O método de produção de carvão vegetal conhecido nas Filipinas como forno pugon mostra como um forno coberto por chapas galvanizadas e selado com terra fina pode entregar bons resultados de queima caseira. A técnica voltou a circular em vídeos como alternativa ao carvão vegetal industrializado em diversos países do mundo.
Em 1997, na comunidade Ulingan, dentro do bairro de Tondo, na capital filipina Manila, cerca de 15 moradores começaram a produzir carvão vegetal em pequenos fornos de terra batizados localmente como pugon, usando madeira descartada coletada por catadores em diferentes pontos da cidade. O método consistia em montar um forno enterrado, cobri-lo com chapas galvanizadas, selar tudo com solo fino e controlar com precisão a entrada de oxigênio durante a queima da madeira até obter o carvão vegetal pronto para venda. A motivação era prática: gerar renda com sobra de madeira e atender à demanda de famílias por combustível barato para cozinhar.
Quinze anos depois, em maio de 2012, o jornal Philippine Daily Inquirer registrou que a mesma comunidade produzia em torno de 6.000 sacos de carvão por mês, processando cerca de 360 toneladas de madeira reaproveitada no período. Naquele momento, a ONG Urban Poor Associates havia anunciado a chegada de fornos pugon sem fumaça, em parceria com a 1M Agro-Fuel Development Ventures e apoio da Arquidiocese de Manila, com o objetivo de reduzir o impacto ambiental e à saúde do processo tradicional. A história ajuda a entender por que o pugon, hoje replicado em tutoriais de internet e adaptado por curiosos no quintal, segue ativo como modelo de produção de carvão vegetal em pequena escala em diferentes regiões do planeta.
Como funciona o forno pugon na produção do carvão vegetal
O princípio físico por trás do pugon é o mesmo de qualquer carvoaria artesanal: a chamada pirólise, processo em que a madeira é aquecida em um ambiente com pouquíssimo oxigênio, perde água e compostos voláteis e se transforma em carvão. Em vez de queimar, a madeira se decompõe lentamente sob calor controlado. O resultado é um material leve, escuro e altamente energético, usado em churrasqueiras, fogões a lenha, defumadores e algumas atividades industriais.
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No formato filipino, o forno costuma ser cavado no chão ou montado com paredes de terra batida e barro, deixando uma entrada de ar em uma das pontas e uma saída de fumaça na outra. As madeiras maiores ficam empilhadas dentro, com galhos finos servindo de acendedores, e o conjunto é coberto por chapas galvanizadas para concentrar o calor. Essa estrutura simples é o que diferencia o carvão vegetal feito em pugon de outros sistemas mais industriais.
O passo a passo do acendimento até a estabilização do fogo
A montagem começa pelas camadas mais finas. Galhos pequenos são colocados na parte inferior, formando uma cama que permite a passagem livre de ar pela base do forno. Acima vão galhos médios, depois as toras maiores, e por fim, junto à entrada de ar, uma porção de gravetos que funciona como acendedor inicial. O fogo é iniciado por essa entrada, e nos primeiros minutos o produtor precisa abanar a abertura para distribuir oxigênio e ajudar as chamas a ganharem corpo.
Quando o fogo está consistente, novas levas de gravetos pequenos são adicionadas para preencher vãos e garantir uma frente de combustão uniforme. Esse é um momento de risco real: chamas podem escapar pela entrada de ar e atingir o operador. Quem produz carvão vegetal em pequena escala precisa trabalhar com roupas de manga longa, calçado fechado, luvas resistentes e um balde de água ou areia ao alcance da mão para conter qualquer princípio de incêndio.
O papel das chapas galvanizadas e da terra fina na vedação
Com a queima estabilizada, entra a etapa que define a qualidade do carvão. O forno é coberto com chapas galvanizadas apoiadas em barras de ferro, formando uma espécie de telhado provisório. Em seguida, todas as frestas entre as chapas e as bordas do forno são vedadas com terra fina ou solo peneirado, com exceção da abertura junto à saída de ar, por onde a fumaça precisa escapar. A vedação correta é o que impede o oxigênio de entrar em excesso e transformar tudo em cinza.
