erguia a estrutura da microcasa, montando a base e o esqueleto da casa antes dos acabamentos. O projeto também deve mudar de local dentro do campus conforme avança, reforçando o caráter móvel da moradia.

As próprias engenheiras encaram os obstáculos com bom humor. “Mas a gente sempre dá um jeito”, resumiu Isabella Ma sobre resolver problemas. Já Veronica Ehrensperger comparou a obra a um passatempo: “É meio como um quebra-cabeça, e eu gosto muito de quebra-cabeças.” O espírito de equipe move a microcasa off-grid adiante.

Errar e corrigir faz parte do processo. Ao construir de verdade, os estudantes descobrem falhas que nenhum cálculo no papel revelaria, e é justamente essa experiência que dá valor ao projeto. Quando o blueprint sair, virá temperado por acertos e tropeços reais da obra da microcasa.

O que isso tem a ver com o Brasil

A crise de moradia que motivou o projeto é bem conhecida no Brasil. O país tem um déficit habitacional de milhões de casas, com muita gente vivendo em condições precárias ou comprometendo boa parte da renda com aluguel. Soluções baratas e criativas despertam grande interesse por aqui.

As tiny houses e as casas off-grid já ganham espaço no país. Cresce o número de brasileiros que apostam em microcasas, casas sobre rodas e sistemas de energia solar e captação de chuva, seja por economia, seja por um estilo de vida mais sustentável. O modelo da UBC dialoga com esse movimento.

Já existem iniciativas brasileiras nesse caminho. Universidades e coletivos testam casas populares, sistemas de captação de chuva e energia solar em comunidades, muitas vezes em parceria com os próprios moradores. O que costuma faltar é a escala e a divulgação aberta que o projeto da microcasa off-grid da UBC propõe.

A ideia de um projeto aberto também tem apelo especial. Em um país desigual, disponibilizar de graça o passo a passo de uma moradia acessível poderia ajudar comunidades, mutirões e famílias a construir com orientação técnica. Conhecimento livre é uma forma concreta de democratizar a habitação.

Por fim, há a inspiração para a engenharia jovem brasileira. Assim como os estudantes da UBC, universitários do Brasil poderiam transformar projetos de faculdade em respostas reais para problemas sociais. A microcasa off-grid mostra que sala de aula e impacto social podem andar juntos.

E você, moraria numa microcasa off-grid como essa?

O projeto da UBC prova que engenharia e solidariedade podem caminhar lado a lado. Um time de estudantes, liderado por duas engenheiras cansadas de ver a moradia virar luxo, está construindo uma microcasa off-grid do tamanho de um ônibus escolar, com chuva, vento e sol, e promete entregar o passo a passo de graça para o mundo copiar.

E você, moraria em uma microcasa sustentável que gera a própria energia e capta a própria água? Conta aqui nos comentários o que achou da ideia dos estudantes e se acredita que projetos abertos como esse poderiam ajudar a enfrentar a crise de moradia no Brasil.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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