A escolha por solo fino não é estética. Solo grosso ou cheio de pedras deixa microcanais por onde o ar passa, comprometendo a pirólise. Uma camada espessa de terra peneirada, ao contrário, sela o conjunto e força a queima a acontecer com pouco oxigênio, condição necessária para que a madeira vire carvão vegetal de boa densidade em vez de virar pó preto. Quando a fumaça também começa a sair pela abertura de ventilação, uma extensão de tubo é encaixada para conduzir os gases para cima, longe das pessoas e dos vizinhos.
Quanto tempo dura a queima e por que o resfriamento exige 24 horas
O tempo total varia conforme a madeira utilizada. Lenha seca tende a completar a carbonização em torno de 6 a 8 horas, enquanto madeira fresca, com mais umidade, pode levar 12 horas ou mais para chegar ao ponto. O operador precisa observar a fumaça: ela começa densa e branca, passa por uma fase amarelada e finalmente fica fina e azulada, sinal de que os voláteis já saíram e a madeira já virou carvão. Esse é o momento de selar todas as entradas e saídas de ar do forno.
Vedar oxigênio é o que impede o carvão recém formado de continuar queimando e virar cinza. Depois dessa etapa, é fundamental esperar pelo menos 24 horas para abrir o forno, garantindo que o material interno esteja frio. Jogar água sobre o carvão quente para acelerar o resfriamento é prática desaconselhada, porque pode rachar as peças e prejudicar o rendimento da queima. Um forno de carvão vegetal artesanal bem cuidado, do tamanho descrito nos tutoriais filipinos, costuma render entre um e um saco e meio de carvão por ciclo.
Cuidados de segurança ao fazer carvão vegetal no quintal
Apesar da simplicidade aparente, o processo envolve riscos sérios. O principal é o monóxido de carbono liberado pela pirólise, gás incolor, inodoro e potencialmente letal em ambientes fechados ou pouco ventilados. Por isso, fornos como o pugon devem ser instalados sempre em áreas abertas, longe de janelas, garagens e dormitórios. A inalação prolongada da fumaça emitida durante a queima também é nociva ao sistema respiratório e está associada a doenças pulmonares em produtores que trabalham sem proteção.
Outro ponto crítico é o risco de incêndio. A queima de madeira em fornos rudimentares pode liberar centelhas e brasas, especialmente nas primeiras horas, quando o fogo ainda está se estabilizando. Quem decide testar a produção caseira de carvão vegetal precisa escolher um terreno isolado de mato seco, telhados de madeira e materiais inflamáveis, manter equipamento de combate a fogo ao alcance e nunca deixar o forno sem supervisão durante as etapas iniciais da queima.
O que diz a legislação brasileira sobre produção de carvão vegetal
No Brasil, a produção de carvão vegetal é regulamentada pelo IBAMA e por órgãos estaduais. O Documento de Origem Florestal, conhecido como DOF, é obrigatório para o transporte e o comércio de carvão vegetal de origem nativa, conforme normas vigentes para produtos florestais. Em estados como o Paraná, há ainda restrições adicionais: a Portaria IAT nº 204, de 2020, proíbe expressamente a instalação de fornos de carvão dentro do perímetro de áreas urbanas, em Áreas de Preservação Permanente e em Reserva Legal de imóveis rurais.
Quem pretende produzir carvão vegetal mesmo em pequena escala precisa, portanto, verificar a legislação do seu estado e do seu município antes de montar qualquer forno no quintal. Isso vale tanto para o consumo próprio quanto para qualquer tentativa de venda. A regularização envolve cadastro junto a órgãos como o IBAMA e os institutos ambientais estaduais, especialmente quando há corte de árvores envolvidas. A informalidade pode caracterizar crime ambiental e gerar multas significativas, mesmo em volume reduzido de queima.
O pugon mostra como uma técnica antiga e replicável de produção de carvão vegetal continua relevante em pleno século 21, especialmente em comunidades de baixa renda em que o aproveitamento de madeira descartada vira fonte de combustível e renda. Para curiosos no Brasil, vale o aviso: o método é interessante do ponto de vista cultural e técnico, mas exige cuidado redobrado com segurança e atenção total à legislação ambiental local antes de qualquer teste prático.
Você já tinha ouvido falar da técnica filipina do pugon? Acha que faz sentido produzir carvão vegetal no quintal mesmo em cidade pequena, ou prefere comprar pronto no mercado? Deixe seu comentário, conte se já viu uma produção artesanal de carvão de perto e compartilhe a matéria com quem curte churrasco, gastronomia rústica ou energia de biomassa.


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